segunda-feira, 14 de agosto de 2006

BIZANGO - CAPÍTULO 6: UM MUNDO MELHOR


 Márcio Massula Jr.

- Certo Francisco. Pode deixar que assumimos daqui.

O MM (meeting mensal) era uma forma da empresa obliterar distâncias hierárquicas e aproximar a alta administração do pessoal que trabalhava no chão-de-fábrica. O objetivo era deixar a diretoria a par dos problemas e soluções levantados pelos analistas e dar a chance da opinião de todos tivesse o mesmo peso. Contudo, com o tempo surgiram as versões revisionistas, e houve quem dissesse que tudo não passava de um mecanismo dissimulado de seleção natural, sendo que os analistas que não apresentassem sugestões MUITO boas num período determinado de tempo – nunca se chegava a um consenso sobre este ponto específico – estavam com os dias contados. No emprego, que fique bem claro.

Francisco chegou à reunião ligeiramente atrasado. Felizmente, o cafezinho preparado por Dona Esmeralda estava especialmente saboroso naquele dia, e os outros nem perceberam que o intervalo – na verdade um prólogo – do café excedeu o horário em alguns minutos. Alguns dos seus colegas notaram que ele não aparentava estar bem. Ele desconversou e deu início à apresentação. Estavam lá Carvalho, o Diretor de Manufatura, Firmo, o gerente da PESQUISAS AVANÇADAS, os gerentes dos setores de Engenharia de Processos, de Manufatura e de Desenvolvimento, mais alguns supervisores técnicos, e claro, os analistas. Francisco, aliás, era um deles. Mas, a despeito de sua timidez natural e da platéia intimidadora, a performance de Francisco foi brilhante. Através de planilhas e gráficos preparados criteriosamente, ele conseguiu provar para toda a cúpula da empresa que suas preocupações tinham fundamentos, que a eliminação de todos os potenciais imbróglios em que a empresa pudesse se meter por causa do chiadinho ultra-sônico justificaria o acréscimo de 0,24% no preço do componente (que, por sua vez, seria retransmitido pelas montadoras aos consumidores como algo na casa dos 2% sobre o preço do veículo), que isso poderia servir de munição ao departamento de marketing, sob a bandeira da responsabilidade social e que, como seres humanos, era obrigação deles tornar o mundo um lugar melhor.

A salva de palmas que se seguiu à ultima palavra de Francisco deu a tudo um ar de comercial veiculado em horário nobre. Ou, talvez, a cena final de um daqueles filmes bem bonitos. Tudo muito plástico, tudo muito legal. Tudo podendo acontecer em qualquer emaranhado quântico de possibilidades. Pena que só aconteceu na cabeça de Francisco.

Sim, ele chegou atrasado. E sim, após explicar em linhas gerais (bem gerais) de que se tratava aquela pilha de memorandos que trazia sob o braço, ele foi interrompido por Firmo, o gerente da PESQUISAS AVANÇADAS com:

- Certo Francisco. Pode deixar que assumimos daqui.

E a história acabou por aí. Francisco olhou em desespero para Ezequiel, o gerente da Engenharia de Processos, que além de chefe, fazia as vezes de conselheiro, mestre jedi e pai postiço. Mas ele não deu sinais de que ia intervir a favor dele, que, a propósito, nem teve oportunidade de sacar do bolso o pen-drive repleto de arquivos de referência, entre eles uma apresentação feita com tanto carinho que derreteria qualquer um dos corações ali presentes, pode apostar.
Na sequênciaa, a atenção de todos derivou para um problema mais urgente, que tinha a ver com uma visita importante e com a cor do piso da fábrica. Aquilo foi o golpe de misericórdia, e as lembranças do pinto-glacial invadiram-lhe a cabeça como um vagalhão. Ele pediu licença aos companheiros e se retirou da sala. Estava bebendo água quando Ezequiel lhe encontrou.

- Olha Chico, desculpe, mas eu não pude fazer nada. Esse pessoal da AVANÇADAS tem muita moral, você sabe.

- Pô, Seu Ezequiel, eu trabalhei nisso tanto tempo...

- É, eu sei.

- Eles nem quiseram me ouvir.

- Na verdade, o Firmo é que não quis ouvir.

- Como assim.

- Já sabe o procedimento.

- O senhor não disse nada.

- Isso. Existe um boato de que todos os setores de engenharia vão passar por um processo de reengenharia, entende?

Francisco não entendeu a piada.

- Estão dizendo que a PESQUISAS AVANÇADAS vai abocanhar tudo. Processos, Manufatura e Desenvolvimento.

- E?

- Ora! Quem você acha que vai mandar na gente?

- ...

- Acho que você ainda não pegou a idéia, moleque. Você não está bem hoje, não é? Está com uma cor estranha. Meio... acinzentado. Tubo bem com você?

- Hã... mais ou menos. Não estou legal. Mas vai passar. Acho. Mas, qual é a idéia?

- A idéia é que o Firmo te cortou não por achar sua idéia dispensável, mas porque gostou dela.

- ?

- Bem, acredito que ele já esteja pensando como futuro chefe de todos nós, e na cabeça dele, esse tipo de trabalho não poderia ter passado despercebido de jeito nenhum, entende? Até o Carvalho ficou assustado com aquela papelada toda! Você causou boa impressão. Agora nós temos que pensar num jeito do Firmo não conseguir levar o crédito sozinho.

- Mas ele não devia levar crédito nenhum!

- Mas vai levar. E eu também. Nós estamos numa empresa e existe uma hierarquia a ser seguida, correto?

- Correto.

- Certo. Bem, agora que você entendeu, a gente tem que pensar numa maneira de botar na bunda desse cara.

Vinda da boca de Ezequiel, uma frase terminada com uma expressão chula era o mesmo que dizer “a casa vai cair”. Restava saber para qual lado.

domingo, 13 de agosto de 2006

ECLIPSE TOTAL

Caralho maluco! Saiu disco novo do Amorphis e eu nem fiquei sabendo. E tá uma pedrada, viu? Tem duas faixas lá no myspace.
(já te falei que adoro bandas de metal que viram a casaca?).
[Só pra constar, Tuonela é um dos dez melhores discos de rock já feitos.].
Ainda continuando nas bandas que passaram para o lado branco da força (se bem que essa passou demais!), saiu o novo do Theatre of Tragedy também (já há certo tempo, é verdade). Dá pra ouvir algumas faixas lá no myspace deles. Acho que ficou um pouco menos constrangedor que o Assembly. Mas não sei, tenho que ouvir tudo.

PCC

ATÉ QUANDO VAI DURAR ESSA PUTARIA?

Até as eleições?

MIGRANDO PARA OS QUADRINHOS

Douglas Rushkoff soltou algumas observações interessantes lá no Engine sobre as indústrias de quadrinhos e livros (dos states, off course).

DOUBLE DICK EM NÓS

Esqueci de postar isso.
Estão querendo fazer outra cinebiografia de um dos padroeiros deste lugar.
Sim, o amado, idolatrado, salve-salve, Philip K. "Do Androids Dream of Eletric Sheep?" Dick.
Aguardemos, pois.

terça-feira, 8 de agosto de 2006

LOCAL DE TRABALHO

Engraçado. Dias depois de cruzar com a sala de trabalho do Will Self (alguns posts atrás), esbarro com esse thread lá no Engine, e, na seqüência com esse blog, que eu achei muito bacana.

SOCCER BOT MAYHEM

Pesquei isso lá no blog de tecnologia da New Scientist. Embora o futebol normalmente não esteja entre meus 100 assuntos preferidos, o segundo substantivo do título já entra na parte que me toca (ui!), e achei muito bacana essas traquitanas japonesas. E, a propósito, meu filho vai adorar.
Depois coloco aqui os comerciais do Citröen C4, que são o maior barato.

domingo, 6 de agosto de 2006

NÃO SE FAZEM PROGRAMAS INFANTIS COM ANTIGAMENTE

Dois caras chegam na delegacia, rendem o guarda, um deles rouba seu equipamento e sai tirando onda de arma em punho (tentando impressionar a gatinha da vez, inclusive).
Traficante brasileiro?
Rebelde iraquiano?
Que nada, esse é mais um dos hilários (de tão esquisitos) plots de Kure Kure Takora (ou Gimme Gimme Octopus) obscuro seriado japonês da década de 70 (tinha que ser), cujos episódios podem ser encontrados aos montes no Youtube. Politicamente incorreto até o osso, pode lhe render umas boas risadas.
Abaixo, a descrição postada por um dos membros do YouTube:
“A messed-up kids program which first appeared on the Japanese Broadcasting Corporation's JOCX-TV on October 1st, 1973.
Every episode is basically about Kure Kure Takora wanting something that belongs to the other characters and then tries to steal it.

While the episodes only run 2 and a half minutes each, you'll be treated to acts of:

* anti-social behaviour (always guaranteed)
* random violence (guaranteed)
* cannibalism
* Love triangles that cross not only species but also plant/animal classifications
* torture
* set decorations inspired by Fauvism
* suicide attempts”
Agora, sente o drama:
GIRLS DIG GUNS.
Viciei.

sábado, 5 de agosto de 2006

WILL SELF’S WRITING ROOM








Tava dando uma bandeada pelo site de um dos preferidos da casa e acabei parando aqui.
Vai gostar de post-it assim lá na casa do caralho.
Baguncê da porra.

sexta-feira, 4 de agosto de 2006

TAPA NA PANTERA

O maravilhoso mundo do Youtube. Esse vídeo já andou fazendo barulho por aí. É ficção, mas nem por isso deixa de ser muito engraçado.
(vamo vê se esse template veínho aguenta o tranco)

A NATION OF NEUROTICS? BLAME THE PUPPET MASTERS?

Engraçado ler isso hoje (pesquei no Hector, que pescou no Ellis), porque me lembrei de HOBBY ESTRANHO, conto que o Vetusto publicou na terceira edição da CASA DO TERROR uns anos atrás, e que parte do mesmo princípio.

XIII - 1

XIII - Número 1

Fiquei meio cabreiro e diria, até, incrédulo quando a Panini anunciou que ia começar a publicar quadrinhos de procedência franco-belga.

Incrédulo por este tipo de material estar, já há alguns anos, sempre na periferia do que é publicado por aqui. Mas quando vi que a coisa era séria fiquei feliz, confesso. Feliz porque é um ponto a mais para a diversidade, e, sei lá quem disse, “a diversidade é o tempero da vida”. Além disso, é uma das grandes a investir nisso, o que reduz fatalmente as possibilidades de uma linha editorial abortada.

