sábado, 1 de novembro de 2008

MIDRAXE

Era mais uma daquelas tardes monótonas de terça. Meu aparelho de ar-condicionado urrava pedindo clemência, mas o calor senegalesco tornava-me um verdadeiro tirano com as utilidades do lar.

Embora, claro, eu não estivesse em meu lar.

Passava a maior parte do dia (e às vezes a noite também) ali, mas aquele escritório, de maneira nenhuma, poderia ser chamado de lar.

Ou poderia?

Meu escritório nunca foi muito agitado. Sempre tive uma clientela fixa, que compensava seu tamanho reduzido com uma grande fidelidade.

E pagava bem.

Eu conhecia meus clientes pelos nomes. Não fazia a mínima idéia sobre a idoneidade desses nomes, e nunca tive muito interesse em investigá-los. Outros do meu ramo costumam fazer isso, mas eu não. O simples fato das pessoas perderem alguns minutos elaborando um nome falso me deixava feliz. Queria dizer que elas achavam que eu merecia um pouco de respeito. Só um pouco, acho.

Então, alguém bateu à porta, interrompendo minhas divagações.

Eu detesto ser interrompido.

Mesmo assim, fui atender.

*****

Sim, era verdade.

*****

Ele era velho. Bem velho. Por volta dos 70 e poucos. Eu nunca gostei de velhos, e a idéia de necessitar da boa-vontade de alguém para limpar a bunda me assombrava. Com sorte, vou antes dos 50. Ficou ali, parado, me encarando, tentando esboçar um sorriso, ser simpático. Tinha batido na porta certa?

- Pois não?

- Senhor Romano, presumo. – disse, estendendo a mão enrugada pra mim. Não pude deixar de notar o anel. Um grande anel prateado com um emblema que não consegui enxergar direito naquele momento. Devia ser um maçom ou algo assim.

- Eu mesmo. Como me encontrou? – não retribuí a cortesia. Ainda não era hora. Tinha que interpretar meu papel.

- O senhor me foi indicado. Por esta pessoa. O senhor deve saber de quem se trata. – com a mesma mão que estivera estendida a mim poucos segundos antes, ele pegou um pedaço de papel no bolso do terno. Um cartão. Muito bem cuidado. Caríssimo. Eu teria que trabalhar muito pra ter um daqueles. Não gostei do sarcasmo. Mas dinheiro é dinheiro, sabem como é. E eu conhecia o nome. Sendo verdadeiro ou não.

- Conheço sim. Tenha a bondade. – saí do caminho, deixando o velho entrar em minha sala.
Modéstia à parte, eu cuidava bem do meu ambiente de trabalho. Uma sala simples, discreta, num prédio conhecido, mas não muito frequentado. Agora era minha vez de fingir simpatia. Estendi a mão.

- Peço que o senhor me desculpe pelos modos pouco amistosos, mas sabe como é. Nesse ramo nós fazemos muitas inimizades. Temos que nos precaver. Sente-se, por favor.
Ele sentou-se, ereto, na cadeira semi-nova que eu mantinha em frente à minha mesa. Quase todos os meus negócios eram tratados fora do escritório. Na verdade eu mantinha minha “agência” mais por capricho do que por necessidade.

- O senhor nos foi muito bem recomendado, senhor Romano, e...

- Pode me chamar apenas de Romano, por favor. – sempre interrompa os clientes. Isso lhes tira a sensação de poder. Intimida. Além de fazer você parecer mais esperto. No fundo eles gostam disso. Pensam que será um dinheiro bem investido. O que, no meu caso, não passa da mais pura e simples verdade.

- Ah, sim. Pois não, Romano. Como ia dizendo, o senho..., aham...desculpe,  foi muito bem recomendado. Por isso mesmo vou direto ao ponto.

- Que seria?

- Diga-me, o senhor costuma acessar muito a internet?

- Ocasionalmente. Uso para fazer pesquisas e me considero entendido, mas nunca fui um entusiasta. Sou um dos que trabalha à moda antiga.

- Claro, claro. Como eu. – riu, talvez imaginando que eu tivesse entendido a piadinha implícita em sua observação. Eu entendi. Mas fingi não entender. Não gosto de velhos, já disse.

- Bem, mesmo sendo um usuário eventual é provável que já tenha ouvido falar disso aqui. – e sacou da sua valise um livreto, cuidadosamente encadernado, com pouco mais de 40 páginas. A capa trazia impressa, em letras garrafais, apenas uma exclamação: MUDE!

Folheei desinteressadamente o documento. Pelos tópicos, presumi que se tratasse de algo na linha de auto-ajuda. Nunca gostei desse tipo de literatura. Pelo menos não publicamente. Coloquei a apostila sobre minha mesa, na esperança de que ele me desse ou esquecesse ali. Fiquei curioso pra saber o que tinha dentro.

- Conhece?

- É a primeira vez que vejo. O que é? Um livro de auto-ajuda?

- Sim, poderíamos dizer que sim. Esse documento tem sido distribuído pela internet gratuitamente há cerca de cinco semanas. O site original foi tirado do ar, mas algumas centenas de pessoas já tinham copiado e lido, e surgiram várias páginas disponibilizando esse arquivo. O resto foi efeito dominó. Mais pessoas liam, copiavam e disponibilizavam, o que tornou virtualmente (e esboçou um pequeno sorriso imaginando que talvez eu atentasse para esse trocadilho horrendo) impossível a eliminação disso in loco. Ontem saiu o segundo capítulo. Ao que parece, serão cinco.

- E?

- Já tivemos notícias de que o texto foi traduzido para o inglês, espanhol, alemão, italiano, francês, chinês e árabe. E incrivelmente, parecem não existir incorreções ou modificações sobre o original. Ninguém ousou alterar seu conteúdo.

*****

Eu só queria saber onde estava me metendo. Ele não suava, não tremia, não aparentava medo ou intimidação alguma. Só me olhava, com aqueles grandes olhos negros.

*****

- Mas o que tem esse texto de tão especial?

- O senhor deve ser um homem extremamente reservado, estou certo? Não deve gostar muito de televisão, não é?

- Não gosto mesmo. Mas leio meu jornal todas as manhãs, se quer saber. – velho irritante.

- Já ouviu falar dos Renascidos? Da Igreja dos Recém-desvelados? Desde que esse manifesto foi publicado, catalogamos aproximadamente 86 novas religiões e seitas. Ah!, me esqueci dos Acólitos do Pdf. Isso pra não falar das micro-repúblicas...

- E esse manifesto tem algo a ver com essa história toda, estou certo?

- Certíssimo! – ele disse. Eu não podia deixar de observar aquele imenso anel em seu dedo anular esquerdo. Consegui entender o que era o tal emblema. Uma cruz, sobreposta a outro símbolo que não consegui identificar. Evitei ficar olhando muito.

- Tá, mas onde eu entro nessa história toda?

- É muito simples, queremos que você encontre o autor desse texto.

*****

O velho tinha me dito para não ler. Mas eu li. Merda.

*****

Ao contrário dos meus colegas de profissão, minha experiência tinha parcas raízes acadêmicas, contrastando com o empirismo selvagem presente na esmagadora maioria dos meus conhecidos. Não cheguei a me formar, mas não escondo que alimentei a esperança de ver o meu nome estampado na capa de um livro. Eu era jovem, e tudo o que veio depois em minha vida, inclusive a “guinada” na escolha da minha futura carreira, só veio a comprovar o quão errado estava. De qualquer forma, eu trouxe comigo coisas boas daquele período. O hábito de pesquisar, por exemplo.

O autor do texto assinava como Y.H. E completava “um homem como todos”. Seu estilo era leve, simples. Nada de palavras rebuscadas nem de arabescos verbais. Nenhuma novidade, pra ser sincero. Nada que os livros de auto-ajuda já não viessem borrifando nas mentes das pessoas durante anos e anos. O que notei, que talvez fizesse a diferença, era a disposição dessas informações. Tudo parecia fácil e possível. O texto era quase uma obra de engenharia. Todas as palavras e idéias pareciam ter sido calculadas para surtir o efeito máximo. A mensagem era clara, objetiva, direta. E muito eficaz, pelo visto. Começou no país, se alastrando pelo mundo logo em seguida. O opúsculo, apenas um volume de uma obra maior, fora responsável pela mudança na vida de pessoas por todo o planeta. Executivos bem sucedidos simplesmente desligavam-se de suas empresas em busca de um maior conhecimento de “si próprios”. Programadores abandonavam seus códigos em troca do cultivo de alimentos hidropônicos em pequenos pedaços de terra nos rincões do país. Generais renunciavam à pátria e à farda para aproveitarem suas tardes compondo haiku. Operários deixavam as máquinas de lado e se dedicavam aos animais sem dono. A sociedade capitalista estava a três passos do colapso, embora ainda não tivesse se dado conta disso.

Funcionava mais rápido com alguns. Com outros, a transformação ocorria paulatinamente, mas ninguém ficava indiferente ao seu conteúdo. Ninguém.

Contudo, chegava a ser engraçado. A mídia e os governos encaravam a situação como um surto coletivo de excentricidade. Nada mais.

A questão agora era: como encontrar um homem sem rosto e sem nome? Isso, partindo do princípio que ele realmente existisse. Uma dupla de iniciais era algo muito vago para me basear, e em tempos de coletivos artísticos, a possibilidade de que aquilo pudesse ter sido escrito por mais de uma pessoa era muito grande. De qualquer maneira, alguém escreveu, e era meu trabalho encontrá-lo.

Embora a internet não fosse o lugar (se é que fosse um lugar) mais apropriado para encontrar informações precisas sobre algo, decidi começar por lá. Questão de comodidade. Cada vez que eu apontava meu buscador para alguma das combinações possíveis das palavras MUDE, Y.H., auto-ajuda e felicidade, o número de ocorrências aumentava. Exponencialmente. Na última vez que olhei, estava ultrapassando a casa dos milhões. Confesso que fiquei surpreso (medo seria a palavra certa, mas eu não diria assim de jeito nenhum. Tenho uma reputação a zelar, sabem como é). Ficava cada vez mais difícil separar o joio do trigo. Tudo o que estava acontecendo era um típico fenômeno do século 21. 

