segunda-feira, 22 de setembro de 2008

A CORNUCÓPIA RUBRA

Marcio Massula Jr.

Como perdigueiros treinados, os pezinhos descalços procuravam por algum vestígio de sombra no asfalto escaldante. A quarta-feira certamente tinha algo contra os demais dias da semana para estar assim tão ensolarada. Nem parecia que as ruas vinham sendo bombardeadas pelas ninbostratos nos últimos seis dias.

O mais velho seguia na frente, servindo de guia e protetor para as irmãs, que não faziam muita questão de saber onde estavam indo, embora estivessem indo para casa. Apenas iam - confiando cegamente no irmão - distraindo-se aqui e ali com bancos, objetos encontrados no chão, pombas, cachorros e qualquer coisa que suas cabecinhas insistissem em classificar como interessante. Isso, evidente, irritava o irmão, que tinha que intervir verbal e, quando necessário, fisicamente, para que as pequenas não ficassem para trás. E foi num desses rompantes, numa bonita mas mal conservada praça pública, percebendo mais uma vez que não estava sendo acompanhado pelas meninas, que viu o homem pela primeira vez. As meninas caminhavam devagar, em direção ao homem que estava sentado no meio-fio, a cabeça envolvida pelas mãos.

- Onde cês vão? - disse o mais velho, quase sussurrando no ouvido das duas.

- Vamo falá com o Papai Noel! - respondeu a do meio, no mesmo tom de voz, com os olhinhos brilhando.

 - Já falei que Papai Noel é mentira! - retrucou o irmão, meio irritado.

 - Não é não! - interveio a mais nova.

 - Vamo embora as duas! Eu tô mandano! Num tá veno que ele é doido? Olha! Tá até chorano!

- Eu vou falá com o Papai Noel e ponto!  - saiu esbaforida a menor, caminhando a passos pesados e com os bracinhos rijos, o que não deixou de arrancar risinhos da do meio.

O mais velho correu atrás, mas já era tarde para intervir. A mais nova já estava em frente ao homem, a mãozinha estendida, como já tinha sido estendida milhares de vezes.

- Dá um real aí, tio!

O homem parou de soluçar e levantou a cabeça na direção da mais nova, observando aqueles olhinhos como se fossem jóias muito valiosas.

 - Desculpe criança. Não entendi.

- Um real pra eu comprá comida - a mãozinha ainda lá.

O homem enxugava rapidamente as lágrimas, se dando conta só naquele momento de que aquilo poderia ser potencialmente constrangedor para alguém na sua posição. Suas bochechas eram vermelhas, um vermelho vivo, intenso, irreal, como que para combinar com o resto da sua indumentária.

- Então acho que seria melhor eu lhe dar um prato de comida, não?

- Não. Dá um real.

Papai Noel balançou a cabeça, decepcionado. Então notou que a menina não estava desacompanhada.

- Como se chama, meu doce?

- Jéssica - ainda com a mãozinha estendida.

- E quem são aqueles ali? Estão com você? - Papai Noel apontava para os irmãos de Jéssica.

- É meu irmão e minha irmã.

- E quantos anos você tem? Não! Espere! Vou adivinhar...você tem três,  talvez quatro anos (tenho muita experiência nisso), estou certo?

A menina lutou bravamente para que seus dedos indicassem que ela tinha cinco.

- Nossa, tão pequenininha!?! O que dão pra você comer?

- Nada.

- Nada?

- Nada. A mãe num dá nada.

Papai Noel refletiu por instantes. Depois disse, mais para si mesmo:

- O Saco sabe... - e de dentro do seu saco vermelho, sacou um sanduíche impressionante, magnânimo, daqueles vistos apenas em comerciais de cadeias de fast-food, e ofereceu-o à menina, que parecia não ter assimilado a idéia.

- Tome querida! É pra você!

- Pra mim?

- É.

Ela não se fez de rogada ao atacar o sanduíche à dentadas, e aquilo ajudou a dissipar um pouco a imagem recorrente na cabeça de Papai Noel, sobre o acontecido na noite passada Como um homem que costumava se divertir despistando esquadrilhas inteiras de MIGs sobre o estreito de Vladvostok pôde ter se deixado localizar pelo SIVAM (pelo SIVAM!) e, pior ainda, ter sido abatido por um Tucano?

- Quê isso? Tucano? - o rostinho da menina agora fora tomado por uma máscara de condimentos.

- Hã! Nada, querida, nada. Eu devia estar pensando alto. Oh, Rudolph...pobre Rudolph...ainda posso sentir o cheiro dos seus pêlos queimando...

- Dá um real, tio? - ela não desistiria facilmente.

- Chame seus irmãos aqui - Papai Noel apoiava a cabeça numa das mãos enquanto abanava a outra, dando por encerrado o assunto do real.

As crianças aproximaram-se. A do meio empolgada, percebendo que poderia ganhar um presente, como a mais nova. O mais velho desconfiado. Já tinham lhe falado sobre pessoas assim antes e, embora não fosse mais criança, ainda estavam gravadas a fogo em sua memória as diversas versões que ouvira da história do Homem do Saco.

A cor retornara às faces do Papai Noel, e a presença de mais crianças pareceu alegrá-lo.

- Ho-ho-ho! Como se chama, minha jovem?

- Daisy

- E você, meu caro?

O garoto respondeu com a careta mais ameaçadora que conseguiu imaginar.

- Vamos lá, garoto! Eu sou amigo! Vamos, me diga o seu nome!

- É Ródnei - respondeu a mais nova, conseguindo recapturar um pedaço de hambúrguer que ousara tentar a fuga de sua boquinha. Aquilo despertou a fúria de Ródnei, e ele partiu para cima da pequena, que resolveu não esperar para descobrir a reação do irmão e, entre uma mastigada e outra, correu o mais rápido que pôde até alcançar uma distância que considerou segura.

- Ei! Esperem vocês dois! Não precisam brigar por causa disso. Eu só queria saber os nomes de vocês por saber. Venham cá todos - Papai Noel pegou o Saco, deixou-o aberto e enfiou uma das mãos lá dentro.

- Venha cá Daisy. Normalmente eu tomaria essa decisão, mas bati a cabeça, sabe? Pensar está difícil, então vou deixar por conta do Saco. Ele sempre foi melhor do que eu. O Saco sabe... - então surgiu uma caixa colorida, algo quase mágico, como se ela não estivesse lá antes. A menina mal pôde se conter.

- É pra mim?

- Oh, sim! Ho-ho-ho! Claro que esta...”Academia e Centro de Estética da Boneca Babi” é pra você. Veja só! “Com seu próprio cirurgião plástico”!

Mesmo Ródnei não conseguiu evitar uma risadinha assistindo a luta de Daysi para localizar seu centro de gravidade agora que tentava caminhar segurando uma caixa quase do seu tamanho.

- Agora é sua vez, meu jovem. Vamos ver o que o Saco lhe reserva...

Papai Noel conquistou a confiança do garoto, ou uma parte dela. O suficiente para que ele se aproximasse, curioso em saber o que o Saco lhe reservava. Então Papai Noel sacou o conteúdo do Saco e estendeu-lhe ao menino, que deu um salto para trás, certamente assustado.

- Hã? - Papai Noel olhou para sua mão e viu que empunhava e apontava para Ródnei uma pistola moderníssima, pela aparência, fabricada no leste europeu.

- Ah! Agora entendi...não aprovo muito esse tipo de brinquedo, mas se foi isso que o Saco viu, é isso que você quer. Céus, como estão fazendo réplicas perfeitas ultimamente... - Papai Noel aproximou a pistola do rosto para examiná-la melhor, em seguida imitando, à sua maneira, os caubóis americanos, soprando o cano da pistola sucessivas vezes, tentando arrancar um sorriso do garoto e fazê-lo esquecer do susto que tivera há pouco.

- Muito boa mesmo. O que dispara? Água? Bolinhas? - Papai Noel apertou o gatilho e sua pergunta foi respondida com uma rajada de catorze projéteis de chumbo, que desapareceram no céu.

As crianças se jogaram no chão e o próprio Papai Noel caiu, mais pelo susto do que pelo tranco da arma. Ele olhava estarrecido o cano fumegante da pistola, sem entender o que tinha se passado. O Saco também estaria sofrendo os efeitos da queda? Ou, pior ainda, será que o menino realmente queria a arma? Papai Noel arremessou o objeto longe, com nojo, e o gesto reconquistou a confiança das crianças, que dispararam a rir.

- Papai Noel caiu de bunda no chão! - caçoava Daisy

- É de verdade mesmo? - Ródnei estava fascinado, quase em transe, olhando em direção ao lugar onde a arma fora lançada. Então Papai Noel se deu conta. Eles não estavam sozinhos na rua e muitas pessoas ainda corriam, assustadas. Mesmo sob o efeito do impacto, não foi difícil Papai Noel ligar os pontos e presumir o que aconteceria em seguida, mas, para sua surpresa, a polícia chegou muito antes do esperado.

- Mão na cabeça, vagabundo! - era uma viatura da PM, que teria uma chegada digna dos melhores filmes de ação hollywoodianos, não fosse pelo descuido do motorista, que freou bruscamente, fazendo o veículo derrapar e colidir com outros carros parados na rua, dando o tempo necessário para que Papai Noel e as crianças fugissem, sob o disparo de armas de grosso calibre.

Apesar da compleição robusta e da idade muito, muito avançada, décadas e décadas invadindo as residências alheias espremido em chaminés microscópicas, suportando o frio glacial da Lapônia ou o atrito causado por suas viagens hipersônicas deram a Papai Noel o preparo físico de um super-herói. Ele ultrapassou facilmente as crianças e só parou de correr quando se deu conta de que havia abandonado o Saco.

Aquilo nunca tinha acontecido antes, e Papai Noel tremia só de pensar no que poderia ocorrer se o poder do Saco caísse em mãos erradas. Tivera um pequeno vislumbre ao ceder às vontades de um garoto confuso. E o mundo estava repleto de pessoas mal-intencionadas. Ele tinha que reaver o Saco, mesmo que tivesse que enfrentar as autoridades. Se tivesse problemas, o Saco o tiraria deles.