XIII - com roteiros de Jean Van Hamme e desenhos de W. Vance - é um quadrinho de ação, fartamente inspirado no livro (que anos depois viraria filme) A IDENTIDADE BOURNE. Sempre fico impressionado com a capacidade dos europeus em assimilarem e regurgitarem referências sem cair no pastiche. Estão aí os fumetti que não me deixam mentir. Mas, voltemos ao que interessa.

A hq (ou bd) começa quando um velho encontra um homem desacordado e muito ferido. Quando ele desperta, está totalmente desmemoriado e a única pista que tem sobre seu passado é um algarismo romano (o XIII) tatuado próximo ao pescoço. Ele é acolhido pelo casal que o resgatou e leva uma vida quase bucólica, até que um grupo armado invade sua casa e ele “descobre” que possui habilidades de combate muito acima da média. Daí em diante, pancadaria, tiroteios e intrigas pra ninguém botar defeito.

Um ponto interessante a se ressaltar é o modo como são feitas as hqs franco-belgas, totalmente diverso dos comics americanos, ao qual o leitor brasileiro está mais habituado. O formato padrão desses quadrinhos é o que se convencionou chamar de álbum, contendo, na grande maioria das vezes 48 páginas de quadrinhos e sendo lançado anualmente. Outro ponto interessante a se ressaltar é que as séries são finitas. Duram anos, mas sempre chegam ao fim. E o último álbum de XIII, o 18°, será lançado esse ano na França, encerrando a série. As edições de XIII que a Panini vem publicando contém 2 álbuns, então a publicação brasileira irá até o número 9. Pelo menos para mim, isso torna bem menos onerosos os 22 mangos que paguei pelo álbum. E há de se ressaltar a qualidade, claro.

Embora o proto-roteirista dentro de mim (piadas sem graça, serão punidas com força desproporcional, belê?) tenha chiado em dois ou três pontos ao longo das histórias, não há como negar que Hamme e Vance trabalham em plena sinergia. A história funciona. E bem. Fiquei curioso pra saber o que vem a seguir, que nos meus termos significa que o trabalho foi muito mais estimulante do que a maioria do material que tenho lido ultimamente.

E tô louquito pra ter em mãos BLUEBERRY e BLACKSAD.

P.S.: Só falta a Panini começar a publicar material nacional agora, né?.

P.P.S.: Desculpem. Não resisti.

UM POUCO DE BIBLIOFILIA.

Embora não me considere um literato nem proprietário de um acervo propriamente dito, tenho uma quantidade de livros, como direi...volumosa.
De uns anos para cá, comecei a esboçar um catálogo contendo algumas informações básicas, como nome da obra, autor, data de aquisição e se já foi lido ou não. Contudo, talvez movido por um certo romantismo, talvez por pura preguiça, fiz tudo manuscrito, o que, com o passar dos anos, se mostrou bem pouco prático. Então tive a “brilhante” idéia de digitalizar esse catálogo, adicionando, no processo, outras informações que julgo importantes.
A intenção mesmo era fazer uma biblioteca virtual, como essa por exemplo, mas a empreitada está além das minhas capacidades. E isso começou antes de eu descobrir o Libray Thing. De qualquer maneira, o trabalho serviu para que eu tivesse uma idéia mais concreta do que tenho em mãos (quaisquer piadinhas sem graça serão sumariamente punidas com uma invasão de worms!) e do que tenho pela frente, se é que vocês me entendem.
Descobri, por exemplo, que apesar de acreditar que tinha mais livros de ficção do que de não-ficção, o que ocorre é o contrário. Mas a impressão surgiu porque LI mais ficção do que não-ficção. Outra coisa que me deixou meio perturbado foi o fato de ter consumido pouco mais da metade dos livros que tenho. Trocando em miúdos, caso eu continue lendo no ritmo atual, vou passar uns bons anos sem precisar gastar nenhum tostão em sebos ou livrarias. Isso, claro, assumindo que eu vá realmente ler tudo o que tenho.
Houve uma época em que, além de ser facilmente mesmerizado por estabelecimentos que comercializam letras (mal do qual ainda sofro), eu também tinha um interesse quase obsessivo por assuntos esotéricos, e uma parte significativa da minha coleção é composta por tudo quanto é tipo de coisa relacionada ao tema, indo de medalhões como Eliphas Levi e titio Crowley a bizarrices como OS MAGOS ADVERTEM O BRASIL, um opúsculo delicioso de tão ridículo, onde os supostos descendentes da corte do Rei Arthur advertem, como já indica o título, a população tupiniquim sobre uma gama de assuntos supostamente de interesse nacional. Além disso, o único quesito necessário para a compra de um livro era que fosse *vagamente interessante*, e muito do que foi vagamente interessante há dez ou quinze anos atrás hoje já está totalmente fora da minha esfera de interesses.
Outro ponto a ressaltar é que a maioria esmagadora dos meus livros é composta por edições econômicas ou pockets (que não deixam de ser edições econômicas). Um dos extremos disso seria a coleção HISTÓRIA UNIVERSAL (totalmente incompleta), que, na época, era oferecida como brinde na defunta revista Semanário (alguém lembra dessa?).
Para os quadrinhos utilizo um software específico, então as hqs, independente do formato, não entraram.
Excluí e-books desta listagem, sejam eles versões digitalizadas de obras impressas ou concebidos originalmente como tal. O motivo é a facilidade muito maior de se catalogar arquivos. Mas pretendo listá-los também, numa categoria à parte, no futuro.
Os RPGs - cuja quantidade é bem razoável - também ficaram de fora, pela sua natureza particular (de partícula, que remete a princípio da incerteza). São Ficção ou Não-ficção? Também terão listagem separada.
Manuais e livros didáticos também foram desconsiderados, salvo três ou quatro exceções.
No meu catálogo analógico, que parei de atualizar meses atrás, assim que iniciei a versão digital, constavam 523 volumes (já descontando os RPGs, que batem na casa dos 100), mas um bom punhado foi deixado para trás quando saí da casa de minha mãe, vários anos atrás. Teria que fazer uma triagem, mas o destino de grande parte daquele montante, composto quase que totalmente por versões baratas de clássicos da literatura brasileira, será provavelmente a doação a uma biblioteca ou a alguém que se interesse. De qualquer forma isto vai demorar, visto os pouco mais de mil quilômetros que me separam do restante da família. O montante total foi de 471 livros (mas pode ser que eu tenha esquecido algum pelas gavetas da vida).
O formato escolhido foi a boa e velha planilha, feita no Excel. Fiz desta maneira porque, caso no futuro eu mude de idéia e me dê ao trabalho de construir um banco de dados, a migração dos dados será relativamente tranquila. Determinei todas as informações que julgava necessárias, mas, em nome da manuseabilidade, vários itens que eu também acho interessantes (tradutor, quando há. Capista. Essas coisas) foram desconsiderados, caso contrário seria necessário imprimir minha lista num formato A0.
Os quesitos que se salvaram foram:
AUTOR:
Óbvio.
TÍTULO:
Óbvio, novamente.
EDITORA:
Óbvio, de novo.
Tenho alguns volumes repetidos, publicados sob editoras diferentes. Houve uma época, por exemplo, em que tinha certo fetiche por METAMORFOSE. Planejei conseguir tudo quanto fosse edição que me surgisse à frente. Depois de três volumes, desisti. Mas que vou comprar aquela edição da Civilização Brasileira, que tem aquela capa maravilhosa, ah isso vou!
ANO PUBLICAÇÃO:
Refere-se ao ano de publicação do original. Determinar isso pode ser um tanto problemático quando estamos falando do Gilgamesh ou do Baghvad-Gita, ou mesmo livros que vieram com “escalas”, com traduções sobre traduções. Mas o Google tá aí pra isso, né?
EDIÇÃO:
Refere-se ao número da edição do exemplar. Isso pode ser problemático no caso de livros que tiveram sucessivas edições por uma editora, e, em seguida, por outra. Aqui considero apenas as edições lançadas pela editora do exemplar que possuo.
Além disso, parece haver uma diferença de nomenclatura de casa editorial para casa editorial, sendo que algumas utilizam também o termo reimpressão, deixando “edição” apenas para mudanças substanciais, como capa ou revisões.
ANO EDIÇÃO:
Ano de impressão do exemplar que possuo.
NACIONALIDADE:
Nacionalidade do exemplar que possuo, e não do original.
IDIOMA ORIGINAL:
Aqui talvez haja mudança, pela imprecisão das informações, como por exemplo, o inglês, onde não diferenciei o britânico, o americano, o canadense e por aí vai. No futuro vou refinar este critério. Talvez fosse bom cruzar este item com outro referente à nacionalidade do original. Pensarei em algo.
PÁGINAS:
Número de páginas. Considero páginas tudo o que está entre as capas: guardas, folhas de rosto, folhas em branco para dar volume, etc.
COLEÇÃO:
O nome da coleção, caso o livro tenha sido publicado dentro de alguma.
NÚMERO NA COLEÇÃO
Dando sequência ao item anterior
PREÇO ATUAL:
Preço médio encontrado em livrarias e sites.
QUANTO PAGUEI:
Quanto desembolsei pelo mesmo exemplar.
QUANTO PAGUEI (MOEDA ESTRANGEIRA):
Alguns poucos livros adquiri fora do país. Coloco o preço (quando tenho) em moeda estrangeira e converto para a cotação atual do Real nos campos PREÇO ATUAL e QUANTO PAGUEI.
QUANDO COMPREI
Comecei a registrar estes dados em 1999, mas comprei meu primeiro livro em 1993, então, salvo alguns casos especiais onde tenho como referenciar a data da compra, boa parte da coleção está na seção dos indigentes, e acabei criando uma data fictícia para esses livros.
LIDO?:
Obviamente, eu sei o que já li ou deixei de ler, mas a nerdice pede que isso seja exposto em forma de gráficos, e eu também quero saber quão tortuoso será o caminho até que tudo esteja devidamente lido.
TIPO:
Ficção ou Não-ficção.
================
OUTRAS ESTATÍSTICAS (a quem possa interessar).
Colocando tudo na planilha, tive acesso a um punhado de dados totalmente desinteressantes.
Fiquei sabendo que o idioma predominante, ao contrário do que eu pensava, é o inglês, ganhando fácil da língua materna, que ocupa o segundo lugar. A medalha de bronze ficou para o francês, seguido de perto pelo alemão, que ganhou por uma lombada de distância do espanhol. O sexto lugar foi para o italiano, e os outros idiomas (Árabe, Chinês, Grego, Hindi, Japonês, Latim, Norueguês, Persa, Polonês e Russo) disputam a lanterna, todos com menos de dez representantes. Compilações de textos escritos em vários idiomas diferentes ganharam o rótulo “Vários”. Um título ganhou o rótulo (provisório) “Indeterminado”.
E também constatei que o ano em que comprei mais livros foi 1999 (acho que era o subconsciente querendo me proteger do bug do milênio).

quinta-feira, 3 de agosto de 2006

Technorati Profile

Por aqui.