Informação espalhada à revelia, com penetração maciça. Mas aquela informação era diferente. Era capaz de quebrar convicções sedimentadas durante anos como se fossem gravetos.

*****

Não havia medo em seus olhos. Não havia rancor. Não havia desespero. Não havia confusão.

Só havia - e sei que parece engraçado dito assim – amor.

*****

A dificuldade em encontrar alguém é diretamente proporcional ao preço do serviço. Eu não contava com todo esse trabalho na hora de fazer meu orçamento. Obviamente, o velho teria que reavaliar os meus dividendos.

A procura pelo sujeito, depois de algumas horas em frente ao computador, mostrou-se infrutífera. Decidi que talvez fosse melhor começar devagar, comendo as beiradas, como diriam na minha terra. No país já havia dezenas de seitas, igrejas, grupos de estudos, fã-clubes e quejandos, fundadas em reverência a Y.H. A coisa ia do anarquismo homeopático da Igreja do Não-Trabalho - que pregava o ócio construtivo, através do uso extensivo de conexão, assim como provisões e demais recursos pagos pelos empregadores, na busca da iluminação pessoal - ao non-sense total dos Pequenos Schopenhauers. 

Nunca entendi quem realmente queria dominar o mundo. Separei alguns que me pareceram mais objetivos e iniciei minha busca.

*****

No seu pescoço há uma tatuagem de uma cobra mordendo o próprio rabo. Já vi isso em algum lugar, embora o significado exato não me ocorra agora.

*****

Infrutíferas, todas as tentativas. Sempre que perguntava sobre o autor daquelas palavras, eu via o abanar de apostilas e encadernações mal feitas do primeiro capítulo de MUDE! “Ele está aqui”, diziam alguns.
Passei duas semanas freqüentando os cultos escalafobéticos da Panspermia Metempsicótica para descobrir que o grande segredo revelado apenas aos iniciados – e nem precisei me tornar um deles - era a teoria de que todos somos esporos alienígenas que chegaram à Terra em um meteoro e desde então entraram num ciclo infinito de reencarnações que só será quebrado com a publicação do quinto volume de MUDE! Sem falar na tortuosa correspondência eletrônica que mantive com o fundador (e único membro, desconfio) do Reverso da Fortuna, um grupo de estudos que afirma que o real objetivo do livro era que as pessoas não mudassem. Enfim, loucura para todos os gostos.

Algo que notei em minhas investigações era a dissolução da idéia original, conforme o tempo ia passando. (Mas não é assim com todas as idéias?). No princípio todas as pessoas pareciam ter entendido a mensagem do livro de maneira relativamente parecida. Mas foi questão de semanas até que começassem a surgir dissidências e interpretações menos ortodoxas. Nem preciso dizer que isso só dificultou minha vida.

Meses se passaram sem que eu tivesse conseguido arranhar ao menos a superfície de toda aquela história. As pessoas, as lendas, os fatos, os boatos, tudo se multiplicava numa velocidade assustadora. Era como nadar em areia movediça. Sem saber nadar. Gastei uma pequena fortuna viajando a todos os cantos do país à cata de alguma informação, nome, dica ou o que fosse. Felizmente, meus empregadores eram pessoas de recursos, muitos recursos. Eu continuava minha busca movido pela inércia. Não fazia sentido. De qualquer maneira, o dinheiro continuava entrando em minha conta.
Em todo esse tempo, eu já havia me tornado um verdadeiro especialista no assunto. Cadastrei-me em várias listas de discussão, afiliei-me a várias congregações que aceitavam inscrições por correspondência, frequentei reuniões e cheguei mesmo a cogitar a criação de um site, blog (depois de todo esse tempo fiquei íntimo o suficiente da internet para me permitir tal façanha) ou algo semelhante sobre o assunto. Acho que isso criou algum tipo de imunidade à palavra. Quanto mais o tempo passava, mais ridícula eu achava aquela situação.

Até que um dia, a sorte sorriu pra mim.

*****

Ou não, dependendo do ponto de vista.

*****

Estava me barbeando quando o telefone tocou. Poucas pessoas tinham o meu número e eu não costumava receber ligações sociais. Atendi, a contragosto.

- Alô?

- Romano?

- Quem fala?

- Sou eu. Y.H. Aquele a quem procura.

Titubeei, não escondo. Meu cérebro funcionava à toda na tentativa de optar entre a descrença ou o crédito àquela identificação.

- Que história é essa? Não sei do que está falando.

- Sabe sim. Sabia que você é um péssimo mentiroso? A entonação em sua voz, o tempo que demorou para responder. A pausa entre as palavras...

O número já estava no meu identificador de chamadas. Era da cidade. Além de mim, apenas meu(s) empregador(es) sabia(m) do trabalho. Não poderia ser uma piada ou armadilha. Ou poderia? Paranóia é um pré-requisito nesse ramo.

- Acredite no que digo. Sei da história toda, do velho com anel esquisito e da sua busca fracassada. Creio que você deva ter um identificador de chamadas aí. Mas não se preocupe em encontrar o número. 
Vou lhe dar meu endereço atual. Fica mais fácil e assim acabamos com essa história de uma vez por todas. Ou, pelo menos, dessa vez.

Era uma voz melódica. De alguma maneira fazia com que eu me sentisse confuso. Tenso. Péssimo pra minha profissão.

Anotei o endereço. Era uma chácara na região metropolitana da cidade. Eu já conhecia o lugar. Um amigo também tinha uma chácara ali.

*****

Nunca me faltou tanta convicção quanto agora. E ele ali, apontando para as costelas...

*****

Marcamos para o outro dia, na hora do almoço.

Cheguei na chácara duas horas antes. Poderia, e provavelmente seria, uma armadilha. Porque, eu não saberia dizer. Da mesma maneira como eu não conseguiria responder com certeza porque eu estava ali. 

Era tudo muito óbvio, muito clichê, se querem saber. Parei o carro bem antes e segui os últimos quinhentos metros a pé. Estava me arriscando ao deixar o carro assim tão longe, mas toda aquela vegetação ajudaria no caso de uma fuga. Minha maior preocupação era toda aquela poeira em minha roupa. Fui beirando a estradinha de terra que levava até a casa. Quando cheguei ao portão, avaliei o terreno. Nenhum carro, nenhum cachorro, ninguém. Entrei devagar. Tirei a arma do coldre e deixei-a presa na minha cintura, na parte de trás da calça. O silêncio ali chegava a ser lúgubre. A casa em si era humilde. Nova, mas humilde. Uma varanda com uma rede pendurada, uma mesa e algumas cadeiras de jardim que há muito não deveriam ser usadas. Não havia rastros recentes de carros ou motos. Se houvesse alguém ali, teria que ter vindo a pé. Como eu. Uma piscina mal-feita ao lado da casa aparentava não ter sido limpa nos últimos meses. Mais próximo do lugar, eu reparei, a própria casa não recebia qualquer tipo de manutenção há tempos. Folhas secas criavam um tapete natural em frente à porta principal. O termo “natureza morta” me veio à mente. Contornei a casa em busca de uma entrada alternativa. Encontrei.

*****

Agora eu começava a compreender tudo. Talvez, a crença no livro - e apenas nele - fosse apenas um mecanismo de auto-defesa, de proteção. Num nível subconsciente, as pessoas deviam perceber a verdade. Mas descartavam-na. Era melhor. E não fazia diferença.

*****

O som das teclas era frenético. Ele digitava sem olhar para o teclado, era como se tivesse feito aquilo a vida toda. Só parava para ajustar os óculos que insistiam em escorregar para a ponta do nariz. Estava curvado sobre o velho monitor. Havia manchas de suor em sua camiseta desbotada, e seus pés estavam cruzados embaixo da cadeira. Relaxado. Concentrado. Não tinha percebido minha presença. E parecia inofensivo.

Entrei no pequeno quarto, com a arma em punho. Ele me viu, e não pareceu nem um pouco surpreso. Com certeza, esse não era meu estado de espírito.

- Ah! Você veio. Um pouco adiantado, não? – disse, enquanto consultava seu relógio de pulso barato.

- Só uma pergunta: você sabe quem eu sou? – a verdade é que não consegui pensar em nada melhor pra dizer.

- Espero que seja uma pergunta retórica – disse, dando uma piscadela. - Claro que sei quem é você. Eu te liguei, não liguei?

- Então, pela ordem natural das coisas, essa conversa não deveria estar acontecendo, não é verdade? Você deveria estar fugindo ou se escondendo.

- Hmmmm...faz sentido, faz sentido. Mas já devo lhe avisar (algo que seus empregadores não devem ter feito, certamente) que a ordem natural das coisas não seria o termo mais correto a se aplicar aqui.

- E por quê?

- Veja Romano... – ele se moveu na cadeira, cruzando as pernas como quem vai dar uma entrevista. Um pequeno movimento com minha arma foi claro o suficiente para ele entender que eu não gostava dos seus movimentos. Ele levantou as mãos, pedindo calma. Achei seguro continuar mantendo distância. - ...você sabe quem realmente está pagando o seu salário?

- Espero que seja uma pergunta retórica – eu disse, dando uma piscadela.

- Touché! Perguntas não são algo muito bem-vindo no seu ramo, acredito. De qualquer maneira, vou continuar meu raciocínio. A pessoa que lhe procurou usava um anel como esse? – e mostrou a mão esquerda, com um anel semelhante ao do velho.

- Tinha, e daí?

- Sabe o que significa esse símbolo?

- Não, e não quero saber. Nem sei o que estou fazendo aqui, conversando com você.

- Calma, calma! – disse, ainda com as mãos para cima.  – Precisamos conversar mais um pouco. Depois, você faz o que tem que fazer. Não vou fugir, me entreguei, lembra? Sei do meu destino. Mas talvez você não saiba do seu...

- ...

- Deixe eu lhe contar uma história. Tudo começou há muito tempo atrás. Sabe o que é midraxe?

- ...não..

