terça-feira, 23 de setembro de 2008

GOOGLE ANDROID

Como hard user dos serviços do Oráculo, aconteceu o que eu já imaginava, e gostei do pouco que vi do Android. Resta saber quando vai aportar por aqui.

TERRA INCOGNITA

Revista eletrônica de ficção-científica, no aire.

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segunda-feira, 22 de setembro de 2008

A CORNUCÓPIA RUBRA

Marcio Massula Jr.

Como perdigueiros treinados, os pezinhos descalços procuravam por algum vestígio de sombra no asfalto escaldante. A quarta-feira certamente tinha algo contra os demais dias da semana para estar assim tão ensolarada. Nem parecia que as ruas vinham sendo bombardeadas pelas ninbostratos nos últimos seis dias.

O mais velho seguia na frente, servindo de guia e protetor para as irmãs, que não faziam muita questão de saber onde estavam indo, embora estivessem indo para casa. Apenas iam - confiando cegamente no irmão - distraindo-se aqui e ali com bancos, objetos encontrados no chão, pombas, cachorros e qualquer coisa que suas cabecinhas insistissem em classificar como interessante. Isso, evidente, irritava o irmão, que tinha que intervir verbal e, quando necessário, fisicamente, para que as pequenas não ficassem para trás. E foi num desses rompantes, numa bonita mas mal conservada praça pública, percebendo mais uma vez que não estava sendo acompanhado pelas meninas, que viu o homem pela primeira vez. As meninas caminhavam devagar, em direção ao homem que estava sentado no meio-fio, a cabeça envolvida pelas mãos.

- Onde cês vão? - disse o mais velho, quase sussurrando no ouvido das duas.

- Vamo falá com o Papai Noel! - respondeu a do meio, no mesmo tom de voz, com os olhinhos brilhando.

 - Já falei que Papai Noel é mentira! - retrucou o irmão, meio irritado.

 - Não é não! - interveio a mais nova.

 - Vamo embora as duas! Eu tô mandano! Num tá veno que ele é doido? Olha! Tá até chorano!

- Eu vou falá com o Papai Noel e ponto!  - saiu esbaforida a menor, caminhando a passos pesados e com os bracinhos rijos, o que não deixou de arrancar risinhos da do meio.

O mais velho correu atrás, mas já era tarde para intervir. A mais nova já estava em frente ao homem, a mãozinha estendida, como já tinha sido estendida milhares de vezes.

- Dá um real aí, tio!

O homem parou de soluçar e levantou a cabeça na direção da mais nova, observando aqueles olhinhos como se fossem jóias muito valiosas.

 - Desculpe criança. Não entendi.

- Um real pra eu comprá comida - a mãozinha ainda lá.

O homem enxugava rapidamente as lágrimas, se dando conta só naquele momento de que aquilo poderia ser potencialmente constrangedor para alguém na sua posição. Suas bochechas eram vermelhas, um vermelho vivo, intenso, irreal, como que para combinar com o resto da sua indumentária.

- Então acho que seria melhor eu lhe dar um prato de comida, não?

- Não. Dá um real.

Papai Noel balançou a cabeça, decepcionado. Então notou que a menina não estava desacompanhada.

- Como se chama, meu doce?

- Jéssica - ainda com a mãozinha estendida.

- E quem são aqueles ali? Estão com você? - Papai Noel apontava para os irmãos de Jéssica.

- É meu irmão e minha irmã.

- E quantos anos você tem? Não! Espere! Vou adivinhar...você tem três,  talvez quatro anos (tenho muita experiência nisso), estou certo?

A menina lutou bravamente para que seus dedos indicassem que ela tinha cinco.

- Nossa, tão pequenininha!?! O que dão pra você comer?

- Nada.

- Nada?

- Nada. A mãe num dá nada.

Papai Noel refletiu por instantes. Depois disse, mais para si mesmo:

- O Saco sabe... - e de dentro do seu saco vermelho, sacou um sanduíche impressionante, magnânimo, daqueles vistos apenas em comerciais de cadeias de fast-food, e ofereceu-o à menina, que parecia não ter assimilado a idéia.

- Tome querida! É pra você!

- Pra mim?

- É.

Ela não se fez de rogada ao atacar o sanduíche à dentadas, e aquilo ajudou a dissipar um pouco a imagem recorrente na cabeça de Papai Noel, sobre o acontecido na noite passada Como um homem que costumava se divertir despistando esquadrilhas inteiras de MIGs sobre o estreito de Vladvostok pôde ter se deixado localizar pelo SIVAM (pelo SIVAM!) e, pior ainda, ter sido abatido por um Tucano?

- Quê isso? Tucano? - o rostinho da menina agora fora tomado por uma máscara de condimentos.

- Hã! Nada, querida, nada. Eu devia estar pensando alto. Oh, Rudolph...pobre Rudolph...ainda posso sentir o cheiro dos seus pêlos queimando...

- Dá um real, tio? - ela não desistiria facilmente.

- Chame seus irmãos aqui - Papai Noel apoiava a cabeça numa das mãos enquanto abanava a outra, dando por encerrado o assunto do real.

As crianças aproximaram-se. A do meio empolgada, percebendo que poderia ganhar um presente, como a mais nova. O mais velho desconfiado. Já tinham lhe falado sobre pessoas assim antes e, embora não fosse mais criança, ainda estavam gravadas a fogo em sua memória as diversas versões que ouvira da história do Homem do Saco.

A cor retornara às faces do Papai Noel, e a presença de mais crianças pareceu alegrá-lo.

- Ho-ho-ho! Como se chama, minha jovem?

- Daisy

- E você, meu caro?

O garoto respondeu com a careta mais ameaçadora que conseguiu imaginar.

- Vamos lá, garoto! Eu sou amigo! Vamos, me diga o seu nome!