Fez o caminho inverso a passos largos. Não queria chamar (mais) a atenção das pessoas, que agora já deviam estar precavidas contra o Papai Noel Pistoleiro. Então, cruzando uma travessa da avenida na qual se encontrava, viu. Estava nas mãos de Ródnei, que corria sem se importar com as súplicas das irmãs para que as esperasse. Subiu a escadaria que dava acesso ao morro onde eles moravam como um raio, e Papai Noel ficou tranquilo em saber que o Saco estava com alguém conhecido. E nas crianças se podia confiar.

Papai Noel correu atrás deles, acenando.

- Crianças! Crianças! Esperem! Sou eu...

As meninas olharam para trás e pararam, petrificadas. Jéssica começou a chorar. Papai Noel parou para confortá-la, e segurava delicadamente os bracinhos da menina.

- Ho-ho-ho! Não chore, princesa. Vê? Está tudo bem. Ninguém se machucou e tudo não passou de um acidente. Agora, se me dão licença, tenho que pegar o Saco com o irmão de vocês. Acho que ele não me ouviu...continua correndo...se eu não me apressar, vou perdê-lo e tenho muitos compromissos atrasados. Até, meninas!

Papai Noel disparou atrás de Ródnei, tentando não perdê-lo de vista, sempre acenando e gritando seu nome. Mas o garoto parecia não ouvir - teriam os disparos afetado sua audição? - e corria cada vez mais, certamente evitando ter que dar explicações à polícia, pensava Papai Noel.

O problema que o Bom Velhinho enfrentava agora era a geografia labiríntica do local, uma sucessão de becos, muros, ruelas sem-saída e escadarias que não davam em lugar nenhum, e ele apenas não perdeu o garoto de vista por conseguir compensar sua desorientação com uma velocidade superior.
Ele serpenteava pelos corredores estreitos, vez por outra recebendo o olhar atônito dos moradores, que retribuía com um largo sorriso, até que, em uma das muitas áreas abertas pelas quais passou, foi barrado por um homem. Ele estava armado. Papai Noel deu alguns passos para trás, e percebeu que o homem estava acompanhado por outros, também armados. E não eram autoridades. Ou eram?

- Olha só que comédia. Tá doido, velho? Comé que cê sobe o morro assim, sem pedí pra ninguém?

Eram quatro. O mais velho devia ter pouco mais de vinte, e todos apontavam suas armas para ele. Sempre que podia, Papai Noel evitava o conflito direto, e, no caso, achou que dialogar seria a melhor solução. Levantou as mãos, em sinal claro de rendição.

- Ho-ho-ho! Vejam rapazes, eu não sou ameaça para ninguém e...

- Ah, é? Ah, é? Então, quê que cê tá fazeno aqui, ô velho comédia?

- Papai Comédia - emendou outro dos rapazes, fazendo todos caírem na gargalhada.

- E então, Papai Comédia? Num vai falá não? Hã? Num vai falá?

- Eu só...Papai Noel interrompeu-se, tentando soar o mais natural possível. Embora fosse fluente em todos os idiomas criados pela imaginação humana, algumas expressões idiomáticas (principalmente as que não faziam parte do seu contexto) lhe eram difíceis, e ele tentava lembrar a expressão utilizada por um dos rapazes há pouco - ...subi o morro pra pegar uma coisa que é minha e que um garoto, talvez vocês conheçam, Ródnei, está guardando para mim.

Os rapazes entreolharam-se.

- Que Ródnei? O filho do seu Madruga? -inquiriu o líder.

- Acho que não. Esse aí mora lá embaixo - respondeu um dos companheiros.

- Ah, é...tem aquele lá da dona Zilda...

- Quê isso, Boca?!? Já esqueceu que cê passou o cara?

- Ah, é! Só!

Papai Noel observava, aflito, o Saco subindo cada vez mais, ora desaparecendo atrás de uma daquelas construções rústicas, ora surgindo em outra escada ou rampa, subindo e subindo.

- Aquele Ródnei - apontou Papai Noel, tentando evitar movimentos bruscos.

Os quatros viraram-se de uma vez para o local indicado por Papai Noel, cobrindo a parte superior dos olhos com as mãos, tentando definir quem estava por trás do ponto vermelho que ziguezagueava morro acima.

- Tá veno quem é, Sinistro?

- Tô não, Boca...peraí! Parece o Rodinho.

- O Rodinho do seu Roque?

- É.

- Aê, Papai Comédia, o menino é do nosso conceito. Se tá mecheno com ele, tá mecheno com a gente.

Os quatro começaram a se virar ao mesmo tempo. Papai Noel nunca fora entusiasta dos combates, mas naquela situação não via alternativa a não ser optar pelo caminho da espada. Poucos sabiam, mas ele era versado no P’ong-P’o-Chi, uma variante letal do T’ai Chi, conhecida por apenas onze homens na face da Terra.

Foi tudo muito rápido. Os garotos eram jovens e rápidos. Mas estavam próximos e isso deu a vantagem que o velho guerreiro precisava. O que estava à direita chegou a puxar o gatilho, mas Papai Noel antecipou-se, dando um tapa no cano do seu fuzil e a rajada atingiu o peito daquele que eles chamavam de Sinistro. Ao mesmo tempo, sua bota foi de encontro aos genitais do que aparentava ser o mais jovem, que foi ao chão urrando de dor. Numa fração de segundos, um dos punhos de Papai Noel já deslocara o maxilar do líder, Boca, mas o último deles, aquele que tinha atirado no próprio amigo, recobrou-se do choque e preparava outra saraivada de balas, agora com endereço certo.

Mas o Bom Velhinho foi mais rápido e o meliante não conseguiu se esquivar das mãos dele, que era benevolente o bastante para manter pressionada sua carótida e mais um punhado de vasos sanguíneos apenas o tempo suficiente para que a interrupção do fornecimento de oxigênio ao cérebro comprometesse permanentemente apenas as regiões cerebrais responsáveis pela fala e pela locomoção. Era Natal e não havia motivo para tirar injustamente mais uma vida.

Haveria tempo para lamentar o incidente depois. Afinal de contas, eles também tinham sido crianças. Mas sua atitude enérgica tinha um bom motivo. Sabia o que podia sair do Saco, e já tinha visto armas demais naquele dia.

Ele deu tudo de si, desta vez não se preocupando com o que as pessoas pudessem imaginar. Afinal de contas, quem saberia que ele era O Papai Noel? O ponto vermelho continuava sua escalada frenética, mas Papai Noel estava reduzindo a distância entre eles rapidamente. O garoto devia estar perdendo o fôlego. Papai Noel resolveu não gritar, para não atrair mais problemas. Ele teve a impressão de que o garoto olhara de relance e o vira, mas se isso fosse verdade, certamente ele teria parado e entregaria de bom grado o Saco à Papai Noel. Ródnei agora caminhava e virou num corredor que surgiu repentino. Papai Noel diminuiu a velocidade e entrou no corredor, que terminava numa praça microscópica, construída artesanalmente, com certeza pelos próprios moradores que habitavam os quatro barracos - lembrara-se do nome - que a circundavam, e não acreditou no que viu.

Ródnei puxava mais uma arma do Saco, dessa vez uma submetralhadora israelense de última geração. Papai Noel não se conteve e tomou de uma vez a arma e o Saco do garoto, que encolheu-se num canto, esforçando-se para não demonstrar medo.

- Será que não percebe, garoto? Não vê o mal que essas coisas podem fazer? Não viu o que aconteceu hoje? Não viu o que aconteceu ao mundo?

O garoto, ainda encolhido, olhava para baixo, sem dizer nada.

- E então? Não vai dizer nada? Não vai dizer que está arrependido e que no próximo ano vai ser um bom garoto??

- Por quê? - balbuciou o garoto.

- Como assim por quê? Será que aqui os garotos são diferentes até nisso? Não quer ganhar presentes, não?

- Eu nunca ganhei presente e nunca te vi! Cê não existe!

A afirmação teve o efeito de um tiro. Papai Noel ponderou um pouco.

- Tente entender, garoto. Estamos ampliando nossas operações ano-a-ano. Quando comecei, eu mal podia cobrir a área de uma vila, e veja só, hoje já atendo boa parte do Hemisfério Norte ocidental. O que você acha que eu estava fazendo no espaço aéreo do seu país? - Papai Noel interrompeu o discurso, na esperança de que o menino respondesse sua pergunta, mas diante do silêncio dele, não havia opção senão continuar de onde havia parado.

- Estava analisando novas rotas, percebe? O problema hoje é uma questão puramente logística, sabe o que é isso?. Com meus meios de locomoção atuais, é inviável atender a todas as casas do mundo, mas, ho-ho-ho!, isso vai mudar em breve! - Papai Noel abriu um largo sorriso e deu uma piscadela para o garoto. - Estamos desenvolvendo um novo tipo de propulsão. Fica pronta em, segundo os prognósticos dos duendes, em trinta anos. Não é incrível?

- Papai Noel féladaputa - disse o garoto, baixinho.

O rosto do homem transfigurou-se.

- O quê? O quê você disse? - Papai Noel deu três passos em direção ao menino, e esse assumiu uma posição defensiva, já esperando tomar algum tipo de safanão do Espírito Natalino, que percebeu o temor do garoto e, tentando não complicar mais ainda a situação, virou-se e foi embora, nem mesmo se despedindo, apenas imaginando qual seria a maneira mais discreta para retornar ao Pólo Norte.

Assim que percebeu que Papai Noel não oferecia mais risco, Ródnei parou de tremer e soluçar. Era um garoto esperto, esperto demais para sua idade. Sabia que Papai Noel o encontraria e tomaria o Saco de volta. Correra como um louco na tentativa de ganhar alguma distância para que pudesse tirar o que precisava do Saco. Viu como utilizar e achou que seria fácil, como realmente foi. Mas o velho era muito rápido e o alcançou rapidinho. Ele queria tirar uns presentes para si próprio e para seus amigos, mas não deu tempo e Papai Noel tomou a UZI que Sinistro tanto queria e cuja foto ele vira tantas vezes nas várias revistas especializadas que o pessoal da boca deixava espalhadas por lá. Paciência. Pelo menos o dele ele conseguiu tirar. Tirar e esconder num monte de mato próximo, antes que Papai Noel visse.