- Esse termo – que acho maravilhoso, se me permite fazer esse aparte – vem do hebraico. É o nome que os teólogos deram a um artifício narrativo utilizado há muito tempo. Eles dizem que é uma narração de fundo histórico, ornamentada pelo autor sagrado para servir à instrução teológica. O autor conta o fato de modo a destacar o valor ou o significado religioso deste fato. Sua intenção não é a de um cronista, mas a de um catequista ou teólogo. Vi essa definição num site um dia desses. Embora seja deliciosa em seu cinismo, o termo também pode ser entendido como uma história baseada num modelo anterior. Um eufemismo para plágio, se assim preferir.

- E?

- Histórias superpostas sobre camadas de outras histórias, por sua vez superpostas sobre camadas de outras histórias. Qual terá sido a primeira mensagem? Qual terá sido a primeira informação? Isso não te lembra nada?

- Não.

O desgraçado era bom. Eu estava prestando atenção. Em cada palavra.

- Eu fui um garoto normal. Ao contrário de tudo o que disseram até hoje. Curioso, mas normal. A coisa toda descambou mesmo quando resolvi fazer uma viagem. Uma longa viagem. Está me acompanhando?

Preferi não responder, mas minha expressão era óbvia.

- Então, digamos que nessa viagem eu tenha aprendido alguns...truques. Mas o que eu considero ter sido realmente valioso foi um princípio. Um ideal. 

- Que seria?

- A implosão, embora esse termo não existisse na época, de um conceito. Simples.

- Que conceito?

- Autoridade.

- Como assim?

- Autoridade. Nunca gostei dela. Ninguém precisa disso.

- Amigo, pouco me importa o que você acha ou deixou de achar sobre esse assunto. Você sabe muito bem o que eu vim fazer aqui, não sabe?

- Sei. Claro. Mas o assunto te interessa sim. Se não você já teria puxado o gatilho. Deixe-me terminar minha história, está bem? Depois você faz o que veio fazer e nós dois ficamos felizes. Como eu estava dizendo antes de você me interromper, voltei do Oriente disposto a realizar aquilo que antes só passava pela minha cabeça. Banir totalmente o conceito. E que laboratório melhor para testar isso do que um território sob o julgo de um império estrangeiro? Mas aí a coisa toda tomou proporções inesperadas, e a mensagem se deturpou. É por isso que estou fazendo esse livro. Já tive muito tempo para estudar PNL, memética, e cá pra nós, a palavra impressa tende a se conservar mais do que a falada. Escreveram coisas que disseram que eu disse, e eu não disse. Agora eu mesmo digo o que quero através do que escrevo. Sem intermediários, sem atravessadores. Na verdade houve certa negligência da minha parte. Se eu tivesse me empenhado mais, as coisas não teriam tomado esse rumo, teria sido apenas um fenômeno localizado, de curta duração, uma curiosidade histórica, apenas isso. Só que fiquei curioso pra ver onde ia dar aquilo tudo, e simplesmente me afastei. Deixei rolar, como dizem.

- Mas se deturpou como? – eu já tinha me perdido na metade da sua história e não consegui pensar em nada melhor para dizer.

- Saulo.

- Quem?

- Saulo. Eles acreditaram que tinham me matado, mas eu, como já disse antes, dominava alguns truques 
e consegui enganá-los. Algum tempo depois, Saulo me viu – ele, ao contrário do que a história diz, presenciou minha suposta morte – e achou tratar-se de um milagre. E a confusão só aumentou quando ele conseguiu localizar meus antigos seguidores. Converteu-se à doutrina supostamente fundada por mim. Mudou de nome, inclusive, e tornou-se um dos maiores divulgadores dos meus “ideais”. Tentei abrir seus olhos e atentá-lo para o engano que cometia, mas já era tarde demais. Estava cego pela história que sua própria mente criou. Ele me tomou pelo demônio e fundou uma ordem, só para me caçar.

- Ordem?

- Sim. Hoje em dia não passa de uma agremiação de idosos excêntricos e abastados tentando conquistar algum tipo de respeito através de conhecimentos ocultos. – fez um gesto caricato, imitando um monstro, um bicho-papão. - Mas alguns ainda acreditam. E tem os registros. Costumam usar indefectíveis anéis de prata. Viu algum nos últimos dias?

- Então o velho...

- Sim, o velho. E eu também. “Mantenha seus inimigos por perto”. Conseguiram colocar as mãos em mim uma vez. Na idade média. Claro, consegui escapar. Do meu jeito. O engraçado é que, contei esse episódio a um escritor certa vez, quando estávamos presos em um gulag, assim, como se fosse uma piada, e isso acabou virando o trecho mais famoso de um dos seus livros mais famosos. Quase uma anedota.

Não entendi. Talvez ele tenha percebido. Talvez não. Fantasia demais. Ou, talvez não. O que poderia acontecer comigo se eu perguntasse?

- Peraí, se entendi bem, você afirma ser bem mais velho do que aparenta, certo?

- Certo.

- E estaria fugindo dessa ordem há quanto tempo, exatamente?

- Há longos dois mil anos...

- O quê? Tudo bem, você é escritor, mas não acha que está forçando a barra não?

- Bem, acreditar é um problema único e exclusivo seu. A palavra é: metempsicose. Também gosto dela. Sabe o que é?

- Você vai me contar de qualquer jeito, não é?

- É.

- Então vamos lá. Eu tenho tempo e sou curioso. E você realmente não vai me dar trabalho.

- Metempsicose, Romano, a perpetuação da alma em corpos diferentes. Ou melhor, a conservação da alma.

- ???

- Minha...alma...vem pulando de corpos todos esses anos...sim, é verdade. Existem complicadores. Nós conseguimos vagas, mas temos que nos contentar com o corpo que recebemos. Acredite, é difícil fazer qualquer tipo de protesto enquanto se está sendo polinizado por uma abelha ou perseguido por uma matilha de lobos. Antigamente era mais fácil, eu dominava algumas técnicas que prolongavam a...hmmm...vida útil de um corpo. Infelizmente a memória torna-se traiçoeira com a idade e temo que se tentasse algo do tipo hoje os efeitos seriam bem diferentes. Melhor ser uma roseira do que não ser nada. Mas até que dei sorte. No cômputo geral, consegui habitar um corpo humano um número satisfatório de vezes.

- ...

- O que significa que, mesmo crivando meu corpo com as balas dessa arma, dentro em breve você poderá ter notícias minhas. Ou não. Sei lá...estou cansado, de saco cheio. Preciso, sair de cena, de novas férias. Por isso te chamei.

- Muito interessante essa história toda, mas chega de conversa. Acho melhor você fazer suas preces, se é que me entende.

- Rá! Essa foi boa! Um minuto, sim?

Como se eu não estivesse ali, prestes a matá-lo, ele se vira e faz algo que me parece ser salvar o arquivo no qual estava trabalhando. Continua teclando mais alguns momentos e então me dou conta de que posso ter caído numa armadilha, de que ele está me confundindo para que eu seja surpreendido aqui. Mesmo com meu tiro explodindo o monitor em sua face, ele, ainda assim, parece não se surpreender. Lentamente coloca as mãos para o alto. Tinha uma cara de desapontamento, mas não a de alguém prestes a morrer. Parecia mais uma criança que foi obrigada a interromper uma brincadeira porque estava na hora de tomar banho.

- Certo, certo. Vamos lá então. Você podia pelo menos ter esperado eu terminar, né?

- Um último desejo?

Eu era um profissional, e não podia deixar a peteca cair. Tinha que mostrar que estava no controle, que ainda era capaz de uma simples ironia, que não ia me deixar levar pela conversa de um maluco. Mesmo prestes a apagar a única testemunha daquele breve momento de credulidade pelo qual passei.

- Sim. Os disquetes contendo as minhas anotações para os outros fascículos estão ali. Cuide bem deles.
Minhas mãos tremiam e eu suava como um porco. Ele girou a cadeira, ficando de frente para mim. Apontava o indicador esquerdo para as costelas, logo abaixo do coração. Pediu que eu atirasse ali. Força do hábito, disse. Dei um tiro no meio da testa. Só pra garantir.

Eu precisava sair dali rápido, mas minhas pernas tinham virado geléia, e só recobraram a consistência original quando eu olhei para os tais disquetes. Uma pilha deles, uns cinco ou seis, estavam numa outra mesa, repleta de livros e revistas, no canto oposto do aposento. Coloquei-os em meu bolso e parti. Queria dar uma olhada neles. Que mal poderia haver?

*****

Já faz dois dias que não durmo. Comi apenas o suficiente para não parar. Não posso sair. Tenho muito trabalho. Li todos os textos dele, várias vezes. Como pude ignorar aquilo? Como pude ficar alheio à Mensagem? Tremo só de pensar nas possibilidades, no que ele poderia ter feito. Nas várias faces do mundo que poderiam ter sido esculpidas por esse homem. As pessoas têm que saber. Preparei os textos e estou enviando a Palavra agora, ao maior número possível de pessoas. Fico me perguntando por que eu? Por que fui escolhido? Por que tive essa honra? E a resposta é sempre a mesma: eu fui escolhido porque estava lá. Só isso. O velho está atrás de mim e vai me encontrar a qualquer momento. Tenho muito trabalho. Tenho que espalhar as Boas Novas.

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MARCIO MASSULA JR. tem grande apreço por palavras estranhas das quais ele geralmente desconhece o significado. Mas isso não importa. O que importa é que os outros não saibam.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

NETBOOK OU NOTEBOOK?

Além de trocar meu laptop até o natal (ouviu, PN?), ainda pretendo comprar um Asus eeePC (900, configuração uber-geek).

Os objetivos são bem distintos e penso que minha linha de raciocínio é a mesma do Zoli Erdos.

A propósito, no próprio post, ele linkou outra matéria interessante sobre dois dos meus interesses atuais: sistemas operacionais "instant-on" e usuários impacientes.

POP INSTANT ENTERTAINMENT

Será que cola?

MAIS UM

Мурат Насыров - Мальчик хочет в Тамбов

Meme do Halloween. Ainda não sei se rio de pavor ou se choro de emoção. A propósito, alguém conhece essa música?