- É Ródnei - respondeu a mais nova, conseguindo recapturar um pedaço de hambúrguer que ousara tentar a fuga de sua boquinha. Aquilo despertou a fúria de Ródnei, e ele partiu para cima da pequena, que resolveu não esperar para descobrir a reação do irmão e, entre uma mastigada e outra, correu o mais rápido que pôde até alcançar uma distância que considerou segura.

- Ei! Esperem vocês dois! Não precisam brigar por causa disso. Eu só queria saber os nomes de vocês por saber. Venham cá todos - Papai Noel pegou o Saco, deixou-o aberto e enfiou uma das mãos lá dentro.

- Venha cá Daisy. Normalmente eu tomaria essa decisão, mas bati a cabeça, sabe? Pensar está difícil, então vou deixar por conta do Saco. Ele sempre foi melhor do que eu. O Saco sabe... - então surgiu uma caixa colorida, algo quase mágico, como se ela não estivesse lá antes. A menina mal pôde se conter.

- É pra mim?

- Oh, sim! Ho-ho-ho! Claro que esta...”Academia e Centro de Estética da Boneca Babi” é pra você. Veja só! “Com seu próprio cirurgião plástico”!

Mesmo Ródnei não conseguiu evitar uma risadinha assistindo a luta de Daysi para localizar seu centro de gravidade agora que tentava caminhar segurando uma caixa quase do seu tamanho.

- Agora é sua vez, meu jovem. Vamos ver o que o Saco lhe reserva...

Papai Noel conquistou a confiança do garoto, ou uma parte dela. O suficiente para que ele se aproximasse, curioso em saber o que o Saco lhe reservava. Então Papai Noel sacou o conteúdo do Saco e estendeu-lhe ao menino, que deu um salto para trás, certamente assustado.

- Hã? - Papai Noel olhou para sua mão e viu que empunhava e apontava para Ródnei uma pistola moderníssima, pela aparência, fabricada no leste europeu.

- Ah! Agora entendi...não aprovo muito esse tipo de brinquedo, mas se foi isso que o Saco viu, é isso que você quer. Céus, como estão fazendo réplicas perfeitas ultimamente... - Papai Noel aproximou a pistola do rosto para examiná-la melhor, em seguida imitando, à sua maneira, os caubóis americanos, soprando o cano da pistola sucessivas vezes, tentando arrancar um sorriso do garoto e fazê-lo esquecer do susto que tivera há pouco.

- Muito boa mesmo. O que dispara? Água? Bolinhas? - Papai Noel apertou o gatilho e sua pergunta foi respondida com uma rajada de catorze projéteis de chumbo, que desapareceram no céu.

As crianças se jogaram no chão e o próprio Papai Noel caiu, mais pelo susto do que pelo tranco da arma. Ele olhava estarrecido o cano fumegante da pistola, sem entender o que tinha se passado. O Saco também estaria sofrendo os efeitos da queda? Ou, pior ainda, será que o menino realmente queria a arma? Papai Noel arremessou o objeto longe, com nojo, e o gesto reconquistou a confiança das crianças, que dispararam a rir.

- Papai Noel caiu de bunda no chão! - caçoava Daisy

- É de verdade mesmo? - Ródnei estava fascinado, quase em transe, olhando em direção ao lugar onde a arma fora lançada. Então Papai Noel se deu conta. Eles não estavam sozinhos na rua e muitas pessoas ainda corriam, assustadas. Mesmo sob o efeito do impacto, não foi difícil Papai Noel ligar os pontos e presumir o que aconteceria em seguida, mas, para sua surpresa, a polícia chegou muito antes do esperado.

- Mão na cabeça, vagabundo! - era uma viatura da PM, que teria uma chegada digna dos melhores filmes de ação hollywoodianos, não fosse pelo descuido do motorista, que freou bruscamente, fazendo o veículo derrapar e colidir com outros carros parados na rua, dando o tempo necessário para que Papai Noel e as crianças fugissem, sob o disparo de armas de grosso calibre.

Apesar da compleição robusta e da idade muito, muito avançada, décadas e décadas invadindo as residências alheias espremido em chaminés microscópicas, suportando o frio glacial da Lapônia ou o atrito causado por suas viagens hipersônicas deram a Papai Noel o preparo físico de um super-herói. Ele ultrapassou facilmente as crianças e só parou de correr quando se deu conta de que havia abandonado o Saco.

Aquilo nunca tinha acontecido antes, e Papai Noel tremia só de pensar no que poderia ocorrer se o poder do Saco caísse em mãos erradas. Tivera um pequeno vislumbre ao ceder às vontades de um garoto confuso. E o mundo estava repleto de pessoas mal-intencionadas. Ele tinha que reaver o Saco, mesmo que tivesse que enfrentar as autoridades. Se tivesse problemas, o Saco o tiraria deles.

Fez o caminho inverso a passos largos. Não queria chamar (mais) a atenção das pessoas, que agora já deviam estar precavidas contra o Papai Noel Pistoleiro. Então, cruzando uma travessa da avenida na qual se encontrava, viu. Estava nas mãos de Ródnei, que corria sem se importar com as súplicas das irmãs para que as esperasse. Subiu a escadaria que dava acesso ao morro onde eles moravam como um raio, e Papai Noel ficou tranquilo em saber que o Saco estava com alguém conhecido. E nas crianças se podia confiar.

Papai Noel correu atrás deles, acenando.

- Crianças! Crianças! Esperem! Sou eu...

As meninas olharam para trás e pararam, petrificadas. Jéssica começou a chorar. Papai Noel parou para confortá-la, e segurava delicadamente os bracinhos da menina.

- Ho-ho-ho! Não chore, princesa. Vê? Está tudo bem. Ninguém se machucou e tudo não passou de um acidente. Agora, se me dão licença, tenho que pegar o Saco com o irmão de vocês. Acho que ele não me ouviu...continua correndo...se eu não me apressar, vou perdê-lo e tenho muitos compromissos atrasados. Até, meninas!