Foi até lá e, com dificuldade, puxou o fuzil - igualzinho ao de Sinistro - com o qual ele sempre sonhou. Armou o bipé, destravou a arma e ajustou a mira, exatamente como o amigo agora falecido havia ensinado. Uma vez, durante uma troca de tiros com a polícia, Sinistro deixara o garoto efetuar alguns disparos, afirmando, inclusive, que Rodnei tinha conseguido acertar um verme, mas o garoto era modesto e achava que o amigo disse aquilo apenas para agradá-lo.

De qualquer maneira, se lembrava de como fazer tudo direitinho. E ainda dava pra ver o Papai Noel.

Será que conseguiria acertá-lo dali?

MIDRAXE (2004-2006)

O Midraxe foi um e-zine que editei entre 2004 e 2006. Por editar você pode entender " formatar os textos, azucrinar periodicamente os colaboradores e escrever um editorial engraçadinho".

Os zines eram arquivos .rtf enviados através de uma lista do Yahoo. Não era um formato lá muito brilhante, mas até que era legal.

Foram sete edições, que contaram com textos meus e dos escritores Lúcio Manfredi, Rafael Monteiro, Airton Marinho e A. Moraes. Algumas das edições foram temáticas, como a de Sexo (onde saiu S@TYRI.COM) e a de Natal.

Por razões que não vêm ao caso, o e-zine acabou (e esse blog nasceu).

Desenterrei esse material hoje e tava dando umas risadas. Soltar os zines por aí tá fora de cogitação, mas vou (re)publicar mais dois contos meus daquela época: MIDRAXE, que deu nome ao zine, e A CORNUCÓPIA RUBRA, que saiu no especial de Natal.

E até o fim da semana posto a parte 4 de ADSENSELESS.

Abaixo vai o "editorial" da edição 2. E daqui a pouco, segue A CORNUCÓPIA.

Divirtam-se (ou não...).


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MIDRAXE - Em terra de cego, quem lê Midraxe é Rei. 

EDIÇÃO 2 - NOVEMBRO DE 2004

Tudo certo aí, pessoal?

Os retorno dado pelo público à primeira edição foi melhor do que o esperado. O zine rodou o mundo e alguns escribas ilustres dedicaram singelas linhas à nossa publicação. Vejam só:

Uau! Mal posso esperar pra tirar uma foto com esses garotos!
- Thomas Pynchon

Um primor! Enviei algumas coisas ao Márcio e espero sinceramente poder fazer parte desse empreendimento!
- Alan Moore

Eles têm futuro. Prevejo um número de edições semelhante às minhas tiragens. É só perseverar.
- Paulo Coelho

Caralho! É um verdadeiro cataclisma sináptico metafictício!
- Grant Morrison

Tivesse sido lançado 30 anos antes, eu estaria lendo, com certeza.
- Philip K. Dick (com a ajuda de alguns copos d’água, de um velho rádio valvulado e de um exemplar surrado do The complete idiot’s guide to Instrumental Transcomunication)

Na próxima entrevista que der, citarei os piás como uma das minhas novas referências.
- Dalton Trevisan

Gostei muito e escreverei algo sobre eles. Um romance, imagino. A história vai se passar em Nova York. E algum deles vai desaparecer. Acho que é só, por enquanto.
- Paul Auster

Essa molecada é de matar!
- Stephen King

Nessa edição, Lúcio Manfredi (http://malprg.blogs.com/francoatirador), que - presumo - deve ter chorado de emoção com o diálogo final de Waking Life; A. Moraes (http://artificios.blogspot.com), que - presumo - também deve ter chorado de emoção com o diálogo final de Waking Life e eu (http://urobouro.blogspot.com), que chorei de emoção com o diálogo final de Waking Life.

Esse mês teremos uma edição diet, com menos caracteres (acho. Não contei. Se algum de vocês tiver a pachorra de fazer isso, me informe, per favore), mas com o mesmo valor nutritivo.

Divirtam-se.

Marcio Massula Jr

MISTER BOOKSELLER

Hqzinha de 8 páginas, bem legal, escrita por Darko Macan e desenhada por Tihomir Celanovic.

Dica do Pedro Bouça.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

A ARTE DE PRODUZIR EFEITO SEM CAUSA

Terminei ontem.

Mutarelli consegue, mais uma vez, tirar leite de pedra. Até faltarem umas trinta páginas para o final do livro, eu ainda tinha JESUS KID como meu preferido, mas quando acabou (ou será que começou?) o Efeito, minha opinião mudou.

Fiquei angustiado. Não há outra palavra. Outro livro que me causou efeito semelhante - e que me vem à cabeça agora - foi COMA, de Alex Garland. Mas em COMA o negócio demorou a bater, e a narrativa só fez efeito (estamos hilários hoje, não?) algum tempo depois. Basicamente, são histórias sobre homens presos dentro das suas próprias cabeças.

A parte gráfica do livro também deixa sua marca e tem o seu porquê. O que a princípio parece apenas um adorno também tem sua função entre as letrinhas.

Dizer mais sobre Efeito (com maíuscula, note) é entregar o ouro, mas quem não gosta de Burroughs, bom sujeito não é. Vale a pena, enfim.

sábado, 6 de setembro de 2008

A MORTE DE ANTÔNIA

Ah, a internet e as sincronicidades...

Tava lendo uns feeds na minha conta do Google Reader (que quase não uso. Prefiro o Bloglines). Linka aqui, clica ali, e vou cair no blog do Thiago Dória, que faz uma entrevista com a escritora gaúcha Carol Bensimon, que até então eu desconhecia.

Num determinado momento, ela revela o plot do seu novo romance, SINUCA EMBAIXO D'ÁGUA:

O Sinuca é um romance sobre uma ausência. Antônia morre num acidente de carro, e algumas pessoas tem que aprender a lidar com isso, cada uma a sua maneira. A narração é alternada sobretudo entre três personagens (mas outros surgem no meio também): Bernardo, melhor amigo de Antônia, um tipo de nerd obsessivo-compulsivo que precisa achar alguma lógica no que aconteceu, e que por isso tenta reconstituir a noite do acidente. Camilo, o irmão de Antônia, adorador de Guns n’ Roses, junkie, que monta e desmonta carros, e que nunca trabalhou um dia na vida. E Polaco, o dono do bar entre o Lago e a casa de Antônia e Camilo, que guarda uma história obscura envolvendo a pequena cidade onde nasceu, história que, em função da morte de Antônia, volta a assombrá-lo.

Achei interessante e já anotei o nome. Ajuda o fato de o livro ter um "making-of" (sim, eu me amarro nessas paradas!), mas o que me assombrou, se posso dizer assim, foram os pontos de tangência do plot dela com um argumento que estou escrevendo. A história trata justamente da morte de uma Antônia e da reação de três pessoas a isso.

Até onde entendi, as coincidências terminam por aí. Além do quê, a morte de uma pessoa SEMPRE muda a vida dos que estão próximos a ela. E claro, há ainda a noosfera.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

INCLUSÃO DIGITAL

(Estou na minha linux-vibe sazonal, então não reparem se ficar muito repetitivo, certo?)

O lance é que a minha esposa comprou um computador novo uns tempos atrás. Sempre temos dois desktops em casa. O dela, e o que costumava ser meu, e que agora é do meu filho. De anos em anos a gente compra um novo, que fica com ela, e o dela passa para mim (agora meu filho), e a gente sempre doa o mais antigo.

A bola da vez foi um Pentium 4 com 512 de RAM e sei-lá quanto de HD. Uma configuração que vai atender a maioria das necessidades de qualquer um que use um computador. E quem recebeu o computador foi uma pessoa que trabalha conosco.

Antes disso, tive que, obviamente, formatar a máquina. Pelo pouco que conversamos, tanto ela quanto os filhos não têm muito contato com computadores. E foi aí que me deu o estalo: por que não?

Uma das maiores barreiras em relação ao Linux são justamente os velhos hábitos dos usuários-padrão, que, até por já terem se habituado com o Windows por anos e anos, não se sentem seguros nem motivados a trocar uma ferramenta que já conhecem relativamente bem por uma na qual terão que aprender bastante coisa.

Enfim, instalei o Ubuntu 8.04, fiz as configurações necessárias: instalei o Flash para que eles pudessm ver vídeos na internet, jogar, etc; troquei o OpenOffice default (em inglês) pelo BrOffice, instalei as fontes default da Microsoft e fiz mais alguns ajustes. A única coisa que não funcionou a contento foi o Compiz. Infelizmente não tive tempo para checar isso, mas do jeito que o micro ficou já estava de bom tamanho.

Detalhe: eu não falei absolutamente nada sobre o sistema operacional. Simplesmente entreguei a máquina.

Como praticamente não fiquei em casa desde que fiz isso, não sei se eles gostaram ou se alguém já arrancou o Ubuntu fora. Na verdade, estou bem curioso. Dentro em breve pergunto e descubro.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

QUERIDO PESSOAL DO BLOGGER...

Eu não sou um spammer nem um bot. Será que vou ter que continuar preenchendo esse catso desse captcha toda vez que for postar no meu blog?

(sim, já notifiquei o blogger diversas vezes).

CONVIDADO

Analogia interessante que o usuário "mlvezie" fez na seção de comentários de um post do Lifehacker:

My feelings for Windows now is that, even thought I've used it for years, and certainly know my way around it, when I use it, I feel like I'm a guest in a friend's home, but when I use Linux, I feel like I'm at home.

Faz sentido.

DE VOLTA AO DUAL-BOOT

Pois é. Quase um mês depois de dar início ao meu “Experimento U”, me vi sem saída e acabei tendo que retornar ao bom e velho XP. Ou melhor, ao bom e velho dual-boot.