(Roubei no Churrasco na Laje)

terça-feira, 21 de outubro de 2008

PORRA, FIREFOX!

Estou ansioso pela versão final do Firefox 3.1.
O 3.0.x tá dando travadas homéricas aqui no micro. Pior é que o problema ocorre tanto no Windows quanto no Ubuntu. Não uso muitas extensões (e já desabilitei algumas), nem temas escalafobéticos.
Estou considerando seriamente a opção de mudar definitivamente para o Opera (meu segundo browser), mas já li por aí que este apresenta problemas de incompatibilidade com alguns serviços online, como o GDocs. Pelo pouco que testei aqui (no Windows, apenas), não encontrei nenhum,  rodou beleza, mas, vai saber.
De qualquer maneira, vou esperar mais um pouco. Só mais um pouco.

sábado, 18 de outubro de 2008

GANGSTA PYTHON

Carai.
Tava procurando algo sobre o Python para plataforma S60 no Youtube e me deparo com isso.

Se liguem nas metáforas dos moleques.
E, claro, há a cereja do bolo: "Hello, Ghetto!"
Abaixo, segue a parte 2,

SOUL-CRUSHING POLITICS

Gostei do termo. Achei sonoro. Clica aqui e depois dá Ctrl+F.

FINISH ISN'T THE END

Chalie Stross elucubra sobre terminar uma novela e sobre sua escrita. Interessante.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

CORDILHEIRA

Lembram que eu tinha confundido o último livro do Mutarelli, A ARTE DE PRODUZIR EFEITO SEM CAUSA, com a primeira cria do projeto Amores Expressos?

No próprio post me retifiquei, mas ainda restava saber qual seria o primeiro. Pois bem, agora já sei.

O primeiro é CORDILHEIRA, do Daniel Galera. Fiquei curioso.

sábado, 4 de outubro de 2008

SAIU O PYTHON 2.6

(Se é que você já não sabe).

Pode pegar.

O GUARDIÃO UNIVERSAL

(mais uma da série: SÓ FIQUEI SABENDO DISSO AGORA?)

Antes, assista o vídeo abaixo:



Como desgraça pouca é bobagem, digo, como em todo bom filme que se preze, existem as continuações, prequels e spin-offs Youtube afora.

O GUARDIÃO UNIVERSAL - Parte 7, é especialmente interessante.

Não quebrem as regras de ouro, crianças.

EMULADOR DO HTC G1 (COM O GOOGLE ANDROID)

Divirtam-se.

ALAN MOORE X WATCHMEN, O FILME

Moore has no intention of seeing the film and, in fact, he hints that he has put a magical curse on the entire endeavor.


"Will the film even be coming out? There are these legal problems now, which I find wonderfully ironic. Perhaps it's been cursed from afar, from England. And I can tell you that I will also be spitting venom all over it for months to come."

Grifos meus. Esse véio não deixa de ser engraçado mesmo...

(via Trabalho Sujo)

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

ESCAMBO

Márcio Massula Jr.

Soares conseguiu uma pechincha das boas no escambo.com: uma câmera digital cujo zoom ótico não ficava devendo nada ao de uma luneta das boas; que tinha uma capacidade de armazenamento de dados de fazer inveja a muito laptop; que possuía mais de 15 modos de operação e, além de tudo, roubava almas.

Notou então que, uma a uma, as pessoas que fotografou começaram a se comportar de maneira estranha. Paulatinamente, esqueciam das coisas mais elementares, como cumprimentar os outros, responder e-mails, pagar as contas ou articular melhor as idéias. Por fim, esqueciam-se também de respirar, e morriam.

Quando ligou os pontos, Soares queria avisar a todos, destruir a máquina, denunciar o vendedor e acabar com tudo aquilo, contudo as forças lhe faltavam e ficava cada vez mais difícil pensar, tão difícil que o último resquício de atividade cerebral que teve foi a lembrança da última foto que tirou com a máquina.

Uma foto de si mesmo.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

PRODUTIVIDADE PESSOAL - A RELIGIÃO DO SÉCULO?

Do ano passado para cá as coisas se apertaram no trabalho, e quando notei que estava levando, frequentemente, trabalho para a casa (ou para o hotel), vi que tinha algo errado.

A saída que enxerguei no momento foram as "técnicas" do que se convencionou chamar de produtividade pessoal. Passei a frequentar sites como o Lifehacker.com, o Lifehack.org, o 43 Folders, o Wishful Thinking, o Magaiver (através do seu já finado spin-off, Produtividade Pessoal), o Efetividade.net e sei lá mais quantos. Passei a prestar atenção no GTD e em outra siglas estranhas. Comecei (ou melhor, tentei) gerenciar meu tempo.

Descobri várias ferramentas, redescobri outras tantas, e aprendi a usar mais umas outras que já conhecia mas para as quais não dava muita bola. Essas coisas.

Melhorou? Sim. Mas...

Percebi, algum tempo depois, que perdia muito tempo estudando "lifehacking" e pouco tempo colocando o que aprendi em prática, um dilema que descobri não ser exclusividade dos iniciantes.

Outra coisa de que me dei conta é que meus interesses em relação á produtividade são bem específicos: como passo muito tempo em frente a um computador, quero dar menos toques e cliques para ferrisbullerar mais, tá ligado?

Ou seja, me interesso por ferramentas para aumentar a produtividade em frente ao computador. E só. Não quero saber de dietas "mais" eficientes, mobilia construída com as próprias mãos ou sistemas para convencer meus colegas de trabalho que sou mais articulado verbalmente.

De qualquer maneira, acho válido compartilhar algumas das (re)descobertas. Vou criar o tag produtividade, para falar, unica e exclusivamente, de programas e dicas que acho que podem dar alguma ajuda no dia-a-dia.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

THE ANATHOMY OF MELANCHOLY

Essa semana estou em mais um dos meus Paradise Lost loops, e agora, nesse exato momento, estou ouvindo THE ANATHOMY OF MELANCHOLY, o último trabalho dos caras: um cd duplo, ao vivo.

Não deixa de ser estranho ver que, mesmo tendo uma voz poderosa, Nick Holmes não consegue reproduzir os urros primais que soltava no Ghotic.

Detalhes à parte, recomendo.

ANATHEM & NEAL STEPHENSON

Engraçado. Tenho me interessado muito por worldbuilding ultimamente e o nevasca do Stephenson tem contribuído para que o assunto não saia da minha cabeça (puristas, nem mais um passo à frente!).
E, dando um rolê(é?) pelo site da Amazon, não é que fico sabendo do cartapácio que o rapazinho pariu esse mês?
O rapazinho, aliás, mudou a cara do site (por causa do livro novo, todos devem saber).
Se alguém sobreviver à experiência, me conte como foi.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

SOCIAL NETWORKING WARS



Pode ser coisa antiga (para padrões internéticos, evidentemente), mas eu não tinha visto e achei engraçada.

Quem deu a letra foi o Léo.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

ADSENSELESS - Parte 4

É isso aí, macacada!

Com a (des)periodicidade de sempre, a parte 4 da saga de Macanudo Geist já está no ar. Também aproveitei para tirar alguns esqueletos do armário.

O endereço vocês já conhecem (mas vou colocar assim mesmo):

http://txt.blogsome.com

ADSENSELESS - Parte 4

Márcio Massula Jr.

Todos se esqueceram de avisar a Macanudo que ter a cabeça bombardeada por microondas o dia inteiro faria ela esquentar. E muito. Quando ele estava na Googolplex, isso não acontecia. Mas a Faixa de Anúncios também não ficava ligada o dia inteiro.

O resultado disso era uma película de suor, fina, mas perpétua, ao redor do seu rosto. A solução - paliativa - foi providenciar um estoque de toalhinhas de papel e deixá-las sempre à mão.

Devido à temperatura, a cabeça doía. E a dor de cabeça incessante mexia com seu humor.

Os rendimentos não estavam sendo fantásticos, devido, em parte, ao próprio estado melancólico no qual ele se encontrava. Ele não saía muito, e quando saía, não era um dos interlocutores mais simpáticos da face da terra. E, como diz o ditado, se não sabe sorrir, não abra uma loja. Macanudo tinha se tornado uma celebridade menor na cidade. As pessoas ainda vinham em sua direção, pediam para tirar fotos, experimentar a faixa e todas essas coisas, mas ele não fazia a mínima questão de agradar os clientes, atividade para a qual estava sendo pago, aliás. Ele precisava resolver a questão com Ândrêa.

Ela, por sua vez, continuava tocando sua vidinha trabalho-casa-trabalho. Ândrêa era designer de superfícies queratinosas, uma profissão que já teve um nome menor e um salário maior. Vez ou outra ouvia alguma piadinha de uma das colegas de salão, mas o mau-humor com que recebia os gracejos deixou claro às demais que aquele assunto não tinha nenhuma graça. Pelo menos para ela.

Macanudo tinha passado dos limites. Ela não sabia como tratar aquilo. Realmente não sabia. Quando se conheceram, ela até via um certo charme na obsessão de Macanudo por tecnologia. Um quê de excentricidade que ela não tinha encontrado em outros relacionamentos. Macanudo nunca tinha lhe dado uma jóia ou um buquê de flores. Ao invés disso, nas datas comemorativas, era normal ela ser presenteada com alguma traquitana eletrônica que tinha acabado de chegar nas prateleiras de Xangai, Seul ou Nova Deli e que ninguém além dele mesmo sabia para que servia. No começo era bonito. Romântico. Diferente. Um tempero. Mas aquele implante na testa tinha ido além de todos os limites. 

Ela precisava de um tempo e tentou explicar algumas vezes à Macanudo, que continuava se fazendo de desentendido.

Ela acabou com a última cliente da tarde. Teria algum tempo livre, que gastava, invariavelmente, jogando conversa fora com as outras colegas que ainda estavam trabalhando. Ela sentou-se ao lado da porta. Aproveitou para observar o movimento na rua, enquanto o assunto gravita ao redor da websérie mais nova. Algo a ver com baratas inteligentes, mudança de sexo e sorvete. Ândrêa até se entretia com esse tipo de história, mas sua cabeça estava em outro lugar. Era um belo dia e ela tinha vontade de sair do trabalho e dar uma caminhada. Talvez pegar um trem-bala e ir até o estado vizinho, em alguma estância turística. Respirar um pouco de ar puro, comprar algumas bugigangas, esfregar os pés num gramado, essas coisas.