Papai Noel disparou atrás de Ródnei, tentando não perdê-lo de vista, sempre acenando e gritando seu nome. Mas o garoto parecia não ouvir - teriam os disparos afetado sua audição? - e corria cada vez mais, certamente evitando ter que dar explicações à polícia, pensava Papai Noel.

O problema que o Bom Velhinho enfrentava agora era a geografia labiríntica do local, uma sucessão de becos, muros, ruelas sem-saída e escadarias que não davam em lugar nenhum, e ele apenas não perdeu o garoto de vista por conseguir compensar sua desorientação com uma velocidade superior.
Ele serpenteava pelos corredores estreitos, vez por outra recebendo o olhar atônito dos moradores, que retribuía com um largo sorriso, até que, em uma das muitas áreas abertas pelas quais passou, foi barrado por um homem. Ele estava armado. Papai Noel deu alguns passos para trás, e percebeu que o homem estava acompanhado por outros, também armados. E não eram autoridades. Ou eram?

- Olha só que comédia. Tá doido, velho? Comé que cê sobe o morro assim, sem pedí pra ninguém?

Eram quatro. O mais velho devia ter pouco mais de vinte, e todos apontavam suas armas para ele. Sempre que podia, Papai Noel evitava o conflito direto, e, no caso, achou que dialogar seria a melhor solução. Levantou as mãos, em sinal claro de rendição.

- Ho-ho-ho! Vejam rapazes, eu não sou ameaça para ninguém e...

- Ah, é? Ah, é? Então, quê que cê tá fazeno aqui, ô velho comédia?

- Papai Comédia - emendou outro dos rapazes, fazendo todos caírem na gargalhada.

- E então, Papai Comédia? Num vai falá não? Hã? Num vai falá?

- Eu só...Papai Noel interrompeu-se, tentando soar o mais natural possível. Embora fosse fluente em todos os idiomas criados pela imaginação humana, algumas expressões idiomáticas (principalmente as que não faziam parte do seu contexto) lhe eram difíceis, e ele tentava lembrar a expressão utilizada por um dos rapazes há pouco - ...subi o morro pra pegar uma coisa que é minha e que um garoto, talvez vocês conheçam, Ródnei, está guardando para mim.

Os rapazes entreolharam-se.

- Que Ródnei? O filho do seu Madruga? -inquiriu o líder.

- Acho que não. Esse aí mora lá embaixo - respondeu um dos companheiros.

- Ah, é...tem aquele lá da dona Zilda...

- Quê isso, Boca?!? Já esqueceu que cê passou o cara?

- Ah, é! Só!

Papai Noel observava, aflito, o Saco subindo cada vez mais, ora desaparecendo atrás de uma daquelas construções rústicas, ora surgindo em outra escada ou rampa, subindo e subindo.

- Aquele Ródnei - apontou Papai Noel, tentando evitar movimentos bruscos.

Os quatros viraram-se de uma vez para o local indicado por Papai Noel, cobrindo a parte superior dos olhos com as mãos, tentando definir quem estava por trás do ponto vermelho que ziguezagueava morro acima.

- Tá veno quem é, Sinistro?

- Tô não, Boca...peraí! Parece o Rodinho.

- O Rodinho do seu Roque?

- É.

- Aê, Papai Comédia, o menino é do nosso conceito. Se tá mecheno com ele, tá mecheno com a gente.

Os quatro começaram a se virar ao mesmo tempo. Papai Noel nunca fora entusiasta dos combates, mas naquela situação não via alternativa a não ser optar pelo caminho da espada. Poucos sabiam, mas ele era versado no P’ong-P’o-Chi, uma variante letal do T’ai Chi, conhecida por apenas onze homens na face da Terra.

Foi tudo muito rápido. Os garotos eram jovens e rápidos. Mas estavam próximos e isso deu a vantagem que o velho guerreiro precisava. O que estava à direita chegou a puxar o gatilho, mas Papai Noel antecipou-se, dando um tapa no cano do seu fuzil e a rajada atingiu o peito daquele que eles chamavam de Sinistro. Ao mesmo tempo, sua bota foi de encontro aos genitais do que aparentava ser o mais jovem, que foi ao chão urrando de dor. Numa fração de segundos, um dos punhos de Papai Noel já deslocara o maxilar do líder, Boca, mas o último deles, aquele que tinha atirado no próprio amigo, recobrou-se do choque e preparava outra saraivada de balas, agora com endereço certo.

Mas o Bom Velhinho foi mais rápido e o meliante não conseguiu se esquivar das mãos dele, que era benevolente o bastante para manter pressionada sua carótida e mais um punhado de vasos sanguíneos apenas o tempo suficiente para que a interrupção do fornecimento de oxigênio ao cérebro comprometesse permanentemente apenas as regiões cerebrais responsáveis pela fala e pela locomoção. Era Natal e não havia motivo para tirar injustamente mais uma vida.

Haveria tempo para lamentar o incidente depois. Afinal de contas, eles também tinham sido crianças. Mas sua atitude enérgica tinha um bom motivo. Sabia o que podia sair do Saco, e já tinha visto armas demais naquele dia.

Ele deu tudo de si, desta vez não se preocupando com o que as pessoas pudessem imaginar. Afinal de contas, quem saberia que ele era O Papai Noel? O ponto vermelho continuava sua escalada frenética, mas Papai Noel estava reduzindo a distância entre eles rapidamente. O garoto devia estar perdendo o fôlego. Papai Noel resolveu não gritar, para não atrair mais problemas. Ele teve a impressão de que o garoto olhara de relance e o vira, mas se isso fosse verdade, certamente ele teria parado e entregaria de bom grado o Saco à Papai Noel. Ródnei agora caminhava e virou num corredor que surgiu repentino. Papai Noel diminuiu a velocidade e entrou no corredor, que terminava numa praça microscópica, construída artesanalmente, com certeza pelos próprios moradores que habitavam os quatro barracos - lembrara-se do nome - que a circundavam, e não acreditou no que viu.