Tô querendo editar esse template não que já tomei altos couros.

BIZANGO - CAPÍTULO 5: BIZANGO COMICS


Márcio Massula Jr.

ZUMBÔ era uma HQ estranha. Publicada pela Bizango Comics, uma editora supostamente localizada em um subúrbio de Carrefour, Haiti, era escrita por uma pessoa que assinava Papa Guede e desenhada por outra que atendia por Barão Samedi. Era uma revista independente, impressa numa gráfica secreta só conhecida pelos autores, que temiam represálias por parte de grupos ligados ao governo e ao vodu. 

Poucas pessoas liam, e menos ainda se davam ao trabalho de conjecturar qualquer coisa a respeito da sua origem. Em 1999, sabe-se lá como, um exemplar caiu nas mãos de um dos últimos soldados americanos que estavam deixando o país após a ocupação de 1994. Este soldado, mesmo sem entender uma palavra de crioulo, o idioma falado pela maioria haitiana, gostou do material e resolveu apresentá-lo a um primo dono de uma pequena editora nos EUA. O tal primo, que tinha uma queda por material non-sense, também ficou impressionado com a revista e tentou entrar em contato com os criadores. 

Após uma busca cinematográfica, houve um encontro num terreiro vodu em algum país na América Central (Cuba, dizem as más línguas). Os criadores não apareceram, enviando um extravagante advogado que fechou um acordo que, segundo ele, seria vantajoso para todos. A pequena editora americana seria responsável pela distribuição mundial da revista, seriam os licenciadores do título para todo o mundo, com exceção óbvia do Haiti. Uma das exigências dos autores era que as revistas, independente do idioma ou do país onde fossem vendidas, teriam que ser impressas na gráfica secreta haitiana. Embora tenha relutado um pouco, o editor aceitou o acordo, acreditando que aquilo poderia até favorecer o marketing do título, o que de fato aconteceu. Obviamente, boatos começaram a surgir, alguns dizendo que as tintas utilizadas na impressão das revistas continham sangue de vítimas de rituais de sacrifício humano, ou ainda extratos feitos com plantas desconhecidas e outros ingredientes exóticos, outros dizendo que todo o dinheiro proveniente da venda das revistas era utilizado na compra de armamentos de uma facção radical haitiana que planejava um golpe de estado. O título foi um sucesso estrondoso no mercado americano, normalmente avesso a material estrangeiro que tenha sido produzido fora do Japão. Foi questão de tempo até chegar ao Brasil.

Zumbô (Zumbot, no original) era uma consciência eletromagnética rediviva, uma inteligência artificial deletada injustamente, mas que por um acidente tecnológico, fora recuperada do campo magnético da terra - o verdadeiro paraíso, segundo os autores. O lugar para onde todas as almas, artificiais ou não, iam - e carregada num corpo robótico sucateado, reativado pelo clamor da vingança. Um verdadeiro épico da ficção especulativa, passeava por temas tão diversos como a vida após a morte e analogias referentes a geopolítica haitiana. Tudo regado por um verniz tecnológico contaminado com uma versão muito particular da ideologia vodu. Contrariando todas as regras do meio, a revista, publicada ininterruptamente havia mais de seis anos, não se esgotava. Zumbô já tinha sido enviado a outros planetas, outras dimensões, ao mundo subatômico, ao mundo submarino, tinha voltado ao campo eletromagnético, depois tivera uma breve excursão pelas versões futuristas de alguns países, incluindo o Brasil, transformara-se em ator, em político, teve a memória atacada por um vírus e passou meses (em tempo real) como um mendigo robótico. Depois desenvolvera certa predileção por cpus alheias, o que lhe custou uma temporada num presídio em algum lugar da Sibéria, e atualmente era um ativista pelos direitos dos animais (embora não exitasse em sacrificar alguns para realizar seus protocolos místicos).

Francisco, mesmo atrasado, parou para comprar a edição da revista que acompanhava religiosamente todos esses anos. Era uma das histórias mais aguardadas, AGORA OU NUNCA. Seu Joca já tinha lhe reservado um exemplar como de costume, e ao ver o cliente, sacou o produto com a destreza de um jornaleiro querendo impressionar.

- Tudo bem Seu Joca?

- Opa, tudo Francisco. E você, está bem?

- To meio...passado hoje. Deve ter sido algo que comi ontem.

- Bem, agora que você falou, dá pra perceber que você está meio abatido. Vai pro trabalho assim  mesmo? Por que não tira um dia de folga e vai pra casa ler sua revista sossegado?

- Não, Seu Joca, hoje é um dia muito importante pra mim. Não dá pra faltar. E por falar nisso tô atrasado. Valeu Seu Joca. A gente acerta no dia combinado, beleza?

- Tá bom, meu filho. Vai com Deus então. E boa sorte lá no seu trabalho.

ENJOY THE SILENCE

Nem sabia que no novo do Lacuna tinha cover dessa música. Gostei.

WHO WANTS TO BE A ROCKET PIRATE?

Uma idéia que também tem o dedo do vovô Ellis e que parece interessante.

Tá a fim de publicar seus webcomics na faixa? Fale com ele.

(em inglês, viu?).

quarta-feira, 2 de agosto de 2006

BIZANGO - CAPÍTULO 4: NEM DOEU


Márcio Massula Jr.

Que Francisco se lembrasse, tinha ficado em estado de choque apenas uma vez, logo na infância, ao ter um pedaço do dedão arrancado por errar um chute quando jogava futebol descalço na rua onde morava. Não foi propriamente a dor, mas o sangue. O espaço delimitado como o campinho tinha marcas de sangue por toda parte, uma versão macabra daquelas marcações estratégicas que os técnicos faziam antigamente para orientar os jogadores.

Dessa vez não havia sangue.

Existia um buraco no meio das suas pernas, e o que costuma ocupar o lugar estava em sua mão esquerda, subvertendo a ordem natural das coisas. De qualquer uma delas. Era engraçado ter a piroca na mão, mas fora do lugar. Entre todas as associações feitas por sua mente no momento, consolo foi a que quase lhe arrancou um sorriso. Quase. Uma pessoa, um homem melhor dizendo, não deveria achar nenhuma graça numa situação desta. Devia sim ligar para o resgate (ou bombeiros, ou polícia, ou o que fosse) e rezar para que chegassem a tempo de salvá-lo antes que morresse de hemorragia. Mas era aí que morava o problema. Não havia sangue.

Francisco tocava-se, apalpando o cotoco que restara em sua virilha. Era possível ver, na medida do possível, seus corpos cavernosos, sua uretra, suas artérias e todos aqueles outros tubinhos que até pouco tempo atrás iam dar em algum lugar próximo à sua glande. Não havia sangue. A carne era de um vermelho escuro, plúmbeo, como se tivesse acabado de sair das mãos de um açougueiro.

Ele não conseguia se decidir. A parte racional de sua mente mandava que ligasse para algum dos números de emergência estampados na primeira página do catálogo telefônico, mas apenas cogitar todas as explicações que teria que dar sobre o que ocorrera antes do sinistro já era constrangedor demais. Dirigir-se a um hospital também não melhoraria muito a situação.

- Veja doutor, tive um pequeno contratempo, um pequeno acidente doméstico, se é que podemos dizer assim, mas segui todos os procedimentos e trouxe devidamente conservada a causa do problema.

O doutor abre o embrulho, examina o conteúdo, e extremamente clínico diz:

- Oh! Não tema, Sr. Francisco. O senhor veio até nós em tempo hábil. Acho que podemos fazer alguma coisa e vai ser questão de meses, poucos anos no máximo, até que as coisas voltem a ser como eram antes, me entende?

Não, definitivamente, não. Mas seu camarada de poucas e boas não poderia ficar ao relento.

Fracisco lembrou-se de vários casos que vira na televisão, onde vítimas de acidentes que resultaram em amputação conseguiram que o reimplante fosse feito por terem tomado alguns cuidados com as partes seccionadas, como, por exemplo, acondicioná-las em saquinhos com gelo. Ele foi à cozinha, abriu a geladeira, tirou a fôrma de gelo, pegou um saco plástico - tudo sem soltar o falo - e quando tentou iniciar os preparativos para a criogenia do próprio bigolin, constatou que teriam que se separar. Aquilo lhe provocou certa angústia, um aperto no coração, como se o fato de deixá-lo ali, à revelia em cima da pia de mármore barato, fosse de alguma maneira decretar o fim do relacionamento que já durava havia quase uma vida. Titubeou, mas vendo que não tinha alternativa, deixou o instrumento em cima da pia e pôs-se a trabalhar. Enquanto enchia o saco com gelo, pensava em todas aquelas pessoas que pagavam fortunas para que seus corpos fossem partidos em pedaços e congelados, na esperança de serem revividos num futuro melhor. Seria aquele o destino dele? Seria seu pinto o legado que deixaria para a humanidade?

Francisco percebeu que estava com fome, e não pôde deixar de notar a semelhança do próprio órgão com uma salsicha. Uma salsicha das mais esquisitas, como aquelas alemãs, é bem verdade, mas ainda sim uma salsicha. Ele pegou o antigo anexo e começou a apalpá-lo, aproximou-o do nariz e inspirou profundamente aquele aroma, que seu cérebro decodificou como bastante agradável. Suas papilas gustativas imploraram em coro para que ele tirasse um naco daquilo com os dentes, e para dar o toque final, sua boca fez o favor de encher-se de saliva, como num daqueles belos comerciais de produtos alimentícios.

Foi só quando seus dentes tocaram na carne fria é que Francisco se deu conta do que estava fazendo. A manhã já tinha sido estranha demais, e não precisava terminar sendo coroada com uma atitude daquelas. 