Então ela vê Macanudo parado em frente à porta, como uma estátua. Ele lhe mostra seu smartphone novo. Depois aponta para a maçaneta e gesticula com o indicador, pedindo permissão para entrar. 

Como um vampiro. As órbitas de Ândrêa vão de encontro ao teto. Ela inspira e expira. Considera ignorá-lo, mas muda de idéia.

- E aí, Morena?

Mesmo que Ândrêa tivesse um biotipo praticamente eslavo, Macanudo chamava-a assim. No começo, ela pensava que ele queria lhe imputar alguma característica que ela provavelmente não tinha. Depois de algumas sessões de interrogatório, se convenceu da explicação do noivo, que afirmou te escolhido a palavra somente porque foi a primeira coisa que lhe passou pela cabeça quando combinaram de inventar apelidos carinhosos um para o outro.

O sorriso de Macanudo tem algo de sinistro. Ele aparenta estar mais abatido. E há a camada de suor em sua testa.

Ândrêa pensa em elaborar verbalmente o que estava sentindo, mas consegue resumir tudo que estava represando dentro de si numa única palavra, dita, evidentemente, com a linguagem corporal exata.

- Fala...

Macanudo estende seu smartphone em frente ao rosto de Ândrêa. Todas as mulheres dentro do salão passam, dissimuladamente, a prestar atenção na conversa.

- Não sabe o que é isso?

Ela não faz menção de ler a tela.

- Não e nem sei se quero saber. É mais alguma novidade inclusa no maravilhoso contrato que você fez com a Plex?

- Não, Morena! Olha direito!

O Doktor Fritz definia seu estilo como Espiricore. Beta Cândido era o quinto de uma dinastia de vocalistas que tinham em comum os poderes mediúnicos e as vidas curtas. Apesar da reprovação de uma parte significativa da população, o sucesso da banda crescia dia após dia. Beta e os outros antes dele afirmavam que psicografavam as letras das músicas e recebiam espíritos ilustres, desconhecidos e até dos próprios antecessores durante suas performances.

Ver uma apresentação deles era uma experiência única. Eles nunca eram iguais. Nunca. As músicas sempre eram interrompidas pela chegada das entidades, que faziam suas próprias intervenções, fossem homens santos orientais abençoando a platéia, fossem físicos discursando sobre teorias obscuras, fossem donas de casa falando sobre programas de televisão transmitidos cinquenta anos antes. Tudo, nas maioria das vezes, dito, com pronúncia cristalina, em outros idiomas. Independente do que as entidades fizessem (ou não), o público ficava extasiado, procurando sentido naquilo tudo meses depois.
Se tudo era verdade ou apenas um golpe de marketing muito bem perpetrado, ninguém saberia dizer, mas por essas e por outras as entradas para os shows do Doktor Fritz era disputadíssimas, esgotando-se meses antes dos eventos.

Na tela do smartphone de Macanudo estava a mensagem confirmando a compra de duas entradas para o show mais recente deles.

- Nossa, como você conseguiu?

Macanudo exalava auto-confiança.

- Até que não foi tão difícil assim. Claro, tive que mexer meus pauzinhos, mas agora eu sou uma celebridade, cê esqueceu?

O último comentário teve o efeito de uma bateria anti-aérea alvejando a consciência de Ândrêa, que reassume a expressão carrancuda com a qual havia recebido o ex-noivo.

- Pior é que tinha. E tava melhor assim, viu? Olha, Maca, realmente não sei...
Ela cruza os braços e olha para o lado, distante.

- Me dá uma chance, vai - Macanudo suplica.

- Acho que não. A gente já conversou bastante sobre isso. Você fez a sua escolha, e eu fiz a minha. Dá para entender?

- Mas eu já te expliquei! Eu só fiz isso pra gente ter grana para casar logo!

- Maca, o que há de errado em trabalhar para ganhar dinheiro, como uma pessoa normal? Ia demorar? Talvez. Mas a gente ia conseguir. Você não precisava ter feito isso. E podia ter me avisado...

- Ândrêa, cê sabe que eu te amo.

É possível ver que os olhos de Ândrêa ficam molhados. Macanudo fica esperando que a primeira lágrima escorra, para que possa puxar sua ex-noiva para si e dar-lhe um beijo sôfrego, asfixiante, como nas comédias românticas que costumavam assistir. Tudo ia terminar bem.
Ândrêa dá uma fungada, esfrega as mãos nos olhos e diz:

- Tenho que trabalhar, tá?

- Mas...

Ela apenas balança a cabeça, negativamente, esperando que Macanudo se toque e dê o fora dali.

Ele, por sua vez, não consegue pensar em nada melhor para dizer, então:

- Pô, Morena, sabe quanto custaram essas entradas?

- Quase um mês do meu salário.

- Ué! Como você sabe que elas já tão valendo isso?

- Está escrito na sua testa. Tchau...

Ela fecha a porta, vira as costas, e volta ao trabalho.

Ele se segura, mas as lágrimas que deveriam ter escorrido dos olhos da ex-noiva acabam saindo dos seus. Ândrêa desaparece dentro do salão. Algumas das meninas continuam observando-no, de soslaio, mas nenhuma intervém a seu favor. Ninguém vem em seu socorro. Ficar parado ali não vai adiantar nada. Aquela não era a resposta que Macanudo esperava, mas ele tinha um plano B.

GOOGLE ANDROID

Como hard user dos serviços do Oráculo, aconteceu o que eu já imaginava, e gostei do pouco que vi do Android. Resta saber quando vai aportar por aqui.

TERRA INCOGNITA

Revista eletrônica de ficção-científica, no aire.

Baixe agora!

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

A CORNUCÓPIA RUBRA

Marcio Massula Jr.

Como perdigueiros treinados, os pezinhos descalços procuravam por algum vestígio de sombra no asfalto escaldante. A quarta-feira certamente tinha algo contra os demais dias da semana para estar assim tão ensolarada. Nem parecia que as ruas vinham sendo bombardeadas pelas ninbostratos nos últimos seis dias.

O mais velho seguia na frente, servindo de guia e protetor para as irmãs, que não faziam muita questão de saber onde estavam indo, embora estivessem indo para casa. Apenas iam - confiando cegamente no irmão - distraindo-se aqui e ali com bancos, objetos encontrados no chão, pombas, cachorros e qualquer coisa que suas cabecinhas insistissem em classificar como interessante. Isso, evidente, irritava o irmão, que tinha que intervir verbal e, quando necessário, fisicamente, para que as pequenas não ficassem para trás. E foi num desses rompantes, numa bonita mas mal conservada praça pública, percebendo mais uma vez que não estava sendo acompanhado pelas meninas, que viu o homem pela primeira vez. As meninas caminhavam devagar, em direção ao homem que estava sentado no meio-fio, a cabeça envolvida pelas mãos.

- Onde cês vão? - disse o mais velho, quase sussurrando no ouvido das duas.

- Vamo falá com o Papai Noel! - respondeu a do meio, no mesmo tom de voz, com os olhinhos brilhando.

 - Já falei que Papai Noel é mentira! - retrucou o irmão, meio irritado.

 - Não é não! - interveio a mais nova.

 - Vamo embora as duas! Eu tô mandano! Num tá veno que ele é doido? Olha! Tá até chorano!

- Eu vou falá com o Papai Noel e ponto!  - saiu esbaforida a menor, caminhando a passos pesados e com os bracinhos rijos, o que não deixou de arrancar risinhos da do meio.

O mais velho correu atrás, mas já era tarde para intervir. A mais nova já estava em frente ao homem, a mãozinha estendida, como já tinha sido estendida milhares de vezes.

- Dá um real aí, tio!

O homem parou de soluçar e levantou a cabeça na direção da mais nova, observando aqueles olhinhos como se fossem jóias muito valiosas.

 - Desculpe criança. Não entendi.

- Um real pra eu comprá comida - a mãozinha ainda lá.

O homem enxugava rapidamente as lágrimas, se dando conta só naquele momento de que aquilo poderia ser potencialmente constrangedor para alguém na sua posição. Suas bochechas eram vermelhas, um vermelho vivo, intenso, irreal, como que para combinar com o resto da sua indumentária.

- Então acho que seria melhor eu lhe dar um prato de comida, não?

- Não. Dá um real.

Papai Noel balançou a cabeça, decepcionado. Então notou que a menina não estava desacompanhada.

- Como se chama, meu doce?

- Jéssica - ainda com a mãozinha estendida.

- E quem são aqueles ali? Estão com você? - Papai Noel apontava para os irmãos de Jéssica.

- É meu irmão e minha irmã.

- E quantos anos você tem? Não! Espere! Vou adivinhar...você tem três,  talvez quatro anos (tenho muita experiência nisso), estou certo?

A menina lutou bravamente para que seus dedos indicassem que ela tinha cinco.

- Nossa, tão pequenininha!?! O que dão pra você comer?

- Nada.

- Nada?

- Nada. A mãe num dá nada.

Papai Noel refletiu por instantes. Depois disse, mais para si mesmo:

- O Saco sabe... - e de dentro do seu saco vermelho, sacou um sanduíche impressionante, magnânimo, daqueles vistos apenas em comerciais de cadeias de fast-food, e ofereceu-o à menina, que parecia não ter assimilado a idéia.

- Tome querida! É pra você!

- Pra mim?

- É.

Ela não se fez de rogada ao atacar o sanduíche à dentadas, e aquilo ajudou a dissipar um pouco a imagem recorrente na cabeça de Papai Noel, sobre o acontecido na noite passada Como um homem que costumava se divertir despistando esquadrilhas inteiras de MIGs sobre o estreito de Vladvostok pôde ter se deixado localizar pelo SIVAM (pelo SIVAM!) e, pior ainda, ter sido abatido por um Tucano?