Ródnei puxava mais uma arma do Saco, dessa vez uma submetralhadora israelense de última geração. Papai Noel não se conteve e tomou de uma vez a arma e o Saco do garoto, que encolheu-se num canto, esforçando-se para não demonstrar medo.

- Será que não percebe, garoto? Não vê o mal que essas coisas podem fazer? Não viu o que aconteceu hoje? Não viu o que aconteceu ao mundo?

O garoto, ainda encolhido, olhava para baixo, sem dizer nada.

- E então? Não vai dizer nada? Não vai dizer que está arrependido e que no próximo ano vai ser um bom garoto??

- Por quê? - balbuciou o garoto.

- Como assim por quê? Será que aqui os garotos são diferentes até nisso? Não quer ganhar presentes, não?

- Eu nunca ganhei presente e nunca te vi! Cê não existe!

A afirmação teve o efeito de um tiro. Papai Noel ponderou um pouco.

- Tente entender, garoto. Estamos ampliando nossas operações ano-a-ano. Quando comecei, eu mal podia cobrir a área de uma vila, e veja só, hoje já atendo boa parte do Hemisfério Norte ocidental. O que você acha que eu estava fazendo no espaço aéreo do seu país? - Papai Noel interrompeu o discurso, na esperança de que o menino respondesse sua pergunta, mas diante do silêncio dele, não havia opção senão continuar de onde havia parado.

- Estava analisando novas rotas, percebe? O problema hoje é uma questão puramente logística, sabe o que é isso?. Com meus meios de locomoção atuais, é inviável atender a todas as casas do mundo, mas, ho-ho-ho!, isso vai mudar em breve! - Papai Noel abriu um largo sorriso e deu uma piscadela para o garoto. - Estamos desenvolvendo um novo tipo de propulsão. Fica pronta em, segundo os prognósticos dos duendes, em trinta anos. Não é incrível?

- Papai Noel féladaputa - disse o garoto, baixinho.

O rosto do homem transfigurou-se.

- O quê? O quê você disse? - Papai Noel deu três passos em direção ao menino, e esse assumiu uma posição defensiva, já esperando tomar algum tipo de safanão do Espírito Natalino, que percebeu o temor do garoto e, tentando não complicar mais ainda a situação, virou-se e foi embora, nem mesmo se despedindo, apenas imaginando qual seria a maneira mais discreta para retornar ao Pólo Norte.

Assim que percebeu que Papai Noel não oferecia mais risco, Ródnei parou de tremer e soluçar. Era um garoto esperto, esperto demais para sua idade. Sabia que Papai Noel o encontraria e tomaria o Saco de volta. Correra como um louco na tentativa de ganhar alguma distância para que pudesse tirar o que precisava do Saco. Viu como utilizar e achou que seria fácil, como realmente foi. Mas o velho era muito rápido e o alcançou rapidinho. Ele queria tirar uns presentes para si próprio e para seus amigos, mas não deu tempo e Papai Noel tomou a UZI que Sinistro tanto queria e cuja foto ele vira tantas vezes nas várias revistas especializadas que o pessoal da boca deixava espalhadas por lá. Paciência. Pelo menos o dele ele conseguiu tirar. Tirar e esconder num monte de mato próximo, antes que Papai Noel visse.

Foi até lá e, com dificuldade, puxou o fuzil - igualzinho ao de Sinistro - com o qual ele sempre sonhou. Armou o bipé, destravou a arma e ajustou a mira, exatamente como o amigo agora falecido havia ensinado. Uma vez, durante uma troca de tiros com a polícia, Sinistro deixara o garoto efetuar alguns disparos, afirmando, inclusive, que Rodnei tinha conseguido acertar um verme, mas o garoto era modesto e achava que o amigo disse aquilo apenas para agradá-lo.

De qualquer maneira, se lembrava de como fazer tudo direitinho. E ainda dava pra ver o Papai Noel.

Será que conseguiria acertá-lo dali?

MIDRAXE (2004-2006)

O Midraxe foi um e-zine que editei entre 2004 e 2006. Por editar você pode entender " formatar os textos, azucrinar periodicamente os colaboradores e escrever um editorial engraçadinho".

Os zines eram arquivos .rtf enviados através de uma lista do Yahoo. Não era um formato lá muito brilhante, mas até que era legal.

Foram sete edições, que contaram com textos meus e dos escritores Lúcio Manfredi, Rafael Monteiro, Airton Marinho e A. Moraes. Algumas das edições foram temáticas, como a de Sexo (onde saiu S@TYRI.COM) e a de Natal.

Por razões que não vêm ao caso, o e-zine acabou (e esse blog nasceu).

Desenterrei esse material hoje e tava dando umas risadas. Soltar os zines por aí tá fora de cogitação, mas vou (re)publicar mais dois contos meus daquela época: MIDRAXE, que deu nome ao zine, e A CORNUCÓPIA RUBRA, que saiu no especial de Natal.

E até o fim da semana posto a parte 4 de ADSENSELESS.

Abaixo vai o "editorial" da edição 2. E daqui a pouco, segue A CORNUCÓPIA.

Divirtam-se (ou não...).


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MIDRAXE - Em terra de cego, quem lê Midraxe é Rei. 

EDIÇÃO 2 - NOVEMBRO DE 2004

Tudo certo aí, pessoal?