Como já disse antes, não partilho do mesmo ódio patológico que certos usuários têm por programas pagos. Num caso como esse, costumo ver as coisas de maneira mais pragmática. Há sim um componente ideológico na minha predileção por programas de código aberto, mas ela se deve muito mais à praticidade da coisa toda. Posso instalar, desinstalar e fazer o diabo sem ter que me preocupar com chaves de autorização, validações pela internet e por aí vai. Posso distribuir para amigos e colegas de trabalho. Além disso, o desenvolvimento dos programas é mais rápido. E, normalmente, eles fazem tudo o que eu preciso.

Contudo, a minha área de trabalho exige uma grande quantidade de programas que são concebidos para trabalharem exclusivamente no Windows. Alguns rodaram bem no Wine, outros não. No caso desses que não rodaram, consegui fazer algumas substituições com soluções “de próprio punho”, mas elas não me atenderam a contento.

Então resolvi voltar ao dual-boot. Se vocês leram o post que linkei no primeiro parágrafo, devemter percebido que a intenção não era largar do Windows de vez, mas apenas ter uma idéia de como seria a experiência. Particularmente, eu gostei. Mas, afinal, ainda há meu ganha-pão.

Antes de voltar ao dual-boot, tentei a virtualização, mas o VirtualBox (que tem versão nova sendo lançada hoje, aliás) não funcionou tão redondinho quanto imaginei e não tenho o tempo necessário para vasculhar fóruns e site em busca das resoluções dos meus problemas com ele. Prefiro tentar resolver esse assunto com calma, sem pressão.

Obviamente, não sou tão trouxa para queimar meu filme com um cliente por causa das minhas preferências pessoais, então fiz isso sabendo que:

a) havia um velho desktop no meu local de trabalho atual que poderia me ajudar – e ajudaram - nesses dias.

b) havia amigos com laptops com Windows, que poderiam me ajudar – e ajudaram - nesses dias.

O Ubuntu não se mostrou adequado para algumas atividades do meu trabalho, mas de maneira alguma eu penso em largá-lo, muito pelo contrário, mesmo porque, uma coisa não exclui a outra. Ter o Windows instalado no computador não significa que ele é mais ou menos importante que outros SO's que estejam lá. É simplesmente uma questão de necessidade. Para uma situação específica, eu tenho o SO e as ferramentas específicas, para outra, tenho outros. Ponto.

Então as coisa ficaram assim: XP e Ubuntu para o trabalho, numa proporção de 70/30, e Ubuntu para todo o resto.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

DESKTOP SCREENSHOTS

Sei que é um puta fetiche nerdy, mas me amarro em ver screenshots dos desktops alheios. Sei lá por quê.

E, miraculosamente, encontro uma galeria no Flickr com mais de 1.000 fotos. É nóis!

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

ALQUIMIA REVERSA

De tempos pra cá venho colocando em perspectiva as impressões que tinha sobre coisas que escrevi e pessoas que (des)conheço, e não me surpreendi com o fato delas estarem se tornando piores a cada dia. Mas decepções e desilusões também fazem parte da vida, né não?

terça-feira, 12 de agosto de 2008

MUTARELLI E STEPHENSON

De tempos pra cá prometi a mim mesmo que o fluxo de livros entre Taubaté e Curitiba seria apenas na direção da primeira à última, ou seja, não levaria mais livros da minha casa para o local onde estou.

Mas uma rápida passada numa livraria ontem, fez com que eu mudasse de idéia. Primeiro vi NEVASCA, primeiro livro de Neal Stephenson lançado no Brasil, até onde sei.

Stephenson é "filho" dos cyberpunks originais (Gibson, Sterling, etc.) e pelo pouco que li a respeito de sua obra (da qual Cryptonomicon é a que mais me desperta curiosidade) o livro tem tudo para me agradar.

O outro que vi - trouxe e levarei - foi A ARTE DE PRODUZIR EFEITO SEM CAUSA, de Lourenço Mutarelli. Acho que esse deve ter sido o primeiro fruto do polêmico Amores Expressos. O objeto em si, é muito bonito, lembrando um caderno de anotações, com algumas passagens caligrafadas e o caralho. A narrativa, pelo pouco que se pode deduzir da sinopse, também continua fazendo parte das paisagens que o autor costuma visitar.

UPDATE: segundo essa entrevista, A ARTE DE PRODUZIR EFEITO SEM CAUSA não faz parte do projeto Amores Expressos, como eu imaginava.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

PREPARANDO A MIGRAÇÃO, OU AINDA, O “EXPERIMENTO U”.

Sempre fui entusiasta do Software de Código Aberto (porque sabemos, o termo “Livre” dá muito o que falar), e sempre brinquei o Linux, mas a verdade é que só comecei a considerar a adoção *definitiva* dele como meu sistema operacional principal de uns meses para cá.
A barreira é, evidentemente, o trabalho. Muitos softwares que uso são bastante específicos, não tendo versões open-source ou mesmo compatíveis com outros sistemas operacionais que não o próprio Windows. E antes que algum engraçadinho tenha a idéia: não, eu não vou mudar de profissão.
Numa migração, a primeira coisa a se levar em conta é a real necessidade do computador. Para que ele serve? Quais são os programas realmente necessários?
O primeiro passo que dei foi avaliar outras distros que poderiam atender aos meus objetivos. Passei semanas baixando live-cds e testando várias delas, desde as mais famosas, até as mais obscuras. Mas já uso o Ubuntu há um bom tempo, e sempre tive uma queda por ele. Acabei achando melhor não mexer em time que está ganhando. A título de curiosidade, também uso o Slax num pen-drive/canivete-suíço de 8Gb que azeitei com outros aplicativos. Mais sobre isso depois.
No meu caso, mesmo utilizando o Windows, costumo, sempre que possível, dar preferência a softwares livres. Então meu pacote de escritório é o OpenOffice (na verdade, o Go-OO, uma versão com algumas - poucas - melhorias), meu browser é o Firefox, meu editor de textos é o Notepad++ e assim por diante. A grande maioria dos programas tem versões funcionais para o Ubuntu. E alguns, como o Notepad++, que são exclusivos para Windows, rodam facilmente via Wine.
Os programas de uso “normal” são seriam problema. Também conheço um bom número de programas específicos que têm seus equivalentes no Linux. De qualquer maneira, preparei uma lista para confrontar os programas que uso no Janelas e os que eu vou usar no Ubuntu.
Contudo, isso ainda não resolveria meu problema, que é o de poder continuar utilizando os programas de trabalho, e que costumam mudar de projeto para projeto.
Notem que estou evitando a todo custo o dual-boot (que já uso, a propósito), por ser contraproducente na hora do trabalho. Se eu tiver que ficar reiniciando o micro 20 vezes por dia, deixo as coisas como estão.
Mais uma vez, recorri ao Wine. Obtive bons resultados com alguns programas, resultados medianos com outros e há um terceiro grupo que simplesmente não funcionou. Nesse caso, a opção seria apelar para a virtualização. Particularmente, gosto da VirtualBox, que também já utilizei no Windows. Mas o problema de máquinas virtuais é que, a menos que haja uma boa quantidade de memória RAM (2Gb ou mais, que não é o meu caso.) o desempenho - tanto do sistema hospedeiro como do sistema virtualizado - costuma despencar. E voltamos ao ponto exposto na última frase do parágrafo anterior. Se eu tiver que continuar usando o Windows, deixo as coisas como estão.
Então resolvi fazer um experimento. Semana que vem formato meu laptop, e vou tentar ficar 20 dias sem o Windows, aconteça o que acontecer. Tenho plena ciência de que as coisas vão se complicar vez ou outra. Mas a verdadeira questão é: vão se complicar quanto?
E, na pior das hipóteses, há um plano de contingência, que envolve aquele pen-drive sobre o qual falei lá em cima.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

ADSENSELESS - PARTE 3, E NOVA HQ PUBLICADA.

Duas coisas:

1) ADSENSELESS - Parte 3, está disponível para leitura lá no TXT.

2) Uma hq escrita por mim foi exumada e será publicada na edição 48 da revista pernambucana Prismarte. Mais detalhes aqui.

ADSENSELESS - Parte 3

Márcio Massula Jr.

O naco dentro da boca de Chico tem calorias suficientes para sustentar uma criança por uma semana. Mesmo assim, a maçaroca de pão, carne sintética, legumes transgênicos e condimentos desaparece garganta abaixo antes que suas papilas gustativas tenham notícia do sabor daquilo tudo. Ao que parece, para Chico mastigar a comida é apenas uma formalidade, que ele não faz muita questão de cumprir.

Apesar de já se terem passado alguns dias, Macanudo ainda chama atenção. Vez ou outra algum dos clientes da lanchonete pára e pergunta: “Ei, você não é aquele cara da Googolplex?”. Nas primeiras vezes, ele respondia com convicção, fazia valer o treinamento, mas esse não era um momento. Tratava de um assunto importante, e quando uma menina pediu para tirar uma foto ao seu lado, o máximo que consegui produzir foi um esgar com o cantos dos lábios. Um arremedo de sorriso. Ele está preocupado.

- Chico, ela disse que não quer falar comigo!

Chico ainda está concentrado em sua comida. Ele vasculha o interior do sanduíche com a ponta do dedo indicador, como se procurasse encontrar algo que não deveria estar lá.

- Cara, ela abriu uma comunidade no TRUKO, sabia? “Eu odeio a Googolplex!”. E eu, como fico nessa, cara?

O indicador de Chico continua a prospectar o sanduíche.

- Maca, não acredito que você fez isso. Sério mesmo. Seu pai era um lóki, sua avô também, e, cá pra nós, sempre te achei meio esquisitinho. Mas gosto de você assim mesmo, cê sabe, né? Eu até me empolguei quando um carinha lá da Plex comentou sobre o programa comigo, mas nunca ia imaginar que meu melhor amigo ia se meter nessa. Não mesmo.

Chico tira uma fatia de picles e coloca sobre a mesa. Em seguida abocanha mais uma parte do sanduíche.

- Ué! Mas, de todo mundo, você é o que mais deveria estar feliz com o que eu fiz!