- Quê isso? Tucano? - o rostinho da menina agora fora tomado por uma máscara de condimentos.

- Hã! Nada, querida, nada. Eu devia estar pensando alto. Oh, Rudolph...pobre Rudolph...ainda posso sentir o cheiro dos seus pêlos queimando...

- Dá um real, tio? - ela não desistiria facilmente.

- Chame seus irmãos aqui - Papai Noel apoiava a cabeça numa das mãos enquanto abanava a outra, dando por encerrado o assunto do real.

As crianças aproximaram-se. A do meio empolgada, percebendo que poderia ganhar um presente, como a mais nova. O mais velho desconfiado. Já tinham lhe falado sobre pessoas assim antes e, embora não fosse mais criança, ainda estavam gravadas a fogo em sua memória as diversas versões que ouvira da história do Homem do Saco.

A cor retornara às faces do Papai Noel, e a presença de mais crianças pareceu alegrá-lo.

- Ho-ho-ho! Como se chama, minha jovem?

- Daisy

- E você, meu caro?

O garoto respondeu com a careta mais ameaçadora que conseguiu imaginar.

- Vamos lá, garoto! Eu sou amigo! Vamos, me diga o seu nome!

- É Ródnei - respondeu a mais nova, conseguindo recapturar um pedaço de hambúrguer que ousara tentar a fuga de sua boquinha. Aquilo despertou a fúria de Ródnei, e ele partiu para cima da pequena, que resolveu não esperar para descobrir a reação do irmão e, entre uma mastigada e outra, correu o mais rápido que pôde até alcançar uma distância que considerou segura.

- Ei! Esperem vocês dois! Não precisam brigar por causa disso. Eu só queria saber os nomes de vocês por saber. Venham cá todos - Papai Noel pegou o Saco, deixou-o aberto e enfiou uma das mãos lá dentro.

- Venha cá Daisy. Normalmente eu tomaria essa decisão, mas bati a cabeça, sabe? Pensar está difícil, então vou deixar por conta do Saco. Ele sempre foi melhor do que eu. O Saco sabe... - então surgiu uma caixa colorida, algo quase mágico, como se ela não estivesse lá antes. A menina mal pôde se conter.

- É pra mim?

- Oh, sim! Ho-ho-ho! Claro que esta...”Academia e Centro de Estética da Boneca Babi” é pra você. Veja só! “Com seu próprio cirurgião plástico”!

Mesmo Ródnei não conseguiu evitar uma risadinha assistindo a luta de Daysi para localizar seu centro de gravidade agora que tentava caminhar segurando uma caixa quase do seu tamanho.

- Agora é sua vez, meu jovem. Vamos ver o que o Saco lhe reserva...

Papai Noel conquistou a confiança do garoto, ou uma parte dela. O suficiente para que ele se aproximasse, curioso em saber o que o Saco lhe reservava. Então Papai Noel sacou o conteúdo do Saco e estendeu-lhe ao menino, que deu um salto para trás, certamente assustado.

- Hã? - Papai Noel olhou para sua mão e viu que empunhava e apontava para Ródnei uma pistola moderníssima, pela aparência, fabricada no leste europeu.

- Ah! Agora entendi...não aprovo muito esse tipo de brinquedo, mas se foi isso que o Saco viu, é isso que você quer. Céus, como estão fazendo réplicas perfeitas ultimamente... - Papai Noel aproximou a pistola do rosto para examiná-la melhor, em seguida imitando, à sua maneira, os caubóis americanos, soprando o cano da pistola sucessivas vezes, tentando arrancar um sorriso do garoto e fazê-lo esquecer do susto que tivera há pouco.

- Muito boa mesmo. O que dispara? Água? Bolinhas? - Papai Noel apertou o gatilho e sua pergunta foi respondida com uma rajada de catorze projéteis de chumbo, que desapareceram no céu.

As crianças se jogaram no chão e o próprio Papai Noel caiu, mais pelo susto do que pelo tranco da arma. Ele olhava estarrecido o cano fumegante da pistola, sem entender o que tinha se passado. O Saco também estaria sofrendo os efeitos da queda? Ou, pior ainda, será que o menino realmente queria a arma? Papai Noel arremessou o objeto longe, com nojo, e o gesto reconquistou a confiança das crianças, que dispararam a rir.

- Papai Noel caiu de bunda no chão! - caçoava Daisy

- É de verdade mesmo? - Ródnei estava fascinado, quase em transe, olhando em direção ao lugar onde a arma fora lançada. Então Papai Noel se deu conta. Eles não estavam sozinhos na rua e muitas pessoas ainda corriam, assustadas. Mesmo sob o efeito do impacto, não foi difícil Papai Noel ligar os pontos e presumir o que aconteceria em seguida, mas, para sua surpresa, a polícia chegou muito antes do esperado.

- Mão na cabeça, vagabundo! - era uma viatura da PM, que teria uma chegada digna dos melhores filmes de ação hollywoodianos, não fosse pelo descuido do motorista, que freou bruscamente, fazendo o veículo derrapar e colidir com outros carros parados na rua, dando o tempo necessário para que Papai Noel e as crianças fugissem, sob o disparo de armas de grosso calibre.

Apesar da compleição robusta e da idade muito, muito avançada, décadas e décadas invadindo as residências alheias espremido em chaminés microscópicas, suportando o frio glacial da Lapônia ou o atrito causado por suas viagens hipersônicas deram a Papai Noel o preparo físico de um super-herói. Ele ultrapassou facilmente as crianças e só parou de correr quando se deu conta de que havia abandonado o Saco.

Aquilo nunca tinha acontecido antes, e Papai Noel tremia só de pensar no que poderia ocorrer se o poder do Saco caísse em mãos erradas. Tivera um pequeno vislumbre ao ceder às vontades de um garoto confuso. E o mundo estava repleto de pessoas mal-intencionadas. Ele tinha que reaver o Saco, mesmo que tivesse que enfrentar as autoridades. Se tivesse problemas, o Saco o tiraria deles.

Fez o caminho inverso a passos largos. Não queria chamar (mais) a atenção das pessoas, que agora já deviam estar precavidas contra o Papai Noel Pistoleiro. Então, cruzando uma travessa da avenida na qual se encontrava, viu. Estava nas mãos de Ródnei, que corria sem se importar com as súplicas das irmãs para que as esperasse. Subiu a escadaria que dava acesso ao morro onde eles moravam como um raio, e Papai Noel ficou tranquilo em saber que o Saco estava com alguém conhecido. E nas crianças se podia confiar.

Papai Noel correu atrás deles, acenando.

- Crianças! Crianças! Esperem! Sou eu...

As meninas olharam para trás e pararam, petrificadas. Jéssica começou a chorar. Papai Noel parou para confortá-la, e segurava delicadamente os bracinhos da menina.

- Ho-ho-ho! Não chore, princesa. Vê? Está tudo bem. Ninguém se machucou e tudo não passou de um acidente. Agora, se me dão licença, tenho que pegar o Saco com o irmão de vocês. Acho que ele não me ouviu...continua correndo...se eu não me apressar, vou perdê-lo e tenho muitos compromissos atrasados. Até, meninas!

Papai Noel disparou atrás de Ródnei, tentando não perdê-lo de vista, sempre acenando e gritando seu nome. Mas o garoto parecia não ouvir - teriam os disparos afetado sua audição? - e corria cada vez mais, certamente evitando ter que dar explicações à polícia, pensava Papai Noel.

O problema que o Bom Velhinho enfrentava agora era a geografia labiríntica do local, uma sucessão de becos, muros, ruelas sem-saída e escadarias que não davam em lugar nenhum, e ele apenas não perdeu o garoto de vista por conseguir compensar sua desorientação com uma velocidade superior.
Ele serpenteava pelos corredores estreitos, vez por outra recebendo o olhar atônito dos moradores, que retribuía com um largo sorriso, até que, em uma das muitas áreas abertas pelas quais passou, foi barrado por um homem. Ele estava armado. Papai Noel deu alguns passos para trás, e percebeu que o homem estava acompanhado por outros, também armados. E não eram autoridades. Ou eram?

- Olha só que comédia. Tá doido, velho? Comé que cê sobe o morro assim, sem pedí pra ninguém?

Eram quatro. O mais velho devia ter pouco mais de vinte, e todos apontavam suas armas para ele. Sempre que podia, Papai Noel evitava o conflito direto, e, no caso, achou que dialogar seria a melhor solução. Levantou as mãos, em sinal claro de rendição.

- Ho-ho-ho! Vejam rapazes, eu não sou ameaça para ninguém e...

- Ah, é? Ah, é? Então, quê que cê tá fazeno aqui, ô velho comédia?

- Papai Comédia - emendou outro dos rapazes, fazendo todos caírem na gargalhada.

- E então, Papai Comédia? Num vai falá não? Hã? Num vai falá?

- Eu só...Papai Noel interrompeu-se, tentando soar o mais natural possível. Embora fosse fluente em todos os idiomas criados pela imaginação humana, algumas expressões idiomáticas (principalmente as que não faziam parte do seu contexto) lhe eram difíceis, e ele tentava lembrar a expressão utilizada por um dos rapazes há pouco - ...subi o morro pra pegar uma coisa que é minha e que um garoto, talvez vocês conheçam, Ródnei, está guardando para mim.

Os rapazes entreolharam-se.

- Que Ródnei? O filho do seu Madruga? -inquiriu o líder.

- Acho que não. Esse aí mora lá embaixo - respondeu um dos companheiros.

- Ah, é...tem aquele lá da dona Zilda...

- Quê isso, Boca?!? Já esqueceu que cê passou o cara?

- Ah, é! Só!

Papai Noel observava, aflito, o Saco subindo cada vez mais, ora desaparecendo atrás de uma daquelas construções rústicas, ora surgindo em outra escada ou rampa, subindo e subindo.

- Aquele Ródnei - apontou Papai Noel, tentando evitar movimentos bruscos.

Os quatros viraram-se de uma vez para o local indicado por Papai Noel, cobrindo a parte superior dos olhos com as mãos, tentando definir quem estava por trás do ponto vermelho que ziguezagueava morro acima.