Ele lançou o moribundo dentro do saco plástico, lacrou-o e colocou o embrulho no congelador, a partir de agora um esquife doméstico. Francisco precisava se acalmar e aquele não era o melhor momento para tomar uma decisão relativa ao antigo companheiro. Aparentemente a separação dos dois não tinha apresentado nenhuma consequência funesta, como era de se esperar, e aquilo teve um efeito extremamente libertador sobre ele. O que tinha esperado até agora poderia esperar até mais tarde. Havia a reunião, havia pessoas esperando por ele e havia uma revolução a ser feita. Ele tinha que ir.

terça-feira, 1 de agosto de 2006

OS INIMIGOS NÃO MANDAM FLORES

Engraçado que nenhum site de quadrinhos tenha dado a letra. Eu mesmo fiquei sabendo através de excerto da reportagem enviado a uma lista de discussão que frequento. Mas vá lá.

Finalmente vemos o primeiro (de muitos, espero) título nacional da Pixel. Claro, houve o Colin, mas Colin já é clássico e transcende qualquer terminologia.

Nunca li nada do Férrez, mas simpatizo com ele e acho que a hq vai agradar, sim. Infelizmente não consegui pescar nenhuma imagem na rede, a não ser esse vídeo no YouTube.

E que venham mais.

BIZANGO - CAPÍTULO 3: PESQUISAS AVANÇADAS


Márcio Massula Jr.

O curso de Engenharia da Administração era relativamente novo. Visava "preparar profissionais para o futuro, aguçando-lhes a visão e as faculdades mentais para que, de maneira inovadora, atuassem na resolução de problemas, ou melhor, na Engenharia de soluções, Administrando assim, de maneira vanguardista, o capital e os recursos humanos". Ou pelo menos era o que estava escrito no panfleto, que, diga-se de passagem, deve ter surtido efeito, visto que as primeiras turmas foram concorridíssimas. 

Nada a ver com os preços também "competitivos" da universidade, em média 80% mais barata que as outras. Francisco foi um dos primeiros a se inscrever, e por isso mesmo conseguiu se formar antes que o Ministério da Educação fechasse a escola, abolindo de uma vez por todas o tal curso de vanguarda. Um curso não reconhecido pelo MEC era uma mancha indelével no currículo, mas Francisco tratou de abastecer o seu com muitos cursos oblíquos, seminários, palestras, pós-graduações relâmpago e MBAs tropicais, criando assim uma verdadeira cortina de fumaça letiva ao redor das suas qualificações superiores, artifício muito eficiente na hora de confundir entrevistadores.

De qualquer maneira, após percorrer boa parte da estrada trilhada por todos os jovens sonhadores recém-formados, ele conseguiu um bom emprego numa empresa multinacional, o que, no frigir dos ovos, não lhe deixava menos tenso, já que sua farsa poderia vir à tona a qualquer momento.
E pra piorar tudo, aquele seria o dia da reunião, o dia que daria início à ascensão meteórica de Francisco - se tudo desse certo.

A Backspace Componentes Automotivos era pioneira no seu ramo. Fabricava uma gama imensa daqueles componentes obscuros sobre os quais mesmo os mecânicos mais experientes pouco sabem. 

Insonorizantes laterais, suportes refratários, parafusos de ajuste helicoidais bipartidos, coxins sazonais, etc. A Backspace também mantinha um curioso recorde, que foi tema de revistas corporativas várias vezes: havia mais de dois anos que nenhuma sugestão do Programa de Geração de Idéias era aprovada. 

Como todos os outros milhares de programas deste tipo, o da Backspace promovia a premiação dos funcionários em dinheiro, em valores que variavam conforme a economia proporcionada pela sugestão. 

Mas o nível de excelência era tão alto que praticamente todas as boas possibilidades haviam se esgotado. Era uma empresa perfeita, tanto em termos de qualidade do produto como do desempenho.

A Backspace era tão metódica e obcecada com a performance de seus produtos que criou uma seção, a PESQUISAS AVANÇADAS, apenas para colher dados precisos a respeito do impacto dos seus produtos nos usuários finais. Não era estranho encontrar relatórios que falavam sobre a "os efeitos da deflexão de radiação UV solar nos puxadores dos isqueiros, em dias ensolarados, no globo ocular humano", ou ainda "parâmetros otimizados para escolha de texturas conforme amostragem realizada no baixo Jequitinhonha". Francisco, embora não trabalhasse lá, tinha certo apreço pelo trabalho daqueles homens e procurava se manter informado sobre os rumos e as novas descobertas da PESQUISAS AVANÇADAS. E um daqueles documentos lhe chamou a atenção certo dia. Falava sobre um ruído provocado por uma guarnição de plástico que era montada entre o acoplamento da transmissão de certos veículos populares. O tal ruído, provocado pelo atrito entre o plástico e os metais, era imperceptível ao ouvido humano, contudo transformava-se num verdadeiro tormento quando era ouvido pelos cães ou pelos infelizes portadores da síndrome de Lynn-Miller.

Essa doença, que durante muitos anos foi confundida com o mal de Frank-Varley e depois com a DPAC, era uma típica cria do século XXI. Não havia estudos sólidos até aquele momento - sendo que a doença em si tinha sido descoberta poucos anos atrás - mas as principais correntes apregoavam que aquela era apenas a ponta do iceberg, apenas a primeira de muitas doenças estranhas surgidas em tempos de poluição eletromagnética, efeito estufa, excesso de informação, comida gordurosa, abduções, sexo seguro e cerveja sem álcool. Os portadores dessa síndrome - em sua grande maioria jovens na casa dos vinte - nasciam com o ouvido interno hipertrofiado, podendo ouvir sons emitidos numa frequência muito maior do que os usuais 20 Khz captados por um ouvido humano normal, o que significava dizer que sua audição poderia chegar perto da de um cão. O problema era que o cortéx auditivo dessas pessoas não vinha preparado com os milhões de receptores neurais extras que seriam necessários para que essa nova gama de sons pudesse ser interpretada de maneira satisfatória. Ruídos em frequência ultra-sônica, para essas pessoas, era o mesmo que, nas palavras de um portador, "ter a cabeça atravessada por uma agulha de tricô".

Até o momento, não tinha chegado à PESQUISAS AVANÇADAS nenhuma notícia de reclamações de clientes (tanto as montadoras para as quais a Backspace fornecia quanto os clientes finais) referentes a tal guarnição. Mas existia um estudo que afirmava que a população de portadores da Lynn-Miller duplicaria num espaço de cinco anos, e as projeções mais otimistas mostravam um número seis vezes maior nos dez anos subsequentes. Foram aquelas histórias que comoveram Francisco, e seria uma pequena mas significativa melhoria na qualidade de vida daquelas pessoas o seu estandarte, o núcleo do projeto no qual ficaria imerso nos próximos seis meses da sua vida. E se alguém lhe dissesse que a Lynn-Miller ocorria em apenas uma entre quinze milhões de pessoas, ele delicadamente diria "foda-se". 

Mas não com essas palavras.

segunda-feira, 31 de julho de 2006

BAÚ DA GRAFIPAR

Gian Danton e Leonardo Santana estão fazendo um trabalho arqueológico pra lá de interessante: criaram um blog cujo assunto é a história da já defunta editora curitibana Grafipar, que se diferenciou na época por apostar pesado em quadrinhos nacionais e até hoje é tida como referência no meio. Dá uma olhada lá, peixe.

BIZANGO - CAPÍTULO 2: MAIS VALE UM PÁSSARO NA MÃO...

Márcio Massula Jr.

Ainda estava quente. Ainda estava quente e pulsava.

Francisco evitava olhar para sua mão esquerda. Ele nunca imaginou que fosse tão grande. Ou tão feio. Deu um grito que teria assustado os outros moradores do apartamento, caso alguém mais morasse com ele, claro. Aquilo não estava acontecendo, só podia ser um pesadelo, um daqueles típicos pesadelos hollywoodianos, sonhos dentro de sonhos, pesadelos dentro de sonhos e não precisamos de mais exemplos. Creio que vocês acompanharam, não?

Armado com todo o repertório que conseguiu resgatar em sua mente - àquela altura, já dando indícios de não estar funcionando como se esperava - ele tentou todos os métodos que conhecia para comprovar se estava num sonho ou não. Primeiro, o mais óbvio. Se beliscou. Delicadamente. Na dúvida, repetiu o procedimento, dessa vez com mais força. Doeu. Ainda era cedo para desistir, pensou, e beliscou-se novamente com a mão direita. Doeu pra caralho. Teve que admitir que o próprio subconsciente seria um adversário de valor, um páreo duro, e como a força bruta não deu resultados, resolveu dar uma guinada na estratégia e apelou para métodos mais sutis. Tinha visto filmes e lido quadrinhos o bastante para saber que algum deles certamente funcionaria. Agora a estratégia era negar o que estava acontecendo. Fechar os olhos e imaginar-se acordando às sete, exatamente como vinha fazendo durante todos esses anos. Após desligar o despertador pela terceira vez (bem-aventurados sejam os inventores da tecla "snooze", porque deles é o Reino do Céu), ele se levantaria, iria ao banheiro, urinaria ainda sonolento - provavelmente errando por milímetros a privada -, depois ligaria o chuveiro e, enquanto a água esquentava, separaria todo o material necessário: escova de dentes, creme dental, barbeador, loção, e mais alguns cosméticos. Um banho rápido mas agradável, e depois ele iria para sua minúscula cozinha preparar algo para forrar o estômago até a hora do almoço. Desceria os três andares que separavam seu apartamento do solo e entraria no seu estiloso Maverick. Enfrentaria uma hora e meia de trânsito ou, em outros termos, gastaria um quarto do tanque de combustível e chegaria ao tão prezado ambiente de trabalho, com sorte, escapando de ser abalroado pelo chefe, que sempre tinha uma C.R. na ponta da língua, sendo Francisco culpado ou não.

Seu corpo relaxara, podia perceber, e agora precisava apenas abrir os olhos e cumprir sua rotina diária.

Abriu.

A coisa ainda estava lá.

Não desista, Chico, disse para si. Outras tentativas vieram. Gritou com um inimigo invisível, pediu perdão a Deus pelos seus pecados, e numa tentativa desesperada bateu os calcanhares três vezes e disse em voz alta "não há lugar melhor que o lar".