- Maca, eu sou um Tecnólogo, não um tecnófilo pervertido como você. E feliz não é exatamente a palavra. Curioso, talvez. Mas uma coisa é o fato de eu gostar de tecnologia. Outra é o fato de gostar de você estar servindo de cobaia pra testar tecnologia, percebe?

- Ok. Mas isso ainda não resolve meu problema. Eu fiz isso para me casar com ela. E ela nem quer me ver!

- Bom, talvez as coisas estivessem melhores se você tivesse avisado que ia implantar um dispositivo de publicidade semântica na testa ao invés de ter dito que ia pescar. E comigo!

- Foi mal, cara. Mas eu tinha que fazer isso. Se dissesse que ia participar do programa, ela ia protestar, com certeza.

- E você achou que aparecer com a testa cintilando preços de panelas e cursos de pós-graduação ia mudar a opinião dela, né?

- Achei que ela fosse entender...

- Não entendeu.

- Pois é...

- Isso aí é por tempo limitado, né?

- É.

- Quanto?

- Não posso comentar. Está no contrato.

- Presumo que seja muito tempo, então...

- Em virtude das circunstâncias, acho que agora é. Temos que resolver isso, Chico?

- Você e a Ândrêa, né?

- Não, cara! Eu e você!

- Fala baixo, viado! Tá querendo me comprometer? E que história é essa de eu e você?

- Ué? Você não vai me ajudar a resolver essa parada?

- Eu?

- Pô, Chico! Você é meu melhor amigo. Pra quem eu posso pedir ajuda?

- Pro seu bom-senso, talvez?

- Tá bom. Pode pisar em cima. Mas pense aí num jeito de me dar uma força, vai.
Uma jovem com feições asiáticas, na casa dos vinte e poucos, senta-se ao lado de Macanudo, sem ao menos ter a preocupação de se apresentar. Ela tem os cabelos pintados num tom de vermelho que é uma declaração de guerra à visão de qualquer pessoa dentro do recinto. Suas roupas são volumosas, e de cores tão berrantes quanto a do cabelo. Ela parece saída de algum anime. Macanudo fica surpreso, enquanto Chico tenta divisar alguma das curvas do seu corpo, bem escondidas sobre toda aquela quantidade de tecido.

Do outro lado do restaurante, outra moça, com roupas igualmente exóticas, bate uma sequência de fotos com um smartphone, enquanto a menina dos cabelos vermelhos estica o indicador e o dedo-médio em V. Antes que Macanudo possa formular algum protesto, ela agradece, se levanta, cruza o restaurante, pega o celular que estava na mão de uma amiga, confere as fotos, dá umas risadinhas, pressiona algumas teclas e ambas saem pela porta.

Chico começa a rir.

- Se acostume, cara. Agora você é uma celebridade.

- Pior é que não vou receber nenhum centavo por essa publicidade.

As risadas de Chico se transformam em gargalhadas.

- Maca, só você mesmo pra pensar numa coisa dessas. Cê é um figura mesmo.

- Não sei porque, mas algo me diz que cometi uma burrada ao entrar nessa.

- Só agora você percebeu?

- Valeu mesmo, Chico.

Chico ameaça fazer mais um comentário espirituoso, mas detém a fala. Ele olha fixamente para Macanudo, que estranha a fixação súbita do amigo.

- Maca, essa parada tá gravando a nossa conversa?

- Sim.

- E tá filmando meu rosto?

- Também.

- Ou seja, como se eles já não tivessem bastante informação, a Plex está coletando mais dados a meu respeito. E sem a minha permissão.

Macanudo assume um ar grave.

- Não! Nada disso! Esses dados são coletados apenas para filtrar os anúncios. Eles nunca vão usar isso. Os dados são apagados após 30 segundos após o fim da conversa. Está no manual.

Chico se aproxima mais. Chama Macanudo com o indicador. Olha para os lados e certifica-se que ninguém está prestando atenção.

- Isso é o que eles querem que você pense - diz, num sussurro.

- Sério mesmo?

Chico dá um tapa de leve no queixo de Macanudo, que não esperava por essa reação do amigo e reage 
de maneira desproporcional, atirando-se para trás e derrubando seu copo de refrigerante.

- Claro que não, seu mané! Tava parafraseando um filme das antigas que gosto muito. Cê não sabe o quanto eu esperei pra poder dizer isso.

- Olha a bagunça que você fez.

- Que você fez, Maca. Mas, peraí...

Chico levanta-se e segura a cabeça do amigo com as duas mãos. Seu olhar é severo. Não parece estar brincando agora. Analisa a tarja por alguns segundos. Resolve falar, por fim.

- Caralho, olhas os preços disso!

sexta-feira, 4 de julho de 2008

sábado, 28 de junho de 2008

AJUDE A SUSTENTAR A WIKIPEDIA

Ajude a sustentar a Wikipédia e outros projetos, sem colocar a mão no bolso, e concorra a um Eee PC!

…e também a pen drives, card drives, camisetas geeks, livros e mais! O BR-Linux e o Efetividade lançaram uma campanha para ajudar a Wikimedia Foundation e outros mantenedores de projetos que usamos no dia-a-dia on-line. Se você puder doar diretamente, ou contribuir de outra forma, são sempre melhores opções. Mas se não puder, veja as regras da promoção e participe - quanto mais divulgação, maior será a doação do BR-Linux e do Efetividade, e você ainda concorre a diversos brindes!

(Achei a campanha um barato. Esse lance das contribuições aos projetos de software livre é um assunto que sempre me interessou e que vai render, qualquer dia destes um post. Obviamente, também estou de olho numa dos brindes oferecidos)

quarta-feira, 18 de junho de 2008

quinta-feira, 12 de junho de 2008

CURIOSIDADE MÉDICA - UM ROTEIRO DE HQ

De dias pra cá meu interesse pela narrativa e pela narração de histórias em quadrinhos vem voltando gradativamente, talvez pelo fato de ter feito a leitura consecutiva de vários livros sobre o assunto, talvez por ter botado as mãos num pacotinho de edições nas quais estava de olho fazia tempo.

Ano passado, se não me falha a memória, o Leonardo Santana enviou um email para várias pessoas - eu incluso - onde solicitava hqs curtas para publicar numa edição temática da Prismarte, que ele ajuda a editar. O tema, aliás, era o terror, e essa edição acabou sendo a de número 45.

Bem, eu tinha uma pequena idéia que tinha começado a desenvolver anteriormente e achei que ela caberia numa edição assim. Fiz meus cálculos e concluí que três páginas seriam o suficiente. Não me lembro exatamente qual foi o estopim da coisa toda, mas eu queria misturar alguns elementos que me interessavam na época. Então me propus a escrever e entregar essa história, que batizei de CURIOSIDADE MÉDICA.

Resumindo a ópera: logo eu, o (pretenso) roteirista metódico e pontual, que sempre reclamou dos desenhistas furões, furei. A vida no mundo real começou a cobrar mais atenção, e, paralelamente, meu interesse pela feitura de hqs começou a declinar vertiginosamente. Deixei esse e outros roteiros de lado e fui cuidar de outros assuntos. Até semana passada.

Mais uma vez, minha vontade de escrever para quadrinhos voltou. Tive algumas idéias e reencontrei outras que me agradavam. Acabei desenterrando, entre outras coisas, esse roteiro.

Reescrevi praticamente tudo, e talvez ainda falte alguma coisa, mas é um roteiro que eu gostaria de ver desenhado.

O roteiro, aliás, pode ser baixado aqui (lá embaixo, em “Attachment”).

Alguém se habilita?

P.S.: Em tempos recentes, desenvolvi um procedimento terapêutico contra a angústia provocada por desenhistas furões: inscrevo os emails deles nas newsletters de tudo quanto é site de zoofilia que encontro internet afora. Podem chamar isso de “compensação”.

P.S.2: Brincadeirinha!!!!

P.S.3: até agora há pouco o link estava quebrado, e quem avisou foi o Daniel. Valeu, cara!

sábado, 7 de junho de 2008

MANTENDO SEU TRABALHO A SALVO

Já ouvi verdadeiras histórias de terror sobre escritores que perderam meses, até anos de trabalho porque não tomaram os devidos cuidados na hora de manterem seus backups em dia (isso para não falar daqueles que preferem escrever em cadernos...).

Manter um backup atualizado é um hábito que qualquer um que leve a sério a atividade de escrever deveria cultivar.

Embora a grande maioria dos programas recentes tenha ferramentas que realizam salvamentos automáticos em períodos determinados, as combinações Ctrl+S (ou Ctrl+B em alguns casos ) têm que ser tão naturais quanto respirar.

Contudo, criar o hábito de salvar seus arquivos dentro do seu computador é só o primeiro passo, uma vez que o próprio computador pode quebrar.

O preço de um pen-drive não é mais desculpa. Um dispositivo de uma marca boa, com 1 Giga de capacidade custa, hoje em dia, numa loja que cobra caro, cerca de 45 reais. Para quem pretende entupir sua unidade de armazenamento com músicas, .ppts cheios de mensagens enaltecedoras e vídeos com pegadinhas russas, 1 Giga realmente não é muita coisa. Mas para guardar roteiros (e outros documentos de texto, em geral), é espaço mais do que suficiente.

Fazendo uma conta simples: Um roteiro parrudo, de 120 páginas, seguindo a formatação padrão, no formato .rtf, costuma ficar com um tamanho de 300 e 400 KB. Se utilizarmos a notação SI, 1 GB equivale à 1000 MB, e 1MB, por sua vez, equivale a 1000 KB. Portanto, 1 Gb vale o mesmo que 1.000.000 KB, ou seja, num pen-drive de um giga cabem 2.500 roteiros. Nada mal, não? Vendo por outro lado, um disquete de 3 1/2” HD (o mais comum) já seria suficiente para guardar pelo menos três roteiros, embora não se aconselhe utilizar esse tipo de mídia nos dias de hoje.

Outra alternativa, que pode ser utilizada em paralelo, são os hds virtuais. Hds virtuais permitem o armazenamento de uma determinada quantidade de dados em servidores externos. Obviamente esse tipo de serviço não é aconselhável para aqueles que tem níveis de paranóia muito elevados.