Os retorno dado pelo público à primeira edição foi melhor do que o esperado. O zine rodou o mundo e alguns escribas ilustres dedicaram singelas linhas à nossa publicação. Vejam só:

Uau! Mal posso esperar pra tirar uma foto com esses garotos!
- Thomas Pynchon

Um primor! Enviei algumas coisas ao Márcio e espero sinceramente poder fazer parte desse empreendimento!
- Alan Moore

Eles têm futuro. Prevejo um número de edições semelhante às minhas tiragens. É só perseverar.
- Paulo Coelho

Caralho! É um verdadeiro cataclisma sináptico metafictício!
- Grant Morrison

Tivesse sido lançado 30 anos antes, eu estaria lendo, com certeza.
- Philip K. Dick (com a ajuda de alguns copos d’água, de um velho rádio valvulado e de um exemplar surrado do The complete idiot’s guide to Instrumental Transcomunication)

Na próxima entrevista que der, citarei os piás como uma das minhas novas referências.
- Dalton Trevisan

Gostei muito e escreverei algo sobre eles. Um romance, imagino. A história vai se passar em Nova York. E algum deles vai desaparecer. Acho que é só, por enquanto.
- Paul Auster

Essa molecada é de matar!
- Stephen King

Nessa edição, Lúcio Manfredi (http://malprg.blogs.com/francoatirador), que - presumo - deve ter chorado de emoção com o diálogo final de Waking Life; A. Moraes (http://artificios.blogspot.com), que - presumo - também deve ter chorado de emoção com o diálogo final de Waking Life e eu (http://urobouro.blogspot.com), que chorei de emoção com o diálogo final de Waking Life.

Esse mês teremos uma edição diet, com menos caracteres (acho. Não contei. Se algum de vocês tiver a pachorra de fazer isso, me informe, per favore), mas com o mesmo valor nutritivo.

Divirtam-se.

Marcio Massula Jr

MISTER BOOKSELLER

Hqzinha de 8 páginas, bem legal, escrita por Darko Macan e desenhada por Tihomir Celanovic.

Dica do Pedro Bouça.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

A ARTE DE PRODUZIR EFEITO SEM CAUSA

Terminei ontem.

Mutarelli consegue, mais uma vez, tirar leite de pedra. Até faltarem umas trinta páginas para o final do livro, eu ainda tinha JESUS KID como meu preferido, mas quando acabou (ou será que começou?) o Efeito, minha opinião mudou.

Fiquei angustiado. Não há outra palavra. Outro livro que me causou efeito semelhante - e que me vem à cabeça agora - foi COMA, de Alex Garland. Mas em COMA o negócio demorou a bater, e a narrativa só fez efeito (estamos hilários hoje, não?) algum tempo depois. Basicamente, são histórias sobre homens presos dentro das suas próprias cabeças.

A parte gráfica do livro também deixa sua marca e tem o seu porquê. O que a princípio parece apenas um adorno também tem sua função entre as letrinhas.

Dizer mais sobre Efeito (com maíuscula, note) é entregar o ouro, mas quem não gosta de Burroughs, bom sujeito não é. Vale a pena, enfim.

sábado, 6 de setembro de 2008

A MORTE DE ANTÔNIA

Ah, a internet e as sincronicidades...

Tava lendo uns feeds na minha conta do Google Reader (que quase não uso. Prefiro o Bloglines). Linka aqui, clica ali, e vou cair no blog do Thiago Dória, que faz uma entrevista com a escritora gaúcha Carol Bensimon, que até então eu desconhecia.

Num determinado momento, ela revela o plot do seu novo romance, SINUCA EMBAIXO D'ÁGUA:

O Sinuca é um romance sobre uma ausência. Antônia morre num acidente de carro, e algumas pessoas tem que aprender a lidar com isso, cada uma a sua maneira. A narração é alternada sobretudo entre três personagens (mas outros surgem no meio também): Bernardo, melhor amigo de Antônia, um tipo de nerd obsessivo-compulsivo que precisa achar alguma lógica no que aconteceu, e que por isso tenta reconstituir a noite do acidente. Camilo, o irmão de Antônia, adorador de Guns n’ Roses, junkie, que monta e desmonta carros, e que nunca trabalhou um dia na vida. E Polaco, o dono do bar entre o Lago e a casa de Antônia e Camilo, que guarda uma história obscura envolvendo a pequena cidade onde nasceu, história que, em função da morte de Antônia, volta a assombrá-lo.

Achei interessante e já anotei o nome. Ajuda o fato de o livro ter um "making-of" (sim, eu me amarro nessas paradas!), mas o que me assombrou, se posso dizer assim, foram os pontos de tangência do plot dela com um argumento que estou escrevendo. A história trata justamente da morte de uma Antônia e da reação de três pessoas a isso.

Até onde entendi, as coincidências terminam por aí. Além do quê, a morte de uma pessoa SEMPRE muda a vida dos que estão próximos a ela. E claro, há ainda a noosfera.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

INCLUSÃO DIGITAL

(Estou na minha linux-vibe sazonal, então não reparem se ficar muito repetitivo, certo?)

O lance é que a minha esposa comprou um computador novo uns tempos atrás. Sempre temos dois desktops em casa. O dela, e o que costumava ser meu, e que agora é do meu filho. De anos em anos a gente compra um novo, que fica com ela, e o dela passa para mim (agora meu filho), e a gente sempre doa o mais antigo.

A bola da vez foi um Pentium 4 com 512 de RAM e sei-lá quanto de HD. Uma configuração que vai atender a maioria das necessidades de qualquer um que use um computador. E quem recebeu o computador foi uma pessoa que trabalha conosco.

Antes disso, tive que, obviamente, formatar a máquina. Pelo pouco que conversamos, tanto ela quanto os filhos não têm muito contato com computadores. E foi aí que me deu o estalo: por que não?

Uma das maiores barreiras em relação ao Linux são justamente os velhos hábitos dos usuários-padrão, que, até por já terem se habituado com o Windows por anos e anos, não se sentem seguros nem motivados a trocar uma ferramenta que já conhecem relativamente bem por uma na qual terão que aprender bastante coisa.