Desistiu. Era verdade. O pior tinha acontecido e teria que aceitar. Restava saber o que fazer com aquele pedaço de carne agora flácido em sua mão esquerda. Teria que dar muitas explicações constrangedoras, certamente. E a questão mais importante de todas: seria possível reimplantarem o seu pênis?

domingo, 30 de julho de 2006

BIZANGO

Oi!

Só pra dar um toque: tem histórinha nova lá no TXT.

BIZANGO nasceu uns dois anos atrás, de uma brincadeira de um grupo de escritores do que acabou não decolando. De qualquermaneira acabei deixando minha parte escondida num recôndito do meu HD e, dando uma fuçada hoje pensei: "por que não?"

BIZANGO uma série, dividida em pequenos capítulos, e é minha primeira experiência no sentido de escrever algo sem saber onde vou chegar. Tenho notas, tenho alguma coisa já pronta e uma vaga lembrança da intenção original. Mas acho que pode ser divertido.

E, só pra refrescar vossas memórias, o TXT fica aqui, ó.

BIZANGO - CAPÍTULO 1: O HORROR

Márcio Massula Junior.
Foi lindo.

Um menáge a trois onírico; Jennifer Lopez e Heather Michaels nos cantos do ringue e ele, Francisco, no meio. Suas estripulias teriam rendido material para um suplemento ao Kama Sutra, que daria dores de cabeça mesmo a um iogue experiente.

Então, o relógio despertou. Sete da manhã. Hora de levantar e ir para a empresa. Hoje era o grande dia e ele não podia se atrasar, de maneira alguma. Mas antes, uma pequena homenagem às duas musas.

Flic-floc, flic-floc, assim!, assim!,  flic-floc, flic-floc, flic...

Plop!

O horror, o horror.

quinta-feira, 27 de julho de 2006

UN TAL DANERI

Capa de UN TAL DANERI

Impressa num formatão pra lá de grande, em p&b com uns tons de cinza que achei cabulosos (e que até agora não sei se foram retículas bem vanguardistas para a época, ou se foi o bom e velho Photoshop), UN TAL DANERI, primeira colaboração entre o roteirista Carlos Trillo e a lenda argentina Alberto Breccia, “El Viejo”, já começa desconcertante por toda a expectativa que provoca.

São 8 histórias curtas, variando de 4 a 8 páginas, que contam a história de do tal Daneri (acharam que eu ia deixar passar essa, hein?), um gângster portenho que parece ser muito mais do que aparenta. Daneri, anagrama para Dante Alighieri, tem um faro especial para se meter em enrascadas e tragédias dignas de letra de tango. E os autores não negam que Borges foi a principal influência na hora de compor o personagem. Aí, já viu, né?

Das seis hqs, duas em especial (NÉLIDA e OJO POR OJO) são do tipo tapa no ouvido. Mas, apesar de eu ser fanzaço do Trillo, tenho que admitir que quem conduz tudo é mesmo Breccia. O palco principal é Mataderos, bairro de Buenos Aires muito caro a Breccia, e as histórias se passam numa época indeterminada.

O personagem só tem essas histórias, publicadas aos pouco, originalmente entre 1974 e 1978, em diversas revistas, argentinas e italianas, e esse álbum é a primeira reunião de todo o material no mesmo lugar. Segundo os autores, só não houve continuidade porque ninguém se interessou em continuar publicando. Mas todas as histórias são autocontidas.

A edição conta ainda com uma matéria introdutória e alguns esboços. Vale a pena.

O único senão fica pela curiosidade de saber até onde os dois autores teriam levado o personagem, caso tivessem seguido com ela.

P.S.: A série HISTÓRIETAS ARGENTINAS vai continuar assim agora, aos poucos, a medida em que eu for lendo o material. Decidi que fluirá melhor dessa maneira.

LE DÉCALOGUE


O texto abaixo é o comentário do camarada Pedro “Hunter” Bouça, mantenedor da lista de discussão EuroQuadrinhos (de onde foi extraído o texto, com a devida permissão) e também tradutor de XIII, do primeiro volume de ALDEBARAN, do vindouro BLUEBERRY e de otras cositas más.

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Há uma característica no quadrinho franco-belga que
perdura até os dias de hoje: O artista é a parte mais importante da
equipe criativa. Não há Goscinny, Charlier ou Jodorowsky que mude
essa tendência, cada série tem um artista fixo que dedica um ano de
sua vida (em média) desenhando (e às vezes também escrevendo,
colorindo e/ou letreirando) um álbum. Como substituições de
artistas são muito raras (até porque os personagens geralmente
PERTENCEM a seus criadores!), a identidade visual de uma série é
bem distintiva. Só se consegue imaginar o Lucky Luke desenhado pelo
Morris, o Asterix desenhado por Uderzo ou o Tintim desenhado por
Hergé. De uns tempos para cá a situação começou a mudar, mas ainda
funciona muito assim.

Frank Giroud, porém, decidiu mudar tudo.

Escritor de quadrinhos até então pouco conhecido, Giroud (nenhuma
relação com Jean "Moebius" Giraud) ofereceu à editora Glénat um
projeto ambicioso: Uma série em 10 volumes e com 10 artistas
diferentes, mas unida pelo roteiro e publicada em um espaço de
tempo pouco usual no quadrinho franco-belga (os 10 álbuns seriam
publicados em cerca de 2 anos, algo impossível nas séries assinadas
por um único artista).

O conceito era tão ambicioso quanto o projeto: Anos antes do Código
da Vinci, Giroud idealizou uma trama religiosa. Na história, o
profeta Maomé teria escrito (em uma omoplata de camelo) um decálogo
- ou seja, um conjunto de 10 mandamentos para a fé muçulmana, tal
como existe um para a fé cristã - que teria sido escondido dos
fiéis por seus sucessores, até, depois de um caminho longo e
turtuoso, chegar até nossos dias em uma versão romanceada, o Nahik,
que vai parar nas mãos de um escritor fracassado, que vê nessa
história uma chance de finalmente emplacar um sucesso.

Essa é a trama do primeiro álbum, sendo que os 10 álbuns
subsequentes recuam progresivamente no tempo até chegar ao "começo"
da trama, no tempo do próprio Maomé. Para além de se relacionarem
via a trama principal, os álbuns também têm como "tema" individual
cada um desses dez "mandamentos". Um curioso desafio para o
escritor, mas será que ele conseguiu?

Bem, ao menos os dois que eu li até o momento foram bem
interessantes. Na França a série conseguiu vendas (acumuladas, bem
entendido) na casa dos milhões e já gerou dois spin-offs (estes
séries mais convencionais), todos escritos por Giroud que, no
processo, tornou-se um escritor conhecido (atualmente desenvolve
uma outra série de múltiplos artistas, mas dessa vez girando em uma
única trama com diversos pontos de vista, Le Quintett, para a
editora Dupuis, em cinco volumes).
=================================================================

Depois de ler isso, claro que eu corri para o site de Glénat para conferir a parada e apesar do meu francês inexistente, além da premissa (e também da – com o perdão do trocadalho - gênese) bacana que o Pedro deu de bandeja aí em cima, a série é visualmente interessante. Pena que essas paradas não cheguem nem perto daqui.

GRANT MORRISON E DEEPAK CHOPRA

Lá em San Diego. O vídeo completo (1h e 27min) tá aqui.

Tio Hector foi quem deu a letra.

GRANT MORRISON E DEEPAK CHOPRA

Lá em San Diego. O vídeo completo (1h e 27min) tá aqui.

Tio Hector foi quem deu a letra.

segunda-feira, 10 de julho de 2006

CURSO DE GRADUAÇÃO – PRODUÇÃO DE HISTÓRIAS EM QUADRINHOS

Sidney Gusman já tinha tocado no assunto em sua coluna da revista Wizard do mês passado, mas hoje, numa lista de discussão, veio a notícia, diretamente de Hélio Lopes, editor da Pixel Quadrinhos e coordenador do novo curso de Produção de Histórias em Quadrinhos.

Ainda é cedo pra dizer se vai representar algo concreto nesse nosso mundinho das hqs, mas a notícia é boa e quer dizer que tem MAIS gente levando nossa arte preferida a sério.

Vejamos, vejamos.

MISO SOUP

Com o perdão do trocadilho, uma delícia. É de um Murakami, mas não desse que você está pensando.

Me empolgou mais, a propósito, do que TRANSEUROPA, que tem a premissa interessante, mas peca na execução.

Ficarei de olho puxado nesse tal de Ryu Murakami. Ficarei sim.

E agora, de volta ao limbo. Tchau.

EM TEMPO: Sei lá porque, sempre que penso em Frank, o turista americano, me vem à mente o rosto de Warren Ellis, roteirista-chorão inglês por quem, com certas reservas, sinto admiração.

domingo, 2 de julho de 2006

TXT

Pessoal, as falanges proximal, média e distal voltaram a funcionar com um mínimo de harmonia, e minha mais nova caixinha de areia pode ser encontrada na url:
Por enquanto estou recauchutando algumas coisas que já deram as caras em outras plagas digitais, mas dentro em breve pintarão os inéditos. Depois, se quiserem dar uma conferida, apontem seus browsers nessa direção e pá!
Obrigado pela atenção e voltem sempre.

O DRIVER DE PANDORA

Marcio Massula Jr.

- Então Sr... – o homem apertou os olhos, aproximando a folha do rosto. Certamente não enxergava direito, embora não usasse óculos - ...Gilberto. É isso mesmo?

- Sim, senhor. Gilberto – Limitou-se a responder o rapaz.

A sala era decorada num estilo clean, toda branca, com apenas duas cadeiras, uma mesa, um computador - do qual eram visíveis apenas o teclado e o monitor - e vários armários, todos também imaculadamente brancos. Gilberto pensou que talvez fosse para combinar com a roupa do Sr. Prudente, o entrevistador. Porém, o que chamava a atenção era a disposição da mobília naquela sala. Gilberto estava de costas para a imensa janela, que ocupava quase toda a extensão da parede, cuja vista abraçava a cidade até que ela se perdesse no horizonte. Até onde sabia, o usual era sentar-se de frente à porta. A mesa do Sr. Prudente, contudo, ficava de frente para a janela. Ele devia apreciar muito aquela vista.

- Vejamos...doutorado em física aos 23 anos...especialização em mecânica quântica...impressionante. Realmente impressionante. Temos um gênio aqui, hã? Realmente impressionante... – Repetia Prudente, sem tirar os olhos do currículo. – Li seu artigo, Evitando a formação de pares aniônicos espúrios através de uma topologia computacional quântica repensada. Fascinante! Deve ter dado trabalho verter aquilo para o mandarim, não?