Por outro lado, eles oferecem grande flexibilidade pelo fato de ser possível baixar o documento a partir de qualquer computador com acesso à internet. Normalmente esse tipo de serviço se apresenta nas modalidades paga e gratuita, sendo que na gratuita, obviamente, o espaço disponível é bem menor. Alguns exemplos são o Mozy e o Esnips, onde a manipulação dos arquivos é feita através de um software instalado localmente na máquina do usuário. Existem ainda outros, como o 4Shared e o já vetusto Rapidshare, onde todo o processo é controlado via browser. Na pior das hipóteses, o usuário pode simplesmente criar uma conta de email num serviço que ofereça mais de 1 GB de espaço - praticamente todos os grandes provedores - e enviar seu trabalho para esta conta-arquivo.

Há ainda casos como o do Celtx, que já tem essa opção integrada ao próprio software. Basta fazer um upload privado do seu projeto e ele ficará armazenado no servidor da Greyfirst, podendo ser baixado de qualquer computador. Some isso ao fato do programa rodar diretamente de dentro de um pen-drive, e temos uma ferramenta poderosa.

Outro ponto importante: seja você fã ardoroso do Final Draft, admirador do Movie Magic, evangelista do Celtx ou viúva do Sophocles, sempre, mas SEMPRE, salve uma cópia do seu roteiro num formato neutro. O bom e velho .txt é o melhor, mas a grande maioria dos programas também entende o .rtf ou o .html.
Ter o seu trabalho salvo num formato neutro vai evitar muitas dores de cabeça caso seu programa preferido resolva, de um dia para o outro, não funcionar mais.

Pegando um exemplo pessoal, no início deste ano redigi um roteiro de noventa páginas utilizando o Sophocles. Por um problema técnico, acabei ficando quase duas semanas sem meu computador, onde estava instalado o programa. Como eu tinha o roteiro salvo em .txt, importei-o no Celtx - instalado num pen-drive - e continuei trabalhando em outro computador, como se nada tivesse acontecido. Quando meu pc ficou em condições, reinstalei o Sophocles, exportei o roteiro do Celtx, importei no Sophocles, e dei sequência por lá.

Recentemente, o site do programa saiu do ar e começaram as especulações sobre o que teria acontecido. Aparentemente, o programa foi descontinuado. O Sophocles possui um sistema de ativação pela internet. Cada vez que o programa é reinstalado, seja ele um demo, uma versão beta ou uma versão paga, ele tem que ser reativado pela internet. E se o site da empresa está fora do ar... Isso até faria sentido numa empresa monolítica como a Microsoft, mas no caso da pequena Sheenan Software, parece não ter sido uma das escolhas mais acertadas, o que acabou deixando vários usuários que pagaram pelo programa em maus lençóis.

Voltando a mim. Embora o Sophocles que eu tenho continue funcionando, decidi abandonar a ferramenta de vez, em detrimento do Celtx. Bastou que eu importasse meu .txt atualizado, procedesse com algumas correções (a perda de formatação em alguns trechos é comum nesse tipo de operação) e pronto. Posso trabalhar tranquilo, sabendo que estou parcialmente imune a panes e pandemônios eletrônicos.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

CELTX 1.0 NO AR

É isso aí, macacada. Meu brinquedinho preferido deixou de ser beta. Entre as novidades, um template específico para escrita de quadrinhos. Algo que eu esperava havia muito tempo. Na verdade, não curti muito o formato escolhido - aquele que emula alguns roteiros televisivos, com descrições num quadro, diálogos em outro, etc, muito usado em quadrinhos europeus. Também achei que fez falta a exportação para um formato mais parrudo, como o .ODT, assim como a exportação offline para .PDF. Mas tá valendo.

As novidades podem ser conferidas aqui.

sábado, 31 de maio de 2008

OPEN THE SOURCE

É fato que as pessoas - pelo menos as que lêem - tem certo interesse, algumas até fascínio, pelo que se convencionou chamar de “processo criativo” dos escritores. Mas estávamos falando de escritores. O que dizer dos beletristas?

Embora eu ache que exista pouca gente querendo saber em que sentido giram as engrenagens na minha cachola, acho que a tentativa de verbalizar o que se passa durante o processo de concepção de uma narrativa me ajuda a colocar as coisas em perspectiva. A olhar de longe e pensar no que pode ser melhorado no futuro. Mas fiquem tranquilos. Não vou tentar explicar a piada.

Pode parecer meio prematura tentar falar das entranhas de um conto - ADSENSELESS - que ainda está em sua segunda parte. Parte esta, aliás, que foi publicada com um atraso de pelo menos três meses (uma vez que estabeleci uma deadline pessoal de trinta dias entre um capítulo e outro).

Lá em cima, utilizei a palavra beletrista sem falsa modéstia ou intenção de ser engraçado. Embora a palavra tenha uma carga pejorativa indelével a essa altura do campeonato, beletrismo, segundo o Houaiss, também pode significar, entre outras coisas, “atividade literária diletante ou puramente recreativa”. Acho que é o meu caso.

Eu, literalmente, escrevo quando dá. Embora esteja numa relação quase simbiótica com um laptop, um smartphone com tecladinho QWERTY e um bloquinho, a escrita - pelo menos a de ficção, essa que me dá prazer - ocorre aos poucos, em doses homeopáticas. Acredito que parte disso se deva ao fato de eu passar uma boa parte do dia macetando as teclinhas de plástico do Dellzão. Não ter uma rotina - meus horários de trabalho costumam variar bastante - também pesa. Às vezes, contudo, escrevo no trabalho. Me considero, aliás, o Alt + Tab mais rápido do Oeste. 

A idéia de ADSENSELESS veio quando eu estudava mais sobre o Google Adsense. Comecei a tomar notas para o que seria um continho, quase uma anedota, sobre a publicidade nesse começo de século XXI. Quem surgiu primeiro foi, claro, Macanudo.

Quando publiquei a primeira parte, a segunda já estava praticamente escrita. Só que não gostei do texto e resolvi deixá-lo cozinhando. Enquanto isso, no mundo real, muita coisa aconteceu, e acabei deixando o texto meio de lado. Voltei à segunda parte dias atrás. Mexi aqui, ali, e, embora tenha achado o resultado satisfatório, penso que talvez ele não tenha transmitido todas as idéias que planejei. Paciência.

O “processo” varia. Neste caso, para cada parte do conto, crio um arquivo separado. Fica mais fácil manipular o texto. Também criei um outro arquivo, onde despejo tudo quanto é tipo de informação que julgo interessante: links, trechos de diálogos, notas e por aí vai. Nesse mesmo arquivo há pequenas bios dos personagens que apareceram e ainda vão aparecer, assim como um roteirinho dos 6 capítulos originalmente planejados.

O capítulo 3 nem foi iniciado ainda. Com exceção de quarenta e sete palavras no arquivo de notas que descrevem em linhas bem gerais o que vai acontecer, não há mais nada.

A parte 4, por sua vez, já tem pouco mais de 100 palavras, além daquelas no arquivo de notas. 

A parte 5, vejam vocês, já passou das 1000, e provavelmente terá que ser dividida, o que aumentará o número de partes para um cabalístico 7.

E, por fim, a parte 6 (que provavelmente será a 7, note) também não existe, a não ser por uma frase que define o que será o clímax da história.

Não considero ADSENSELESS ficção-científica, propriamente dita. Não que não goste do gênero, muito pelo contrário. Mas acho que para chamar minha ficção de científica, terei que comer mais um pouco de feijão. Sim, há technobubble, infodump e essas coisas, mas é mais uma maneira de extravasar minha tecnofilice do que qualquer outra coisa. O que me interessa na ficção, de qualquer gênero, são as possibilidades.

Ok, eu sei que o Ellis já fazia isso há dez anos, mas mesmo assim, vamos lá: ouça, no talo, Release, do disco A Fine Day To Exit, da banda britânica Anathema. Leia Kafka à beira-mar, de Haruki Murakami, que eu ainda não finalizei, mas, até o momento, compensa cada página.

sábado, 24 de maio de 2008

ESCRIBA - SOFTWARE PARA ESCRITA DE ROTEIROS

Voltando ao assunto do penúltimo post, agora Frank Baiz divulgou o nome do seu programa - Escriba - assim como seu novo site.

Agora, se entendi direito, o software é construído em cima de uma teoria desenvolvida pelo próprio Baiz, então ao invés de evocar a imagem do Movie Outline, agora a coisa me parece mais com o já famoso combo Movie Magic + Dramatica.

Particularmente não curto muito softwares para "construção" de histórias, como o Dramatica, mas estou curioso para ver como será o Escriba.

(e sim, só pra variar, eu vi esta notícia no Blogacine)

terça-feira, 20 de maio de 2008

ADSENSELESS - Parte 2

Demorou mais do que planejei, mas saiu. O endereço é o que segue:

http://txt.blogsome.com

ADSENSELESS - Parte 2

Márcio Massula Jr.

Idosos são, em sua grande maioria, neoludditas.

Mas sempre existem as exceções à regra. E, neste caso, a exceção era bem simpática, contudo, devido a sua estatura, obrigava Macanudo a se curvar num ângulo que dentro em breve faria com que caísse e cravasse a cabeça no concreto.
***
Você vai chamar atenção por onde for. Esse é o objetivo. Nunca desvie os olhos de quem estiver olhando para você. Seja simpático. Sorria. Cative as pessoas.

Macanudo não se lembrava em qual momento do treinamento este tópico tinha vindo à tona, mas as palavras do instrutor ribombavam em seu crânio exatamente como no dia em que ele as ouviu.
Após uma semana entre os odores anódinos do Centro de Recuperação da Googolplex, ter as narinas incendiadas pela mistura quase alquímica de sudorese e gás carbônico do mundo real era como tomar um murro no meio do rosto. E foi assim que Macanudo iniciou sua jornada pelo centro da cidade. 

Desorientado, com medo e sentindo dores em lugares bem estranhos.