- Tá veno quem é, Sinistro?

- Tô não, Boca...peraí! Parece o Rodinho.

- O Rodinho do seu Roque?

- É.

- Aê, Papai Comédia, o menino é do nosso conceito. Se tá mecheno com ele, tá mecheno com a gente.

Os quatro começaram a se virar ao mesmo tempo. Papai Noel nunca fora entusiasta dos combates, mas naquela situação não via alternativa a não ser optar pelo caminho da espada. Poucos sabiam, mas ele era versado no P’ong-P’o-Chi, uma variante letal do T’ai Chi, conhecida por apenas onze homens na face da Terra.

Foi tudo muito rápido. Os garotos eram jovens e rápidos. Mas estavam próximos e isso deu a vantagem que o velho guerreiro precisava. O que estava à direita chegou a puxar o gatilho, mas Papai Noel antecipou-se, dando um tapa no cano do seu fuzil e a rajada atingiu o peito daquele que eles chamavam de Sinistro. Ao mesmo tempo, sua bota foi de encontro aos genitais do que aparentava ser o mais jovem, que foi ao chão urrando de dor. Numa fração de segundos, um dos punhos de Papai Noel já deslocara o maxilar do líder, Boca, mas o último deles, aquele que tinha atirado no próprio amigo, recobrou-se do choque e preparava outra saraivada de balas, agora com endereço certo.

Mas o Bom Velhinho foi mais rápido e o meliante não conseguiu se esquivar das mãos dele, que era benevolente o bastante para manter pressionada sua carótida e mais um punhado de vasos sanguíneos apenas o tempo suficiente para que a interrupção do fornecimento de oxigênio ao cérebro comprometesse permanentemente apenas as regiões cerebrais responsáveis pela fala e pela locomoção. Era Natal e não havia motivo para tirar injustamente mais uma vida.

Haveria tempo para lamentar o incidente depois. Afinal de contas, eles também tinham sido crianças. Mas sua atitude enérgica tinha um bom motivo. Sabia o que podia sair do Saco, e já tinha visto armas demais naquele dia.

Ele deu tudo de si, desta vez não se preocupando com o que as pessoas pudessem imaginar. Afinal de contas, quem saberia que ele era O Papai Noel? O ponto vermelho continuava sua escalada frenética, mas Papai Noel estava reduzindo a distância entre eles rapidamente. O garoto devia estar perdendo o fôlego. Papai Noel resolveu não gritar, para não atrair mais problemas. Ele teve a impressão de que o garoto olhara de relance e o vira, mas se isso fosse verdade, certamente ele teria parado e entregaria de bom grado o Saco à Papai Noel. Ródnei agora caminhava e virou num corredor que surgiu repentino. Papai Noel diminuiu a velocidade e entrou no corredor, que terminava numa praça microscópica, construída artesanalmente, com certeza pelos próprios moradores que habitavam os quatro barracos - lembrara-se do nome - que a circundavam, e não acreditou no que viu.

Ródnei puxava mais uma arma do Saco, dessa vez uma submetralhadora israelense de última geração. Papai Noel não se conteve e tomou de uma vez a arma e o Saco do garoto, que encolheu-se num canto, esforçando-se para não demonstrar medo.

- Será que não percebe, garoto? Não vê o mal que essas coisas podem fazer? Não viu o que aconteceu hoje? Não viu o que aconteceu ao mundo?

O garoto, ainda encolhido, olhava para baixo, sem dizer nada.

- E então? Não vai dizer nada? Não vai dizer que está arrependido e que no próximo ano vai ser um bom garoto??

- Por quê? - balbuciou o garoto.

- Como assim por quê? Será que aqui os garotos são diferentes até nisso? Não quer ganhar presentes, não?

- Eu nunca ganhei presente e nunca te vi! Cê não existe!

A afirmação teve o efeito de um tiro. Papai Noel ponderou um pouco.

- Tente entender, garoto. Estamos ampliando nossas operações ano-a-ano. Quando comecei, eu mal podia cobrir a área de uma vila, e veja só, hoje já atendo boa parte do Hemisfério Norte ocidental. O que você acha que eu estava fazendo no espaço aéreo do seu país? - Papai Noel interrompeu o discurso, na esperança de que o menino respondesse sua pergunta, mas diante do silêncio dele, não havia opção senão continuar de onde havia parado.

- Estava analisando novas rotas, percebe? O problema hoje é uma questão puramente logística, sabe o que é isso?. Com meus meios de locomoção atuais, é inviável atender a todas as casas do mundo, mas, ho-ho-ho!, isso vai mudar em breve! - Papai Noel abriu um largo sorriso e deu uma piscadela para o garoto. - Estamos desenvolvendo um novo tipo de propulsão. Fica pronta em, segundo os prognósticos dos duendes, em trinta anos. Não é incrível?

- Papai Noel féladaputa - disse o garoto, baixinho.

O rosto do homem transfigurou-se.

- O quê? O quê você disse? - Papai Noel deu três passos em direção ao menino, e esse assumiu uma posição defensiva, já esperando tomar algum tipo de safanão do Espírito Natalino, que percebeu o temor do garoto e, tentando não complicar mais ainda a situação, virou-se e foi embora, nem mesmo se despedindo, apenas imaginando qual seria a maneira mais discreta para retornar ao Pólo Norte.

Assim que percebeu que Papai Noel não oferecia mais risco, Ródnei parou de tremer e soluçar. Era um garoto esperto, esperto demais para sua idade. Sabia que Papai Noel o encontraria e tomaria o Saco de volta. Correra como um louco na tentativa de ganhar alguma distância para que pudesse tirar o que precisava do Saco. Viu como utilizar e achou que seria fácil, como realmente foi. Mas o velho era muito rápido e o alcançou rapidinho. Ele queria tirar uns presentes para si próprio e para seus amigos, mas não deu tempo e Papai Noel tomou a UZI que Sinistro tanto queria e cuja foto ele vira tantas vezes nas várias revistas especializadas que o pessoal da boca deixava espalhadas por lá. Paciência. Pelo menos o dele ele conseguiu tirar. Tirar e esconder num monte de mato próximo, antes que Papai Noel visse.

Foi até lá e, com dificuldade, puxou o fuzil - igualzinho ao de Sinistro - com o qual ele sempre sonhou. Armou o bipé, destravou a arma e ajustou a mira, exatamente como o amigo agora falecido havia ensinado. Uma vez, durante uma troca de tiros com a polícia, Sinistro deixara o garoto efetuar alguns disparos, afirmando, inclusive, que Rodnei tinha conseguido acertar um verme, mas o garoto era modesto e achava que o amigo disse aquilo apenas para agradá-lo.

De qualquer maneira, se lembrava de como fazer tudo direitinho. E ainda dava pra ver o Papai Noel.

Será que conseguiria acertá-lo dali?

MIDRAXE (2004-2006)

O Midraxe foi um e-zine que editei entre 2004 e 2006. Por editar você pode entender " formatar os textos, azucrinar periodicamente os colaboradores e escrever um editorial engraçadinho".

Os zines eram arquivos .rtf enviados através de uma lista do Yahoo. Não era um formato lá muito brilhante, mas até que era legal.

Foram sete edições, que contaram com textos meus e dos escritores Lúcio Manfredi, Rafael Monteiro, Airton Marinho e A. Moraes. Algumas das edições foram temáticas, como a de Sexo (onde saiu S@TYRI.COM) e a de Natal.

Por razões que não vêm ao caso, o e-zine acabou (e esse blog nasceu).

Desenterrei esse material hoje e tava dando umas risadas. Soltar os zines por aí tá fora de cogitação, mas vou (re)publicar mais dois contos meus daquela época: MIDRAXE, que deu nome ao zine, e A CORNUCÓPIA RUBRA, que saiu no especial de Natal.

E até o fim da semana posto a parte 4 de ADSENSELESS.

Abaixo vai o "editorial" da edição 2. E daqui a pouco, segue A CORNUCÓPIA.

Divirtam-se (ou não...).


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MIDRAXE - Em terra de cego, quem lê Midraxe é Rei. 

EDIÇÃO 2 - NOVEMBRO DE 2004

Tudo certo aí, pessoal?

Os retorno dado pelo público à primeira edição foi melhor do que o esperado. O zine rodou o mundo e alguns escribas ilustres dedicaram singelas linhas à nossa publicação. Vejam só:

Uau! Mal posso esperar pra tirar uma foto com esses garotos!
- Thomas Pynchon

Um primor! Enviei algumas coisas ao Márcio e espero sinceramente poder fazer parte desse empreendimento!
- Alan Moore

Eles têm futuro. Prevejo um número de edições semelhante às minhas tiragens. É só perseverar.
- Paulo Coelho

Caralho! É um verdadeiro cataclisma sináptico metafictício!
- Grant Morrison

Tivesse sido lançado 30 anos antes, eu estaria lendo, com certeza.
- Philip K. Dick (com a ajuda de alguns copos d’água, de um velho rádio valvulado e de um exemplar surrado do The complete idiot’s guide to Instrumental Transcomunication)

Na próxima entrevista que der, citarei os piás como uma das minhas novas referências.
- Dalton Trevisan

Gostei muito e escreverei algo sobre eles. Um romance, imagino. A história vai se passar em Nova York. E algum deles vai desaparecer. Acho que é só, por enquanto.
- Paul Auster

Essa molecada é de matar!
- Stephen King

Nessa edição, Lúcio Manfredi (http://malprg.blogs.com/francoatirador), que - presumo - deve ter chorado de emoção com o diálogo final de Waking Life; A. Moraes (http://artificios.blogspot.com), que - presumo - também deve ter chorado de emoção com o diálogo final de Waking Life e eu (http://urobouro.blogspot.com), que chorei de emoção com o diálogo final de Waking Life.

Esse mês teremos uma edição diet, com menos caracteres (acho. Não contei. Se algum de vocês tiver a pachorra de fazer isso, me informe, per favore), mas com o mesmo valor nutritivo.

Divirtam-se.

Marcio Massula Jr

MISTER BOOKSELLER

Hqzinha de 8 páginas, bem legal, escrita por Darko Macan e desenhada por Tihomir Celanovic.