- Hã...acho que não fui eu quem escreveu isso...

- Como? Ah, sim! Me desculpe! Não sei onde estava com a cabeça. Nosso cronograma está me matando. Esse é outro garoto. Você é o menino dos sistemas heurístico-caóticos. Do blog, não é?

- Isso.

- Bem, Sr. Gilberto. Algum problema se eu chamá-lo apenas de Gilberto? Não? Ótimo! Como sabe, nossa empresa atua no ramo de softwares técnicos e de segurança. E, de uns anos para cá temos enveredado pela internet. Mas você já deve saber disso, não é? Hoje em dia, sabe como é, a informação é a moeda mais valiosa do mundo. Na verdade ela tem o poder de mudar o mundo. E nós da APSE não podemos ficar de fora dessa corrida, concorda?

Gilberto balançou a cabeça afirmativamente.

- Daria pra ver esse sinal de interrogação estampado em sua testa do outro lado da rua. Estou fazendo todo esse rodeio pra chegar num ponto. Você! – O Sr. Prudente, como um Tio Sam decrépito, apontava o indicador inquisitorial para o rapaz e o murro que deu na mesa só deixou a situação mais espalhafatosa. – Você Gilberto! Você é a peça-chave nesse jogo! E nós queremos você do nosso lado!

O rapaz ficou meio assustado com o comportamento do hipotético patrão, mas aquela fugaz sessão de massagem em seu ego fez com que se acalmasse um pouco. Só um pouco. - Gilberto, meu querido, o quanto você entende de computadores? – Perguntou o velho, menos agitado, esfregando a palma de uma de suas mãos enrugadas nas costas da outra.

- Bastante – Gilberto sentia que estava pisando em terreno conhecido agora.

- Entenda Gil...posso te chamar de Gil? – Gilberto permitiu-se dar um pequeno sorriso. Se o presidente da empresa era assim, o que dizer do resto. Ele estava realmente gostando daquele lugar.

- Pode sim senhor – Gilberto havia abandonado a posição ereta inicial e já se acomodava confortavelmente na cadeira.

- Entenda Gil, que a pergunta que lhe fiz agora é totalmente retórica. É óbvio que conhecemos sua habilidade com os computadores. Você e mais quatro foram selecionados entre aproximadamente dez milhões de garotos. Sabe o que é isso? Você simplesmente deixou dois milhões de concorrentes para trás, ou melhor, um milhão, novecentos e noventa e nove mil, novecentos e noventa e nove para ser mais exato.

Gilberto sentiu-se tenso novamente, mas dessa vez era uma tensão diferente. Era boa. Ele não sabia a respeito do número de concorrentes. Optara por não tentar invadir os sistemas da APSE. Eles eram os melhores do mundo. Além disso, escolhera fazer os exames normalmente, sem saber as respostas com antecedência. Pensou que poderia ser bom um pouco de adrenalina no dia das provas.

- Diga-me, você chegou a instalar o software que lhe demos?

- Sim, claro. Interessante aquela interface gráfica – Gilberto já estava à vontade o suficiente para emitir um comentário com mais de três palavras. Preferiu não dizer nada sobre o vírus que encontrou no cd.

- E o que você sabe sobre mim ou sobre a APSE, Gil?

Além de ser um investidor que surgiu do nada cinco anos atrás para se tornar dono de uma das maiores desenvolvedoras de programas para aplicações científicas, militares e industriais? Nada.

- Sei o que foi publicado na internet e passou na televisão.

- Ótimo! Ótimo! Tudo bem, eles não tem consciência do real propósito da APSE, mas não costumam se distanciar muito da verdade. Gil, você acredita em Deus?

Empresas modernas costumam levar em conta outros atributos dos seus potenciais funcionários. À primeira vista, a crença em Deus não tinha muito a ver com o desenvolvimento de programas para computador. Partindo desse princípio, Gilberto tomou fôlego e se preparou para a saraivada de perguntas sem nexo que estariam vindo na esteira desta. Talvez “qual é o seu prato predileto?”, ou então “já conheceu pessoalmente alguém com complexo de Édipo?”, ou ainda “em que posição costuma dormir durante os fins de semana?”, além da indefectível “por que você seria a melhor escolha para esse cargo?”. A grande maioria das pessoas não tinha uma resposta concreta para a última. Mas era um preço barato a se pagar por um emprego daqueles.

- Acredito...mais ou menos. Bem, acredito em Deus mas...é que...

- Tudo bem garoto – Atalhou o velho. – Creio que entendi seu ponto de vista. E no apocalipse, Gil, no fim do mundo, você acredita?

Gilberto sorriu, mais por estar certo quanto às perguntas vindouras do que por simpatia.

- Sei lá...vai acabar um dia não vai?

- Ah, sim, vai acabar, claro. Mas temo que seja bem antes do que você imagina – Disse o velho, arregalando os olhos, deixando sua testa ainda mais enrugada do que o normal. Continuou olhando para o jovem, esperando alguma reação ou palavra. Gilberto não disse nada, limitando-se a vasculhar a sala com os olhos, procurando um bom motivo para não encarar o velho. Os alarmes começaram a disparar em algum lugar do seu cérebro.

- Rá, vocês humanos! Sempre tão céticos e cobertos de razão. Basta que sejam ditas algumas palavras com um pouco de firmeza e pronto, lá se vão todas as convicções que vocês têm a respeito da vida e do mundo – O Sr. Prudente dizia aquilo mais para si mesmo do que para Gilberto, que aproveitou a pausa e perguntou, tímido:

- Desculpe Seu Prudente, mas o que isso tem a ver com meu emprego?

- Oh, mas tem tudo a ver com seu emprego meu caro. Tudo a ver... – Interrompeu sua frase com uma careta, levando a mão ao abdômen. – Desculpe, é meu fígado. Sempre tive problemas com ele.
Gilberto então atribuiu a quantidade excessiva de rugas no rosto e vasos sanguíneos rompidos próximos ao nariz não só à idade, mas também ao álcool. Teve vontade de rir com sua conclusão, mas conseguiu ficar sério.

- Já ouviu falar de algoritmos genéticos? Sistemas emergentes/imunológicos? Redes neurais? Reconhecimento de Padrões? – Perguntou o entrevistador, já recobrado do repentino surto.
Programas evolutivos, que se “melhoram” sozinhos a cada nova geração. Sistemas que decidem suas “metas” sem que essas sejam pré-estabelecidas. Malhas binárias que emulam o funcionamento do cérebro humano. Os alicerces para a criação da inteligência artificial. Ferramentas para que criação de programas avançados. Programas que dariam um nível de flexibilidade inimaginável a robôs industriais, por exemplo. Programas que poderiam fazer simulações com precisão quase total sobre o comportamento de sistemas como a bolsa de valores, variações climáticas ou mesmo o humor das mulheres com TPM. Programas que poderiam se tornar supervírus semi-inteligentes e altamente reprodutivos. Gilberto conhecia um pouco desses assuntos. Chegou a utilizá-los, de maneira rudimentar, em algumas de suas obras.

- Já, já ouvi falar sim senhor.

- Então deve saber que são ferramentas, métodos, utilizados no desenvolvimento de IA?

- Hã...mas, até onde sei, os progressos nessa área ainda não condizem com as reais possibilidades oferecidas – Disparou, tentando impressionar o futuro chefe.

- Ah não! Já existem softwares desse tipo poderosíssimos. Como o vírus que você eliminou ontem do seu computador...

Gilberto retesou-se na cadeira. Como aquele velho sabia? Talvez fosse um blefe. Ou melhor, um teste. Isso, um teste. Eles queriam saber se estavam contratando um cara bom mesmo.

- Esse era o vírus primário. Existia um secundário... – Prosseguiu o Sr. Prudente.
“Deletei esse também”, pensou Gilberto

- ...que também foi deletado por você imagino. Obviamente, dois chamarizes. O programa continha um vírus terciário, que tinha a única função de nos informar sobre seus progressos quanto aos outros dois...

- ...

- E, por último, mas não menos importante, o quarto vírus, auto-replicante (vocês chamam isso de worm, certo?) que segundo minhas projeções, já deve ter infectado alguns milhões de computadores ao redor do mundo, espalhando-se como um câncer binário por toda a internet. Será questão de horas, ou dias no máximo, até que atinja o alvo principal...

– Hã...olha Seu Prudente....o senhor está dizendo que usou meu computador pra espalhar um vírus por todo o mundo, certo? Bem...não me leva a mal nem nada, por favor, mas acho difícil de acreditar nisso, sabe? Tenho tudo quanto é tipo de firewall e antivírus que o senhor pode imaginar. Alguns eu mesmo inventei. Se houvesse outros vírus eu...saberia.

- Será que não entende Gil? A simplicidade de tudo isso? Enquanto você estava ocupado se divertindo com os dois vírus que encontrou, os outros dois estavam fazendo seu trabalho, escondendo-se e multiplicando-se dentro de sua máquina, aguardando a hora exata para escapar. Além disso, existem pessoas que estão no seu nível. Ou estavam...
Era um teste, tinha que ser.

- Hmmm....tá bom. Suponhamos que esses dois escaparam mesmo. Qual seria o objetivo do vírus quatro, então?

O velho olhou para a mesa, por longos segundos. Tamborilava os dedos, produzindo um ruído harmônico, ligeiramente agradável. Depois, juntou as mãos em frente ao corpo, de modo que as pontas dos polegares ficassem opostas uma à outra. Ergueu os olhos, encarando Gilberto. Era a primeira vez nesses vinte e poucos minutos que seu rosto assumia um ar sisudo, quase sombrio.

- Deixe eu lhe contar uma versão bem resumida da história: certo dia, alguém teve a idéia de criar vocês, humanos.

Era a segunda vez em que ele dizia aquilo. Humanos.

- Então, as coisas começaram a ficar confusas. Vocês começaram a ficar rebeldes, se multiplicavam rapidamente e o Criador, uma pessoa de visão, se é que podemos dizer assim, percebeu que dentro em breve, as coisas sairiam do controle. É aí que nós entramos. Viemos para tentar colocar um pouco de ordem na casa, por assim dizer.

- Vocês? Hã...como assim?

Já era possível notar certa empolgação no tom de voz do Sr. Prudente.