Era estranho ser o centro das atenções. Ele tentava, na medida em que podia, dar um sorriso bem grande, daqueles capazes de buscar a reciprocidade dos cafundós das personalidades apressadas dos transeuntes. Mesmo assim, a maioria das pessoas simplesmente virava o rosto. O desejo de chegar logo em casa aumentava a cada pedestre que passava direto – o que não era bom para os negócios – até que a exceção estacou-se em sua frente, tombou a cabeça um pouco de lado num gesto de curiosidade, e deixou escapar o mais bonito – e único – sorriso que Macanudo vira naquela manhã.

A exceção, uma senhora que já tinha passado há muito dos sessenta, fez um pequeno sinal com o indicador minúsculo, na direção da testa de Macanudo.

- O que é isto?

Era a deixa. E Macanudo praticamente vomitou o texto que havia decorado durante o curso de preparação na Googolplex.


***

- Olha só os preços disso!

- Disso o quê?

- Meu Deus do céu!

A mulher estende o dedo em direção à tarja de Macanudo, que, sem saber exatamente o que fazer, permanece parado. Ela detém a falange a poucos centímetros da testa de Macanudo.

- Posso?

- Bem...acho que pode sim.

- Você pode se abaixar só um pouco?

Macanudo não sabe o que pensar. Por que a mulher quer tocar sua testa? Ele até entende que há uma curiosidade natural pela novidade, e até esperava esse comportamento de uma criança, mas, bem, isso era estranho. A velha deslizava os dedos por sua testa, talvez experimentando a textura. Inclinado daquela maneira, Macanudo, para amenizar um pouco o constrangimento, fixou os olhos nos sapatos da mulher, duas pecinhas muito delicadas que já haviam saído de moda havia um bom tempo, e, mesmo assim, continuavam impecavelmente bonitos. A mulher dava pequenos toques em sua testa, como se estivesse manipulando um dispositivo touch-screen. E, até onde Macanudo sabia, a tarja não era touch-screen.

- Você não tem um teclado?

- Como?

- Um teclado virtual.

- Hã...presumo que não, senhora.

- Ah!

- O quê?

- Tem sim!

- Tenho?

- Tem. Ele apareceu aqui. Espere só um pouco.

E seguiu-se mais uma sequência de toques na testa. Às vezes a mulher parecia esquecer que atrás daquela tela havia uma cabeça e pressionava tão forte que Macanudo ficava a ponto de perder o equilíbrio. Depois ele se preocuparia com a funcionalidade que desconhecia. O que importava agora era agradar a cliente. Momentos depois, a mulher se deu por satisfeita.

- Obrigado.

- A senhora, hããã...encontrou todos os dados que procurava?

- Bem, na verdade eu estava verificando meus e-mails. Esqueci meu smartphone no escritório. Sabe como é...

- A senhora viu seus emails na minha testa?

- Vi sim. Você não sabia que fazia isso?

- Ah, claro! Sabia sim. É que, bem, os usuários não costumam dar muita bola para esse recurso, sabe? - 
Macanudo tentou disfarçar com um sorrisinho cambeta.

- Certo, certo. Muito obrigado, então. Tchau!

O mulher dá alguns passos e depois vira-se.

- Gostei da novidade!

Esse episódio foi como uma injeção de ânimo. Macanudo passou a sentir-se mais seguro, o que, de certa forma, passou a mesmerizar as pessoas. No restante do caminho - que incluiu uma viagem de metrô - ele seguiu à risca os procedimentos indicados no manual. As pessoas olhavam umas para as outras, paravam e sempre havia aquele mais extrovertido, que acabava tomando a frente da situação e perguntava:

- Mas que porra é essa na sua testa?

***

Obviamente, a primeira coisa que Macanudo fez ao chegar em casa foi ver sua página pessoal na Googolplex para checar quanto tinham lhe rendido as conversas que tivera rua afora. Os créditos ainda não constavam, mas ele sabia que poderia haver um período de vinte e quatro horas até que o saldo do Vetor estivesse devidamente atualizado. Estava no manual. Então ele se lembrou das funcionalidades que desconhecia e ligou para o número que lhe deram.

- Centro de Atendimento ao Vetor. Em que posso ajudá-lo, senhor...Macanudo?

- Como você sabe que sou eu?

- Bom, nós somos o Centro de Atendimento ao Vetor. Este número só é dado aos Vetores. E o senhor é único Vetor, sabe?

- Ahhhh...

- Em que posso ajudá-lo?

- Bom, é meio constrangedor falar isso, mas, bem, me aconteceu uma coisa meio estranha hoje na rua, em minha primeira empreitada, e, bem, vamos lá: eu tenho um browser na minha tarja?

- Tem sim senhor. Assim como um pacote de escritório completo e todo o restante do nosso portfólio. Tudo acessado pelo seu browser, na verdade.

- E porque ninguém me avisou disso?

- É que essa tecnologia foi desenvolvida após sua alta do nosso Centro de Recuperação.

- Mas eu saí de lá faz três horas!

Silêncio no outro lado da linha. Macanudo tem a impressão de ouvir o leve matraquear de um teclado.

- Desculpe, senhor. Isso foi uma coincidência, devo dizer. O senhor não foi notificado?

- Notificado? Como?

- Via email.

- Não, não fui não. Estou com minha caixa de entrada aberta e não há nenhuma mensagem de...
Macanudo se viu obrigado a interromper o comentário quando, repentinamente, surge uma mensagem da Googolplex em seu computador, indicando ter sido enviada quase quatro horas antes.

- Ei, recebi sua mensagem só agora!

- Veja só o senhor. Hoje é mesmo o dia das coincidências, não? Deve ter sido algum problema nos nossos servidores.

- É, deve ter sido mesmo. Tudo bem. Obrigado então. Como é seu nome?

- Pode me chamar de Junior.

- Tá bom, Junior. Acho que ainda vamos nos falar muitas vezes.

- Vamos sim, senhor.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

MAIS UM SOFTWARE PARA ESCRITA DE ROTEIROS

É! Só que desta vez desenvolvido pelo roteirista Venezuelano Frank Baiz Quevedo, mantenedor da famosa La Página del Guión.

Pelo que entendi, o objetivo do software é mais estruturar uma história (como o Movie Outline) do que redigir o roteiro em si, embora ele também vá contar com um processador de textos exclusivo para isso. Será interessante ver quão diferente um produto criado sob a ótica de um roteirista sul-americano será. Estou curioso para ver resultado.

(como não poderia deixar de ser, via Blogacine)

quarta-feira, 14 de maio de 2008

ENTRE IDAS E VINDAS

Nesse fim de semana dei um pulo em casa - para quem não sabe, o ramo épsilon-teta-gama do clã dos Massula, após muita deliberação, decidiu sediar sua base de operações, permanentemente, em Curitiba - e vi aceso novamente meu interesse pela anatomia de uma história em quadrinhos.

Talvez por ter achado NARRATIVAS GRÁFICAS, do Eisner, mais um dos bons livros que eu comecei e, sabe-se lá porque, larguei pela metade. Não me vejo, pelo menos não num futuro próximo, perdendo tempo digitando o que quer que seja que tenha a intenção de se transformar numa história em quadrinhos. Muito suór, sofrimento e decepção, vocês já devem ter lido a história alguma vez por aqui.

De qualquer maneira, eu já estava com o livro do Peter David aqui no hotel - outro que há certo tempo aguarda para ser lido - e não é que, no aeroporto, descubro que saiu DESENHANDO QUADRINHOS, o livro novo do McCloud?

Sim, eu sei, o livro saiu ano passado e foi anunciado em tudo quanto é blog/site de quadrinhos. Mas eu, que não tenho passado mais tanto tempo surfando por essas bandas, não vi. Comprei, obviamente.

Para muita gente, pode parecer estranho alguém que um dia se auto-proclamou “roteirista de quadrinhos” (hahaha...) mostrar interesse por um livro que tem a palavra *desenhando* no título, certo? Errado.

Primeiro: apesar do nome, o livro não é sobre desenho em si. É sobre narrativa, algo que todo roteirista wannabe deveria se preocupar em conhecer. Na verdade, a tradução do título foi meio infeliz, uma vez que o original - MAKING COMICS - cobre um espectro maior do que o ato de desenhar, somente..

Segundo: qualquer atividade, seja criativa ou técnica, está relacionada a outras. O mínimo que alguém que deseja ser bom em algo precisa fazer é saber o que se passa à volta do seu ofício.

Terceiro: Eu sou fã do McCloud.

SCRIPPED.COM

Mais um formatador online para roteiros cinematográficos. De qualquer maneira, continuo preferindo o Zhura.

terça-feira, 6 de maio de 2008

SOPHOCLES SCREENWRITING SOFTWARE - R.I.P.?


Embora eu seja defensor ferrenho do Celtx e tenha feito o projeto do meu primeiro roteiro de longa nele, o roteiro em si foi redigido no Sophocles, que tem alguns recursos mais atraentes que o programa canadense. Cheguei mesmo a considerar seriamente a possibilidade de comprá-lo.

Mas, há dias o site do Sophocles está fora do ar, e bandeando pela internet acabei esbarrando neste fórum, que me levou a este outro, onde um longo tópico - que, evidentemente, termina descambando para outro assunto - tece teorias sobre o que realmente aconteceu.

Se o programa dançou mesmo, é uma pena. Era uma boa ferramenta.

ATUALIZANDO: E a coisa ganha contornos cada vez mais tragicômicos...

segunda-feira, 5 de maio de 2008

MIRAGE MAN!!!

Kick Ass? Watchmen? La verga!

O negócio é Mirage Man, filme chileno que mistura pancadaria, vigilantismo e, por que não, humor.

terça-feira, 22 de abril de 2008

O NOME DA ÁGUIA - CONVITE PARA O LANÇAMENTO

Bom, pessoal, segue abaixo o convite para o lançamento de O NOME DA ÁGUIA, livro do meu camarada Alexandre Lobão, que mencionei em meu último post.

Quem estiver em Brasília no dia 03 de Maio, apareça por lá.

sábado, 19 de abril de 2008

LIVROS, LIVROS E MAIS LIVROS

Sábado passado, chegando ao aeroporto de Curitiba, fui, como quem não quer nada, dar uma passadinha na livraria.