Enfim, instalei o Ubuntu 8.04, fiz as configurações necessárias: instalei o Flash para que eles pudessm ver vídeos na internet, jogar, etc; troquei o OpenOffice default (em inglês) pelo BrOffice, instalei as fontes default da Microsoft e fiz mais alguns ajustes. A única coisa que não funcionou a contento foi o Compiz. Infelizmente não tive tempo para checar isso, mas do jeito que o micro ficou já estava de bom tamanho.

Detalhe: eu não falei absolutamente nada sobre o sistema operacional. Simplesmente entreguei a máquina.

Como praticamente não fiquei em casa desde que fiz isso, não sei se eles gostaram ou se alguém já arrancou o Ubuntu fora. Na verdade, estou bem curioso. Dentro em breve pergunto e descubro.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

QUERIDO PESSOAL DO BLOGGER...

Eu não sou um spammer nem um bot. Será que vou ter que continuar preenchendo esse catso desse captcha toda vez que for postar no meu blog?

(sim, já notifiquei o blogger diversas vezes).

CONVIDADO

Analogia interessante que o usuário "mlvezie" fez na seção de comentários de um post do Lifehacker:

My feelings for Windows now is that, even thought I've used it for years, and certainly know my way around it, when I use it, I feel like I'm a guest in a friend's home, but when I use Linux, I feel like I'm at home.

Faz sentido.

DE VOLTA AO DUAL-BOOT

Pois é. Quase um mês depois de dar início ao meu “Experimento U”, me vi sem saída e acabei tendo que retornar ao bom e velho XP. Ou melhor, ao bom e velho dual-boot.

Como já disse antes, não partilho do mesmo ódio patológico que certos usuários têm por programas pagos. Num caso como esse, costumo ver as coisas de maneira mais pragmática. Há sim um componente ideológico na minha predileção por programas de código aberto, mas ela se deve muito mais à praticidade da coisa toda. Posso instalar, desinstalar e fazer o diabo sem ter que me preocupar com chaves de autorização, validações pela internet e por aí vai. Posso distribuir para amigos e colegas de trabalho. Além disso, o desenvolvimento dos programas é mais rápido. E, normalmente, eles fazem tudo o que eu preciso.

Contudo, a minha área de trabalho exige uma grande quantidade de programas que são concebidos para trabalharem exclusivamente no Windows. Alguns rodaram bem no Wine, outros não. No caso desses que não rodaram, consegui fazer algumas substituições com soluções “de próprio punho”, mas elas não me atenderam a contento.

Então resolvi voltar ao dual-boot. Se vocês leram o post que linkei no primeiro parágrafo, devemter percebido que a intenção não era largar do Windows de vez, mas apenas ter uma idéia de como seria a experiência. Particularmente, eu gostei. Mas, afinal, ainda há meu ganha-pão.

Antes de voltar ao dual-boot, tentei a virtualização, mas o VirtualBox (que tem versão nova sendo lançada hoje, aliás) não funcionou tão redondinho quanto imaginei e não tenho o tempo necessário para vasculhar fóruns e site em busca das resoluções dos meus problemas com ele. Prefiro tentar resolver esse assunto com calma, sem pressão.

Obviamente, não sou tão trouxa para queimar meu filme com um cliente por causa das minhas preferências pessoais, então fiz isso sabendo que:

a) havia um velho desktop no meu local de trabalho atual que poderia me ajudar – e ajudaram - nesses dias.

b) havia amigos com laptops com Windows, que poderiam me ajudar – e ajudaram - nesses dias.

O Ubuntu não se mostrou adequado para algumas atividades do meu trabalho, mas de maneira alguma eu penso em largá-lo, muito pelo contrário, mesmo porque, uma coisa não exclui a outra. Ter o Windows instalado no computador não significa que ele é mais ou menos importante que outros SO's que estejam lá. É simplesmente uma questão de necessidade. Para uma situação específica, eu tenho o SO e as ferramentas específicas, para outra, tenho outros. Ponto.

Então as coisa ficaram assim: XP e Ubuntu para o trabalho, numa proporção de 70/30, e Ubuntu para todo o resto.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

DESKTOP SCREENSHOTS

Sei que é um puta fetiche nerdy, mas me amarro em ver screenshots dos desktops alheios. Sei lá por quê.

E, miraculosamente, encontro uma galeria no Flickr com mais de 1.000 fotos. É nóis!

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

ALQUIMIA REVERSA

De tempos pra cá venho colocando em perspectiva as impressões que tinha sobre coisas que escrevi e pessoas que (des)conheço, e não me surpreendi com o fato delas estarem se tornando piores a cada dia. Mas decepções e desilusões também fazem parte da vida, né não?

terça-feira, 12 de agosto de 2008

MUTARELLI E STEPHENSON

De tempos pra cá prometi a mim mesmo que o fluxo de livros entre Taubaté e Curitiba seria apenas na direção da primeira à última, ou seja, não levaria mais livros da minha casa para o local onde estou.

Mas uma rápida passada numa livraria ontem, fez com que eu mudasse de idéia. Primeiro vi NEVASCA, primeiro livro de Neal Stephenson lançado no Brasil, até onde sei.

Stephenson é "filho" dos cyberpunks originais (Gibson, Sterling, etc.) e pelo pouco que li a respeito de sua obra (da qual Cryptonomicon é a que mais me desperta curiosidade) o livro tem tudo para me agradar.

O outro que vi - trouxe e levarei - foi A ARTE DE PRODUZIR EFEITO SEM CAUSA, de Lourenço Mutarelli. Acho que esse deve ter sido o primeiro fruto do polêmico Amores Expressos. O objeto em si, é muito bonito, lembrando um caderno de anotações, com algumas passagens caligrafadas e o caralho. A narrativa, pelo pouco que se pode deduzir da sinopse, também continua fazendo parte das paisagens que o autor costuma visitar.