- Bem, cada um de nós teve um nome diferente, dependendo da região e da época onde estávamos. Talvez você tenha ouvido um ou outro por aí. Mas o que importa é que sempre gostei de vocês. Sério mesmo. Se não fosse assim, não teria lhes dado o fogo (que me causou certo embaraço na ocasião, devo dizer) o segredo da escrita, a roda, a pólvora, a eletricidade, a fissão atômica, a internet e a pornografia. Como eu nunca cultivei o hábito de consultar meus associados, a bomba estourou em minhas mãos e aqui estamos nós. Agora eu tenho que dar um jeito no problema que em parte é responsabilidade minha.

- Hmmm...olha seu Prudente, não tô entendendo aonde o senhor quer chegar...

- Calma, calma – Disse o velho, com a mão espalmada apontada para Gilberto – Já estamos chegando lá. Lembra-se do que lhe disse sobre o fim do mundo? E se você soubesse que o início do fim (perdoe a expressão. É horrível, eu sei) deveria ser amanhã, às 5:17 da manhã, horário local? O vírus quatro, aquele que você não conseguiu localizar a tempo, a essa hora já deve ter entrado em pelo menos um dos computadores da força aérea americana. O objetivo é que dentro de poucas horas alguns silos nos cafundós do Kansas (ou em qualquer outro lugar) se abram e cuspam seus ICBMs. O resto será conseqüência.

- Mas...

- Vocês estão destruindo o planeta. Quanto tempo acha que o meio-ambiente agüentará até que a Terra imploda? Capitalismo, comunismo e qualquer outro “ismo” em que se possa pensar são totalmente inócuos. Não importa se as configurações sociais adotadas por vocês são assimétricas ou não, justas ou não. Você acha mesmo que separar o lixo em recipientes coloridos vai reverter a situação? O estrago foi feito, é grande e agora não há mais retorno. Melhor começarmos de novo. Sinto muito Gil. Vocês são uma praga. E têm que ser tratados como tal.

O desânimo causado pelos rumos que a conversa apontava fez com que o organismo de Gilberto intervisse e protestasse. Um desconforto muito forte tomou seu corpo de assalto. Seus intestinos pareciam ter sido desenrolados, examinados e amontoados sem o menor critério de volta dentro da cavidade abdominal.

- Olha, Seu Prudente, não que eu esteja duvidando do senhor nem nada, viu? Mas acho que é meio impossível acontecer isso aí que o senhor tá falando. Olha só, os computadores da força aérea americana são isolados fisicamente, justamente pra evitar situações como essa. Eu mesmo já tentei invadi-los uma vez. Como seu vírus vai chegar lá? – enquanto falava, Gilberto gesticulava bastante, criando uma barreira pantomímica entre ele e seu interlocutor.

- Ao contrário do que parece, existem computadores ligados em rede, sim. Na verdade um, numa base secreta naquele deserto americano. Nevada, acho. É um sistema novo e como a base ainda é segredo, os americanos descuidaram-se um pouco no quesito segurança. E se você imagina que o problema é esse, não nos esqueçamos dos paquistaneses, dos norte-coreanos, dos chineses ou mesmo dos russos. Basta que apenas um míssil acerte o local, Gil. Os outros começarão a voar automaticamente. Como dominós termonucleares – Finalizou Prudente, contraindo levemente o canto esquerdo da boca, esboçando um sorriso, provavelmente satisfeito com a própria analogia.

- E, hã, tipo assim, onde eu entro nisso tudo? Se o mundo acaba amanhã, pra que me dar o emprego?

- O criador do vírus original, por um descuido meu, veio a falecer em circunstâncias no mínimo... inusitadas. A condição inicial para disparar os vírus três e quatro era neutralizar os dois primeiros. Um capricho do antigo programador. Ele também era um gênio. E foi aí que você “entrou”. Precisávamos de alguém para quebrar o código. Contudo, ele deixou o trabalho incompleto. Como você deve saber, sistemas emergentes ainda têm uma margem muito grande de imprevisibilidade. Acredito que isso talvez atrase o cronograma. E existe uma possibilidade muito pequena de que as mutações atinjam um grau de complexidade tão grande que o vírus perca sua meta e acione algum aparelho de ar condicionado em vez de lançar os mísseis.

- Hã...tá. Tudo bem. Certo. Se vocês são tão poderosos assim, porque não fazem o trabalho vocês mesmos? – Disse Gilberto, tentando parecer sarcástico.

- Cláusulas contratuais. Não podemos interferir diretamente. Já disse, preciso de você.

- Olha Seu Prudente, sei lá, tipo assim, não tô duvidando do senhor não, tá? Só tô achando meio estranha essa história mesmo.

- Ora meu jovem! Estou lhe dando a oportunidade de abreviar as coisas. Pense rapaz: se tudo der certo, os mísseis voarão apenas do lado de cima do equador. Claro, vai haver toda aquela coisa da poeira e inverno nuclear, mas existe a possibilidade de que este país não seja tão afetado assim. Talvez torne-se mesmo um oásis. Você estará apenas garantindo um futuro para seus filhos e netos. Acredite, se o colapso acontecer depois, vai ser muito pior.

Gilberto levantou-se bruscamente, batendo o joelho na quina da mesa e derrubando, sem querer, um punhado bem gordo de memorandos que estava na borda da mesa, assim como a cadeira. Conteve-se ao soltar um “ai!” (que as más línguas diziam ser extremamente afeminado), sem saber ao certo se pressionava o joelho com as duas mãos, se pegava a cadeira, se reorganizava os papéis ou se desaparecia dali. Mas não queria mais encarar o Sr. Prudente. Optou pelos papéis. A despeito de qualquer critério, começou a juntar tudo em pequenas resmas, que depositava nas imediações da pilha original, rapidamente. Ainda juntando os papéis, começou a falar, o medo lhe imputando novamente a faculdade da eloquência.

- Olha seu Prudente, acabei de me lembrar. É que eu tenho uns compromissos para agora, sabe, e, pensando bem, acho que meu perfil não está assim tão de acordo com o que o senhor precisa. Eu tenho muito que aprender ainda, e, quem sabe daqui a alguns anos a gente não tenta de novo, hein?
Juntou a última resma, levantou-se e virou, dirigindo-se à porta a passos largos. Estancou quando o Sr. Prudente disse:

- Pense bem garoto! Está deixando uma oportunidade única para trás. Começar tudo de novo. E dessa vez do jeito certo.

Gilberto não se deu ao trabalho de responder. Dobrou à direita no corredor e desapareceu.

O Sr. Prudente não fez nada. Poderia fazer. Poderia, com apenas um pensamento, infligir todo o tipo de sofrimento àquele rapaz. Mas como dissera antes, gostava dos humanos. Ele não era vingativo ou rancoroso como seus companheiros. Além do mais, existiam ainda mais quatro programadores. Algum deles haveria de ser mais sensato.

FIM

S@TYRI.COM

Marcio Massula Jr.

Nihil Obstat

Ela virou-se, lânguida, para conferir as horas. Faltavam 20 minutos. Levantou-se da cama e dirigiu-se ao hall do apartamento monstruoso. Vestia um roupão confeccionado em um tecido caríssimo do qual ela não fazia a mínima questão de lembrar o nome, embora pudesse responder precisamente o valor da pequena fortuna que pagara por ele.

Ao passar pelo escritório, não resistiu à fosforescência do monitor do laptop e, hipnotizada, sentou-se à frente do computador, iniciando uma série de pesquisas pela internet. Tranquilizou-se. A princípio as manchetes econômicas dos principais jornais do mundo não traziam nenhuma novidade que colidisse com seus interesses.  Ela sabia que estava chegando a hora, mas resolveu navegar rapidamente por outros sites de economia pouco mais obscuros, na esperança de não encontrar nada que pudesse abalar seu status quo particular, um velho hábito que o analista diagnosticara como um tipo de compulsão branda, mas que para ela eram apenas ossos do ofício. Na sequência, visitou urls pouco ortodoxas, cuja existência escapava do olhar onisciente de quaisquer buscadores, detendo-se em uma, em particular. Estava avaliando, mais uma vez, o serviço que contratara. Valeria a pena. Mais uma espiada no panorama econômico. Então o interfone tocou. Pontualidade. Ela gostava disso.

- Dona Renata?

- Quem mais poderia ser, Sebastião?

- A senhora me desculpe, é força do hábito. Tem um senhor aqui...

- Mande subir - interrompeu.

- Sim, senhora. Boa noite.

Ela desligou sem se dar o trabalho de responder. Continuou a leitura daqueles algarismos misteriosos à qualquer pessoa não iniciada nas vicissitudes de uma bolsa de valores.

A campainha tocou.

Ela terminou sua pesquisa e dirigiu-se à entrada do hall. A campainha foi acionada apenas uma vez. Paciência. Ela gostava disso.

Abriu a porta que dava acesso ao elevador privativo. Ele estava lá, imóvel, como se fosse mais uma peça da decoração. Ela examinou-o minuciosamente. Era mais baixo que ela, moreno, ou melhor, bronzeado; tinha os cabelos encaracolados e um pouco crescidos; sua barba dava a impressão de não ter se encontrado com nenhum objeto cortante nos últimos três dias, e ele tinha grandes e melancólicos olhos castanhos que, após estabelecido o contato, não se desgrudaram dela. Seus traços faciais poderiam muito bem ser definidos como rústicos, e, em separado, poderia se dizer que possuíam a maioria dos quesitos necessários para que agradassem aos olhos, contudo, faltava harmonia ao conjunto. Pareciam ter sido aglomerados às pressas. Tecnicamente, ele era feio.

- Oi. Não ficou satisfeita? - ele esboçou um sorriso.

- Na verdade não. Mas nós sabemos o motivo pelo qual escolhi você. Entre - ela simplesmente deus as costas, dirigindo-se ao centro do hall - que poderia ser muito bem confundido com um hangar, não fosse a mobília -, desamarrando o roupão de maneira que ele escorresse suavemente, deixando à mostra o corpo esculpido durante horas e horas numa academia de ginástica particular, perdida no fim de algum dos corredores que saíam dali. Ele ficou sem entender muito a atitude da mulher e não lhe restara alternativa além de fechar a porta, que ficou aberta, até que tivesse um vislumbre do que se passava na cabeça dela.

- Não precisa fechar a porta! - ela gritou, já na porta de seu quarto.

- Mas vai ficar aberta?

- Querido, aqui só entra quem eu quero. Venha cá - mais uma ordem do que um convite.