Dica do Pedro Bouça.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

A ARTE DE PRODUZIR EFEITO SEM CAUSA

Terminei ontem.

Mutarelli consegue, mais uma vez, tirar leite de pedra. Até faltarem umas trinta páginas para o final do livro, eu ainda tinha JESUS KID como meu preferido, mas quando acabou (ou será que começou?) o Efeito, minha opinião mudou.

Fiquei angustiado. Não há outra palavra. Outro livro que me causou efeito semelhante - e que me vem à cabeça agora - foi COMA, de Alex Garland. Mas em COMA o negócio demorou a bater, e a narrativa só fez efeito (estamos hilários hoje, não?) algum tempo depois. Basicamente, são histórias sobre homens presos dentro das suas próprias cabeças.

A parte gráfica do livro também deixa sua marca e tem o seu porquê. O que a princípio parece apenas um adorno também tem sua função entre as letrinhas.

Dizer mais sobre Efeito (com maíuscula, note) é entregar o ouro, mas quem não gosta de Burroughs, bom sujeito não é. Vale a pena, enfim.

sábado, 6 de setembro de 2008

A MORTE DE ANTÔNIA

Ah, a internet e as sincronicidades...

Tava lendo uns feeds na minha conta do Google Reader (que quase não uso. Prefiro o Bloglines). Linka aqui, clica ali, e vou cair no blog do Thiago Dória, que faz uma entrevista com a escritora gaúcha Carol Bensimon, que até então eu desconhecia.

Num determinado momento, ela revela o plot do seu novo romance, SINUCA EMBAIXO D'ÁGUA:

O Sinuca é um romance sobre uma ausência. Antônia morre num acidente de carro, e algumas pessoas tem que aprender a lidar com isso, cada uma a sua maneira. A narração é alternada sobretudo entre três personagens (mas outros surgem no meio também): Bernardo, melhor amigo de Antônia, um tipo de nerd obsessivo-compulsivo que precisa achar alguma lógica no que aconteceu, e que por isso tenta reconstituir a noite do acidente. Camilo, o irmão de Antônia, adorador de Guns n’ Roses, junkie, que monta e desmonta carros, e que nunca trabalhou um dia na vida. E Polaco, o dono do bar entre o Lago e a casa de Antônia e Camilo, que guarda uma história obscura envolvendo a pequena cidade onde nasceu, história que, em função da morte de Antônia, volta a assombrá-lo.

Achei interessante e já anotei o nome. Ajuda o fato de o livro ter um "making-of" (sim, eu me amarro nessas paradas!), mas o que me assombrou, se posso dizer assim, foram os pontos de tangência do plot dela com um argumento que estou escrevendo. A história trata justamente da morte de uma Antônia e da reação de três pessoas a isso.

Até onde entendi, as coincidências terminam por aí. Além do quê, a morte de uma pessoa SEMPRE muda a vida dos que estão próximos a ela. E claro, há ainda a noosfera.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

INCLUSÃO DIGITAL

(Estou na minha linux-vibe sazonal, então não reparem se ficar muito repetitivo, certo?)

O lance é que a minha esposa comprou um computador novo uns tempos atrás. Sempre temos dois desktops em casa. O dela, e o que costumava ser meu, e que agora é do meu filho. De anos em anos a gente compra um novo, que fica com ela, e o dela passa para mim (agora meu filho), e a gente sempre doa o mais antigo.

A bola da vez foi um Pentium 4 com 512 de RAM e sei-lá quanto de HD. Uma configuração que vai atender a maioria das necessidades de qualquer um que use um computador. E quem recebeu o computador foi uma pessoa que trabalha conosco.

Antes disso, tive que, obviamente, formatar a máquina. Pelo pouco que conversamos, tanto ela quanto os filhos não têm muito contato com computadores. E foi aí que me deu o estalo: por que não?

Uma das maiores barreiras em relação ao Linux são justamente os velhos hábitos dos usuários-padrão, que, até por já terem se habituado com o Windows por anos e anos, não se sentem seguros nem motivados a trocar uma ferramenta que já conhecem relativamente bem por uma na qual terão que aprender bastante coisa.

Enfim, instalei o Ubuntu 8.04, fiz as configurações necessárias: instalei o Flash para que eles pudessm ver vídeos na internet, jogar, etc; troquei o OpenOffice default (em inglês) pelo BrOffice, instalei as fontes default da Microsoft e fiz mais alguns ajustes. A única coisa que não funcionou a contento foi o Compiz. Infelizmente não tive tempo para checar isso, mas do jeito que o micro ficou já estava de bom tamanho.

Detalhe: eu não falei absolutamente nada sobre o sistema operacional. Simplesmente entreguei a máquina.

Como praticamente não fiquei em casa desde que fiz isso, não sei se eles gostaram ou se alguém já arrancou o Ubuntu fora. Na verdade, estou bem curioso. Dentro em breve pergunto e descubro.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

QUERIDO PESSOAL DO BLOGGER...

Eu não sou um spammer nem um bot. Será que vou ter que continuar preenchendo esse catso desse captcha toda vez que for postar no meu blog?

(sim, já notifiquei o blogger diversas vezes).

CONVIDADO

Analogia interessante que o usuário "mlvezie" fez na seção de comentários de um post do Lifehacker:

My feelings for Windows now is that, even thought I've used it for years, and certainly know my way around it, when I use it, I feel like I'm a guest in a friend's home, but when I use Linux, I feel like I'm at home.

Faz sentido.

DE VOLTA AO DUAL-BOOT

Pois é. Quase um mês depois de dar início ao meu “Experimento U”, me vi sem saída e acabei tendo que retornar ao bom e velho XP. Ou melhor, ao bom e velho dual-boot.

Como já disse antes, não partilho do mesmo ódio patológico que certos usuários têm por programas pagos. Num caso como esse, costumo ver as coisas de maneira mais pragmática. Há sim um componente ideológico na minha predileção por programas de código aberto, mas ela se deve muito mais à praticidade da coisa toda. Posso instalar, desinstalar e fazer o diabo sem ter que me preocupar com chaves de autorização, validações pela internet e por aí vai. Posso distribuir para amigos e colegas de trabalho. Além disso, o desenvolvimento dos programas é mais rápido. E, normalmente, eles fazem tudo o que eu preciso.

Contudo, a minha área de trabalho exige uma grande quantidade de programas que são concebidos para trabalharem exclusivamente no Windows. Alguns rodaram bem no Wine, outros não. No caso desses que não rodaram, consegui fazer algumas substituições com soluções “de próprio punho”, mas elas não me atenderam a contento.

Então resolvi voltar ao dual-boot. Se vocês leram o post que linkei no primeiro parágrafo, devemter percebido que a intenção não era largar do Windows de vez, mas apenas ter uma idéia de como seria a experiência. Particularmente, eu gostei. Mas, afinal, ainda há meu ganha-pão.

Antes de voltar ao dual-boot, tentei a virtualização, mas o VirtualBox (que tem versão nova sendo lançada hoje, aliás) não funcionou tão redondinho quanto imaginei e não tenho o tempo necessário para vasculhar fóruns e site em busca das resoluções dos meus problemas com ele. Prefiro tentar resolver esse assunto com calma, sem pressão.

Obviamente, não sou tão trouxa para queimar meu filme com um cliente por causa das minhas preferências pessoais, então fiz isso sabendo que:

a) havia um velho desktop no meu local de trabalho atual que poderia me ajudar – e ajudaram - nesses dias.

b) havia amigos com laptops com Windows, que poderiam me ajudar – e ajudaram - nesses dias.

O Ubuntu não se mostrou adequado para algumas atividades do meu trabalho, mas de maneira alguma eu penso em largá-lo, muito pelo contrário, mesmo porque, uma coisa não exclui a outra. Ter o Windows instalado no computador não significa que ele é mais ou menos importante que outros SO's que estejam lá. É simplesmente uma questão de necessidade. Para uma situação específica, eu tenho o SO e as ferramentas específicas, para outra, tenho outros. Ponto.

Então as coisa ficaram assim: XP e Ubuntu para o trabalho, numa proporção de 70/30, e Ubuntu para todo o resto.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

DESKTOP SCREENSHOTS

Sei que é um puta fetiche nerdy, mas me amarro em ver screenshots dos desktops alheios. Sei lá por quê.

E, miraculosamente, encontro uma galeria no Flickr com mais de 1.000 fotos. É nóis!

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

ALQUIMIA REVERSA

De tempos pra cá venho colocando em perspectiva as impressões que tinha sobre coisas que escrevi e pessoas que (des)conheço, e não me surpreendi com o fato delas estarem se tornando piores a cada dia. Mas decepções e desilusões também fazem parte da vida, né não?

terça-feira, 12 de agosto de 2008

MUTARELLI E STEPHENSON

De tempos pra cá prometi a mim mesmo que o fluxo de livros entre Taubaté e Curitiba seria apenas na direção da primeira à última, ou seja, não levaria mais livros da minha casa para o local onde estou.

Mas uma rápida passada numa livraria ontem, fez com que eu mudasse de idéia. Primeiro vi NEVASCA, primeiro livro de Neal Stephenson lançado no Brasil, até onde sei.

Stephenson é "filho" dos cyberpunks originais (Gibson, Sterling, etc.) e pelo pouco que li a respeito de sua obra (da qual Cryptonomicon é a que mais me desperta curiosidade) o livro tem tudo para me agradar.

O outro que vi - trouxe e levarei - foi A ARTE DE PRODUZIR EFEITO SEM CAUSA, de Lourenço Mutarelli. Acho que esse deve ter sido o primeiro fruto do polêmico Amores Expressos. O objeto em si, é muito bonito, lembrando um caderno de anotações, com algumas passagens caligrafadas e o caralho. A narrativa, pelo pouco que se pode deduzir da sinopse, também continua fazendo parte das paisagens que o autor costuma visitar.

UPDATE: segundo essa entrevista, A ARTE DE PRODUZIR EFEITO SEM CAUSA não faz parte do projeto Amores Expressos, como eu imaginava.