UPDATE: segundo essa entrevista, A ARTE DE PRODUZIR EFEITO SEM CAUSA não faz parte do projeto Amores Expressos, como eu imaginava.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

PREPARANDO A MIGRAÇÃO, OU AINDA, O “EXPERIMENTO U”.

Sempre fui entusiasta do Software de Código Aberto (porque sabemos, o termo “Livre” dá muito o que falar), e sempre brinquei o Linux, mas a verdade é que só comecei a considerar a adoção *definitiva* dele como meu sistema operacional principal de uns meses para cá.
A barreira é, evidentemente, o trabalho. Muitos softwares que uso são bastante específicos, não tendo versões open-source ou mesmo compatíveis com outros sistemas operacionais que não o próprio Windows. E antes que algum engraçadinho tenha a idéia: não, eu não vou mudar de profissão.
Numa migração, a primeira coisa a se levar em conta é a real necessidade do computador. Para que ele serve? Quais são os programas realmente necessários?
O primeiro passo que dei foi avaliar outras distros que poderiam atender aos meus objetivos. Passei semanas baixando live-cds e testando várias delas, desde as mais famosas, até as mais obscuras. Mas já uso o Ubuntu há um bom tempo, e sempre tive uma queda por ele. Acabei achando melhor não mexer em time que está ganhando. A título de curiosidade, também uso o Slax num pen-drive/canivete-suíço de 8Gb que azeitei com outros aplicativos. Mais sobre isso depois.
No meu caso, mesmo utilizando o Windows, costumo, sempre que possível, dar preferência a softwares livres. Então meu pacote de escritório é o OpenOffice (na verdade, o Go-OO, uma versão com algumas - poucas - melhorias), meu browser é o Firefox, meu editor de textos é o Notepad++ e assim por diante. A grande maioria dos programas tem versões funcionais para o Ubuntu. E alguns, como o Notepad++, que são exclusivos para Windows, rodam facilmente via Wine.
Os programas de uso “normal” são seriam problema. Também conheço um bom número de programas específicos que têm seus equivalentes no Linux. De qualquer maneira, preparei uma lista para confrontar os programas que uso no Janelas e os que eu vou usar no Ubuntu.
Contudo, isso ainda não resolveria meu problema, que é o de poder continuar utilizando os programas de trabalho, e que costumam mudar de projeto para projeto.
Notem que estou evitando a todo custo o dual-boot (que já uso, a propósito), por ser contraproducente na hora do trabalho. Se eu tiver que ficar reiniciando o micro 20 vezes por dia, deixo as coisas como estão.
Mais uma vez, recorri ao Wine. Obtive bons resultados com alguns programas, resultados medianos com outros e há um terceiro grupo que simplesmente não funcionou. Nesse caso, a opção seria apelar para a virtualização. Particularmente, gosto da VirtualBox, que também já utilizei no Windows. Mas o problema de máquinas virtuais é que, a menos que haja uma boa quantidade de memória RAM (2Gb ou mais, que não é o meu caso.) o desempenho - tanto do sistema hospedeiro como do sistema virtualizado - costuma despencar. E voltamos ao ponto exposto na última frase do parágrafo anterior. Se eu tiver que continuar usando o Windows, deixo as coisas como estão.
Então resolvi fazer um experimento. Semana que vem formato meu laptop, e vou tentar ficar 20 dias sem o Windows, aconteça o que acontecer. Tenho plena ciência de que as coisas vão se complicar vez ou outra. Mas a verdadeira questão é: vão se complicar quanto?
E, na pior das hipóteses, há um plano de contingência, que envolve aquele pen-drive sobre o qual falei lá em cima.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

ADSENSELESS - PARTE 3, E NOVA HQ PUBLICADA.

Duas coisas:

1) ADSENSELESS - Parte 3, está disponível para leitura lá no TXT.

2) Uma hq escrita por mim foi exumada e será publicada na edição 48 da revista pernambucana Prismarte. Mais detalhes aqui.

ADSENSELESS - Parte 3

Márcio Massula Jr.

O naco dentro da boca de Chico tem calorias suficientes para sustentar uma criança por uma semana. Mesmo assim, a maçaroca de pão, carne sintética, legumes transgênicos e condimentos desaparece garganta abaixo antes que suas papilas gustativas tenham notícia do sabor daquilo tudo. Ao que parece, para Chico mastigar a comida é apenas uma formalidade, que ele não faz muita questão de cumprir.

Apesar de já se terem passado alguns dias, Macanudo ainda chama atenção. Vez ou outra algum dos clientes da lanchonete pára e pergunta: “Ei, você não é aquele cara da Googolplex?”. Nas primeiras vezes, ele respondia com convicção, fazia valer o treinamento, mas esse não era um momento. Tratava de um assunto importante, e quando uma menina pediu para tirar uma foto ao seu lado, o máximo que consegui produzir foi um esgar com o cantos dos lábios. Um arremedo de sorriso. Ele está preocupado.

- Chico, ela disse que não quer falar comigo!

Chico ainda está concentrado em sua comida. Ele vasculha o interior do sanduíche com a ponta do dedo indicador, como se procurasse encontrar algo que não deveria estar lá.

- Cara, ela abriu uma comunidade no TRUKO, sabia? “Eu odeio a Googolplex!”. E eu, como fico nessa, cara?

O indicador de Chico continua a prospectar o sanduíche.

- Maca, não acredito que você fez isso. Sério mesmo. Seu pai era um lóki, sua avô também, e, cá pra nós, sempre te achei meio esquisitinho. Mas gosto de você assim mesmo, cê sabe, né? Eu até me empolguei quando um carinha lá da Plex comentou sobre o programa comigo, mas nunca ia imaginar que meu melhor amigo ia se meter nessa. Não mesmo.