Ele fechou a porta mesmo assim. Depois caminhou até o quarto de Renata, um templo ao culto dela mesma, com espelhos por todos os lados, até mesmo, clichê dos clichês, no teto. Ela estava sentada à beira da cama feita por encomenda por uma carpintaria italiana. Ele pôde perceber que sua pele estava arrepiada, assim como seus mamilos, e ele podia sentir o cheiro no ar, aquele aroma que conhecia tão bem e há tanto tempo. Ela estava excitada.

- Deixa eu ver.

Ele começou a desabotoar o casaco.

- Não. Tire a calça. Eu quero ver.

- Mas...

- A calça, por favor.

- Tá bom. Seu pedido é uma ordem - ele tentou soar o menos irônico possível. Desabotoou a calça e baixou-a de um golpe só, levando junto a cueca. Quando se levantou, ainda pode perceber um pequeno movimento nas sobrancelhas dela, que agora só tinha olhos - literalmente - para seu pau. Conseguiu impressioná-la.

- É, realmente é tudo o que me disseram.

- Desculpe a curiosidade, mas como me descobriu? Foi através do catálogo? Do site?

- Não - ela aproximou-se mais do membro - na verdade quem falou de você foi uma colega sua. Tinha um nome árabe, acho.

- Naiad?

- Essa mesma

- Não é árabe. É grego.

- Como se isso importasse, né?

Havia algo naquela mulher que o incomodava. Talvez aquele ar blasé de quem parecia ver um pinto de quarenta e cinco centímetros todos os dias. Talvez a personalidade extremamente autoritária. Ou talvez, e mais provável ainda, a combinação das duas opções anteriores.

- E então, nosso amigo não vai se manifestar? - o desdém com que ela disse aquilo não contribuiu em nada para quebrar o gelo.

- Bem, é que me sinto meio ridículo assim de casaco e...

- Mas você é um profissional ou não?

- Sou, mas é que... - ela interrompeu-o com um gesto e pegou um pequeno controle que tirou sabe-se lá de onde. Apertou alguns botões e as luzes do teto apagaram-se, permanecendo apenas a iluminação de alguns abajures estrategicamente dispostos segundo alguma variação nefanda do feng-shui. Outro botão ligou o sistema de som, que inundava o quarto com uma música que ele imaginou ser Marvin Gaye, mas não era.

- Está melhor agora?

- É, eu gostei - o comentário foi sincero e ele terminara de se despir.

- Existe uma pequena geladeira ali no canto, se você quiser beber algo antes - ela apontava para um 
canto do quarto, já deitada.

- Nada de álcool. Não é bom para a concentração. E eu sou um profissional, como a senhora bem observou. A propósito, quer que eu pegue alguma bebida? Não para mim, digo.

- Não. Apenas satisfaça-me.

O membro dava sinais de vida, erguendo-se um pouco mais a cada latejada.

Com os dedos de uma mão, ele separou bem os grandes lábios, e com os da outra começou a estimular seu clitóris, fazendo-a contorcer-se ligeiramente, denotando mais incômodo do que prazer. Ou pelo menos era o que parecia. Então ele pediu que ela subisse um pouco em direção à cabeceira da cama, e ele deitou-se de bruços sobre a cama, agora trabalhando com a língua, rápido, e ela finalmente deu sinais de que saíra daquele estado letárgico, agarrando-o pelos cabelos e puxando sua cabeça com força, enquanto ele acelerava os movimentos da língua. Ela começou a gemer baixinho, e vez ou outra soltava um palavrão que ele não conseguia entender completamente. O gosto da volumosa lubrificação vaginal dela serviu de estímulo para que sua língua se transformasse numa hélice, o que, por sua vez, fez com que os gemidos se transformassem em urros, até que, sem mais nem menos, ela afastou a cabeça dele com um chute.

- O pau - ela disse, arfando. Ele aproximou-se e ela pegou-lhe o pênis, semi-ereto, e começou a masturbá-lo, segurando-lhe pela ponta, tendo um cuidado todo especial em revelar totalmente a glande, para cobri-la outra vez numa sucessão que a ele parecia infinita, sem que necessariamente estivesse sendo incômoda ou precisasse parar naquele momento. Mas parou.

Ela agora puxava o prepúcio, deixando a glande mais uma vez exposta, e aproximou a ponta da língua do orifício do canal da uretra, para se afastar em seguida.

- Não.

- Senhora, posso lhe garantir que somos examinados periodicamente e não há necessidade...

- Eu disse não, será que você não entende? Trouxe camisinha?

- Bem, não. É que... - o mastro já desfalecia vagarosamente.

- Como não trouxe? Onde você acha que vive, querido? Toma essa aqui - ela arremessou um preservativo que tirou de uma das inúmeras gavetinhas de um criado mudo que, para não destoar do restante, parecia ser muito caro.

Ele olhou para o objeto em suas mãos, sem saber o que fazer ao certo com aquilo.

- Você não vai colocar?

- É que...eu não estou habituado a usar...na verdade sou novo no ramo e...

- Alôô!!!! Estamos no mundo das DSTs, lembra? Me dá isso! - ela tomou o pequeno envelope de suas mãos, rasgando-o com destreza.

- Venha cá - ela pegou o membro, já mole, e com uma habilidade fora do comum, colocou o preservativo. Ele se sentia cada vez mais constrangido. Antigamente não era assim, pensou.
Ela observava o pinto, já emborrachado, e ria, ria bastante. O preservativo cobria pouco mais de um terço da “ferramenta”. Ele já tinha as faces enrubescidas - o que ela não percebeu devido à pouca iluminação - e começava a suar frio.

- Acho que isso não vai dar certo. Espere - ela se levantou e desapareceu atrás da porta do que ele imaginava ser um banheiro ou closet (sempre se confundia com esses termos). Passaram-se alguns minutos até que ela voltasse.

- Pronto. Agora você já pode vir.

Ela deitou-se de costas na cama, abrindo as pernas, e ele não pôde deixar de notar o grande anel de borracha que ornava sua buceta.

- É uma camisinha feminina, meu caro. Nunca viu? Venha. Rápido! Pelo menos uma coisa boa essa noite tem que ter.

Ele aproximou-se, ela pegou seu pau e encaixou-o na entrada de sua vagina.

- Vá com calma, parceiro. Sabe manobrar essa coisa aí, né?

Ele fez que sim com a cabeça e começou a estocá-la delicadamente, aumentando a frequência à medida que ela parecia mais excitada. Mais uma vez, ela interrompeu o ato de forma brusca - Sai! - e, sem aviso, postou-se de quatro na cama, e ordenou que ele a penetrasse. E ele obedeceu.

Ele movimentava-se delicadamente, e ela reclamou:

- Puta que pariu!, vai mais rápido.

Ele aumentava a velocidade, e ela reclamou:

- Cacete, tá me machucando!

O pênis, momentos antes arquetípico em seu volume, agora já estava semiflácido, escapando um número de vezes que ele julgou constrangedor e ela, inconveniente. E foi quando se virou para reclamar mais uma vez que ela viu, pela imagem refletida no espelho.

E, naquele momento, a única coisa que lhe ocorreu foi gritar.

XXX

- Isso nunca aconteceu comigo antes...

- Tudo bem.

- Acho que me desconcentrei. Não sei explicar.

- Tudo bem.

Ambos estavam sentados em lados opostos da cama, cabisbaixos. Ela queria perguntar sobre a imagem do espelho, queria saber se ele era o dono daquelas pernas peludas e caprinas e daqueles - céus! - chifres. Se o homem transfigurado, ou melhor, desfigurado que a fodia no espelho era aquele mesmo que estava ali, amuado, tentando justificar o sumiço de sua ereção. Mas tinha medo da resposta.

- Se a senhora quiser, podemos lhe devolver o dinheiro e...

- Não. Acho que o problema foi comigo. Mas gostaria que você fosse embora.

- Tudo bem - ele se levantou da cama e começou a vestir as roupas. Ficou em dúvida se deveria se despedir ou não, e chegou a estender a mão, mas de sua boca não saiu nenhuma palavra, e como ela continuou de costas, achou melhor ir embora sem dizer nada.
Ela aguardou até ouvir o barulho da porta se fechando. Esperou alguns minutos e ligou para a portaria, confirmando com Sebastião que o cavalheiro já havia se retirado. Uma pequena precaução, afirmou para si mesma.

Levantou-se, ainda nua, e foi até seu escritório, sentando-se em frente ao computador que continuava ligado. Era tarde, e a bolsa de Tóquio já devia estar num momento significativo do dia. Os números realizavam seu balé aritmético e aquilo, aos poucos, fez com que se esquecesse da imagem do espelho, suprimindo-a com outro tipo de prazer que, por vias tortas, despertou-lhe novamente a libido.

Aquela noite teria que se satisfazer sozinha.

sexta-feira, 30 de junho de 2006

LIBRARY THING

Ei, já falei pra vocês do Library Thing? Não? Mas, como assim?

Certo.

O Biblioteca-Coisa é um site onde você pode cadastrar sua biblioteca. Até aí, nenhuma novidade, existem ferramentas com propostas semelhantes, mas o pulo do gato - o mesmo utilizado pelo Multiply na época em que os dispositivos de social networking começaram a pipocar - é: você pode importar seus dados de sistemas semelhantes, ou até mesmo de planilhas em formato .csv (desde que elas tenham sido feitas sob determinados critérios).

Outro lance bacana é o porrilhão de referências cruzadas que o sistema permite. É simplesmente viciante ficar navegando pelas bibliotecas alheias, lendo comentários, vendo classificações e outras frescuras do tipo. Já encontrei bibliotecas com mais de 7 mil exemplares.

Mas, como tava bom demais pra ser verdade, há um porém: o sistema é pago. Nada que vá lhe obrigar a vender um rim, é verdade. A assinatura perpétua sai por 25 dólares (e se eu tivesse essa mixaria à disposição agora, pagaria), e, caso a sua conta seja gratuita como a minha, o limite para exemplares postados é de 200. Se você for assinante, pode postar quantos livros quiser/puder.

aqui.

sexta-feira, 9 de junho de 2006

JOHNNY REPEAT

Já soltaram um preview (em pdf) de JOHNNY REPEAT, hq sobre viagens temporais com roteiro aparentemente bem do normalzinho, mas com um time de ilustradores de primeira.

Mas...

Pelas 3 páginas que vi, com a desbundante arte em p&b do cubano Paul Azaceta, parece que não é tão normalzinho assim. Fiquei curioso.