Chico tira uma fatia de picles e coloca sobre a mesa. Em seguida abocanha mais uma parte do sanduíche.

- Ué! Mas, de todo mundo, você é o que mais deveria estar feliz com o que eu fiz!

- Maca, eu sou um Tecnólogo, não um tecnófilo pervertido como você. E feliz não é exatamente a palavra. Curioso, talvez. Mas uma coisa é o fato de eu gostar de tecnologia. Outra é o fato de gostar de você estar servindo de cobaia pra testar tecnologia, percebe?

- Ok. Mas isso ainda não resolve meu problema. Eu fiz isso para me casar com ela. E ela nem quer me ver!

- Bom, talvez as coisas estivessem melhores se você tivesse avisado que ia implantar um dispositivo de publicidade semântica na testa ao invés de ter dito que ia pescar. E comigo!

- Foi mal, cara. Mas eu tinha que fazer isso. Se dissesse que ia participar do programa, ela ia protestar, com certeza.

- E você achou que aparecer com a testa cintilando preços de panelas e cursos de pós-graduação ia mudar a opinião dela, né?

- Achei que ela fosse entender...

- Não entendeu.

- Pois é...

- Isso aí é por tempo limitado, né?

- É.

- Quanto?

- Não posso comentar. Está no contrato.

- Presumo que seja muito tempo, então...

- Em virtude das circunstâncias, acho que agora é. Temos que resolver isso, Chico?

- Você e a Ândrêa, né?

- Não, cara! Eu e você!

- Fala baixo, viado! Tá querendo me comprometer? E que história é essa de eu e você?

- Ué? Você não vai me ajudar a resolver essa parada?

- Eu?

- Pô, Chico! Você é meu melhor amigo. Pra quem eu posso pedir ajuda?

- Pro seu bom-senso, talvez?

- Tá bom. Pode pisar em cima. Mas pense aí num jeito de me dar uma força, vai.
Uma jovem com feições asiáticas, na casa dos vinte e poucos, senta-se ao lado de Macanudo, sem ao menos ter a preocupação de se apresentar. Ela tem os cabelos pintados num tom de vermelho que é uma declaração de guerra à visão de qualquer pessoa dentro do recinto. Suas roupas são volumosas, e de cores tão berrantes quanto a do cabelo. Ela parece saída de algum anime. Macanudo fica surpreso, enquanto Chico tenta divisar alguma das curvas do seu corpo, bem escondidas sobre toda aquela quantidade de tecido.

Do outro lado do restaurante, outra moça, com roupas igualmente exóticas, bate uma sequência de fotos com um smartphone, enquanto a menina dos cabelos vermelhos estica o indicador e o dedo-médio em V. Antes que Macanudo possa formular algum protesto, ela agradece, se levanta, cruza o restaurante, pega o celular que estava na mão de uma amiga, confere as fotos, dá umas risadinhas, pressiona algumas teclas e ambas saem pela porta.

Chico começa a rir.

- Se acostume, cara. Agora você é uma celebridade.

- Pior é que não vou receber nenhum centavo por essa publicidade.

As risadas de Chico se transformam em gargalhadas.

- Maca, só você mesmo pra pensar numa coisa dessas. Cê é um figura mesmo.

- Não sei porque, mas algo me diz que cometi uma burrada ao entrar nessa.

- Só agora você percebeu?

- Valeu mesmo, Chico.

Chico ameaça fazer mais um comentário espirituoso, mas detém a fala. Ele olha fixamente para Macanudo, que estranha a fixação súbita do amigo.

- Maca, essa parada tá gravando a nossa conversa?

- Sim.

- E tá filmando meu rosto?

- Também.

- Ou seja, como se eles já não tivessem bastante informação, a Plex está coletando mais dados a meu respeito. E sem a minha permissão.

Macanudo assume um ar grave.

- Não! Nada disso! Esses dados são coletados apenas para filtrar os anúncios. Eles nunca vão usar isso. Os dados são apagados após 30 segundos após o fim da conversa. Está no manual.

Chico se aproxima mais. Chama Macanudo com o indicador. Olha para os lados e certifica-se que ninguém está prestando atenção.

- Isso é o que eles querem que você pense - diz, num sussurro.

- Sério mesmo?

Chico dá um tapa de leve no queixo de Macanudo, que não esperava por essa reação do amigo e reage 
de maneira desproporcional, atirando-se para trás e derrubando seu copo de refrigerante.

- Claro que não, seu mané! Tava parafraseando um filme das antigas que gosto muito. Cê não sabe o quanto eu esperei pra poder dizer isso.

- Olha a bagunça que você fez.

- Que você fez, Maca. Mas, peraí...

Chico levanta-se e segura a cabeça do amigo com as duas mãos. Seu olhar é severo. Não parece estar brincando agora. Analisa a tarja por alguns segundos. Resolve falar, por fim.

- Caralho, olhas os preços disso!

sexta-feira, 4 de julho de 2008

sábado, 28 de junho de 2008

AJUDE A SUSTENTAR A WIKIPEDIA

Ajude a sustentar a Wikipédia e outros projetos, sem colocar a mão no bolso, e concorra a um Eee PC!

…e também a pen drives, card drives, camisetas geeks, livros e mais! O BR-Linux e o Efetividade lançaram uma campanha para ajudar a Wikimedia Foundation e outros mantenedores de projetos que usamos no dia-a-dia on-line. Se você puder doar diretamente, ou contribuir de outra forma, são sempre melhores opções. Mas se não puder, veja as regras da promoção e participe - quanto mais divulgação, maior será a doação do BR-Linux e do Efetividade, e você ainda concorre a diversos brindes!

(Achei a campanha um barato. Esse lance das contribuições aos projetos de software livre é um assunto que sempre me interessou e que vai render, qualquer dia destes um post. Obviamente, também estou de olho numa dos brindes oferecidos)

quarta-feira, 18 de junho de 2008