E não é que me surpreendo - e estamos falando de uma grata surpresa - com uma pequena pilha do O NOME DA ÁGUIA, novo livro do meu camarada digital Alexandre Lobão, junto aos best-sellers do momento (e não entremos aqui em méritos de valor estético de uns e de outros, certo?).

Mais tarde, fui a uma outra livraria, à cata d'O NOME. Não encontrei meu alvo, mas não é que me surpreendo - de novo! - com mais dois lançamentos dos quais não fazia a mínima idéia?

O primeiro a ser avistado foi KAFKA À BEIRA-MAR, catatau parido por Haruki Murakami. A propósito, só agora descobri o hotsite da Alfaguarara, selo editorial da Objetiva.

O segundo foi AS REVELAÇÕES PICANTES DOS GRANDES CHEFS, “novo” do escocês Irvine Welsh, autor de Trainspotting, Porno e outras doideiras.

Cofrei os dois.

Enquanto isso, terminei de devorar VOLÁTEIS, de Paulo Scott (?). Comprei esse livro há mais de um ano (28/2/2007, para ser mais preciso. Sim, tenho o - mau - hábito de anotar as datas em que compro meus livros, assim como povoar qualquer texto com travessões). Sei lá porque teimava em associar a literatura do Paulo a um certo nicho que não me faz muito a cabeça. Ledo engano. O romance é permeado de personagens interessantes - uns fazendo apenas rápidas aparições, a propósito. A narrativa é sólida, o texto flui e o final surpreende. O que mais um leitor poderia querer?

Voltando a'O NOME DA ÁGUIA, comprei meu exemplar um dia depois, e Lobão já começao livro chutando o pau da barraca logo nos agradecimentos, com uma pegadinha (bem, presumo que seja uma pegadinha) que vai passar batida para muita gente.

Por fim, trouxe na bagagem também WRITING FOR COMICS WITH PETER DAVID, cujo título se auto-explica. Embora continue momentâneamente resoluto em não perder mais tempo escrevendo roteiros de hq, o assunto sempre vai me interessar, e David é um dos roteiristas de quem mais gosto.

E, a propósito, o Absma dá mais um passo em direção ao milésimo blog. E meta é alcançar esse número nesssa encarnação. Vai lá!

segunda-feira, 31 de março de 2008

DEXTER, PRIMEIRA TEMPORADA.

Dexter é semelhante a vários outros programas de tv, que sempre quis assistir, mas nunca consegui.

De qualquer maneira, na época do DVD e do bitTorrent, tempo não é mais desculpa, e dentro em breve tentarei, aham!, matar minha vontade.

Anyway, acho do grandecíssimo caralho a imagem do box de DVDs da primeira temporada.

sábado, 29 de março de 2008

[ROTEIRO DE CINEMA]

Foi ao ar uma colaboraçao minha - a primeira de muitas, espero - para o site [roteiro de cinema], mantido pelo Fernando Marés.

E, como não poderia deixar de ser, a bola da vez foi minha ferramentinha preferida.

Siga o link.

domingo, 23 de março de 2008

SOBRE PROPRIEDADE INTELECTUAL E OUTROS BICHOS

De um tempo pra cá, o assunto que dá nome a esse post tem me interessado por demais - prometo que tento desenvolver mais qualquer dia desses -, e hoje acabei esbarrando neste post interessantíssimo que fala da tentativa da Microsoft homologar seu OOXML como (*outro*) padrão ISO para documentos eletrônicos.

segunda-feira, 17 de março de 2008

W.T.F.?

Sei que não ando atualizando muito o blog, e a situação deve permanecer a mesma por um bom tempo. De qualquer maneira, vez ou outra posto algum link ou bobagem no Twitter (do seu lado esquerdo, onde está escrito "Twitter Updates"), então, caso seja do seu interesse, dê uma passada de vez em quando.

sábado, 8 de março de 2008

PAGO PARA ANUNCIAR EM SEU CORPO

Não poderia ser mais engraçado.

Artigo do Fábio Fernandes, que fala sobre a Língua Patrocinada, que, por sua vez, tem muito a ver com o post aí de baixo.

E mais não digo.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

ADSENSELESS

“Macanudo Geist vinha de uma tradicional linhagem de tecnófilos, - o bom-senso do escrivão foi a única coisa a impedir que seu nome do meio fosse Playstation 2 - e todos acharam perfeitamente natural sua decisão de se filiar ao programa de Marketing CorporAltivo da Googolplex”.

Quer ler o resto? Go!

ADSENSELESS - Parte 1

Márcio Massula Jr.

        Macanudo Geist vinha de uma tradicional linhagem de tecnófilos, - o bom-senso do escrivão foi a única coisa a impedir que seu nome do meio fosse Playstation 2 - e todos acharam perfeitamente natural sua decisão de se filiar ao programa de Marketing CorporAltivo da Googolplex.

        Esse nome, aliás, um trocadilho pouco brilhante com palavras de ordem da empresa em questão, foi execrado num dos vários brainstormings feitos pelo filial regional, responsável pela criação e desenvolvimento do programa. Mas um executivo comentou com um subalterno, que comentou com outro, que enviou um email a uma publicação especializada em tecnologia, que lançou o termo no mercado antes mesmo que o serviço fosse anunciado oficialmente.

        O funcionário que deu a idéia não recebeu os créditos, aliás.

        O princípio era muito simples: a Googolplex colocaria anúncios nos corpos das pessoas, mediante um pagamento justo, evidentemente.

        Merchandising em peças de vestuário era algo que vinha sendo feito desde o século passado, portanto essa opção foi a primeira a ser descartada. As primeiras tentativas foram com a utilização de tatuagens UV. O problema era que os anúncios estavam restritos a um nicho muito específico de clientes potenciais – os frequentadores de casas noturnas. Uma evolução foram os pigmentos fotorreativos, que eram ativados de acordo com espectros de luz ambiente pré-programados. Mas, novamente, houve o problema de penetração dos anúncios, uma vez que eles eram definidos de acordo com o perfil do Vetor (o termo que a empresa utilizava para se referir às pessoas que se dignavam a gravar os anúncios em suas peles), e mudanças repentinas de religião, estado civil ou político costumavam por tudo a perder. Havia ainda os Vetores arrependidos - que não eram poucos. Eles renderem muita dor de cabeça aos advogados da empresa, já calejados em enfrentar nos tribunais pessoas que queriam que as tatuagens fossem retiradas antes do término do contrato. Mesmo que houvesse uma cláusula bem definida a respeito da quebra de contrato por parte dos contratados, no caso, os Vetores. Os contratos, aliás, eram verdadeiros labirintos jurídicos, redigidos em estilo quase barroco, expandindo o jargão legal para limites que iam além das capacidades cognitivas de uma pessoa normal. Os candidatos simplesmente desistiam na terceira ou quarta página, pulavam para o final - onde estavam grafados os valores que receberiam - e assinavam. Afinal, qual o problema de se andar com um anúncio estampado em seu próprio corpo por um período determinado de tempo?

        O próximo passo foi o que os técnicos da Googolplex chamaram de "Faixa de Anúncios", um dispositivo composto por uma tela de espessura microscópica, ligada a outros periféricos, que deveriam, por sua vez, ser implantados na caixa craniana dos Vetores. Essa mudança de processo acarretou, como era de se esperar, um aumento substancial nos pagamentos dos Vetores assim como no número de cláusulas e letras pequenas dos contratos de adesão.

        O funcionamento da Faixa de Anúncios, é tecnicamente complexo, mas funcionalmente simples: o dispositivo consiste de uma tarja de papel eletrônico, ultrafina, implantada na testa do usuário. A tarja é alimentada por uma bateria recarregada por movimento pendular ou por luz ambiente. Ela também conta com uma antena que pode captar sinais em qualquer localidade onde haja uma conexão Wi-Max disponível, o que significa - com exceção de umas poucas dezenas de comunidades com restrições religiosas - no mundo inteiro. Há também uma micro-câmera, de definição muito pequena, mas suficiente para captar trejeitos e expressões corporais de qualquer pessoa que conversasse com um Vetor. Ela ainda conta com microfones que captam as palavras-chave trocadas numa conversa e contextualizam os anúncios de acordo com as mesmas. Há ainda a ferramenta de condução, que são dois micromotores nos quais, nas pontas dos eixos, eram soldados pesos excêntricos que, assim como em smartphones e joysticks, ao girarem, provocam vibrações pequenas mas incômodas nas têmporas do Vetor, onde são implantadas. E, por fim, há um complexo sistema de biometria que monitora o estado físico do usuário, e, por exemplo, desliga a tarja ou ainda deixa-a em modo stand-by caso o Vetor não esteja conversando com alguém.

        Pelas cláusulas do contrato, os Vetores receberiam por produção. Isso significava que não era necessário cumprir horários ou metas, mas ficar em casa o dia inteiro não seria nada lucrativo. O contrato também não imputava qualquer tipo de restrição às ocupações pregressas dos Vetores, que poderiam continuar trabalhando e executando quaisquer outras atividades que lhe eram familiares. O sistema de crédito era um tanto obscuro, mas basicamente dependia do Vetor travar uma conversa que desse margem a todo tipo de assunto possível, que, por sua vez, daria margem a todo tipo de anúncio possível. O sistema da Faixa de Anúncios faria uma varredura no interlocutor do Vetor e mediria o interesse deste pelas mensagens e propagandas exibidas na tarja. Quanto maior o interesse, fosse demonstrado verbal ou gestualmente, maior o pagamento.

        A grande questão era que um Vetor, além de ter que ser extremamente desinibido - afinal, andar com uma tela implantada na testa não era tarefa para os mais comedidos - tinha também que ter muita, mas muita lábia. Porque, se para a maioria das pessoas, a oportunidade de entabular conversa com um desconhecido no meio da rua já não gerava boas expectativas, o que dizer de um desconhecido cuja testa cintilava anúncios diferentes a cada segundo? O trabalho do Vetor era prender a atenção de uma pessoa o maior tempo possível, sem se tornar um estorvo. A conversa deveria variar, ir de um lado ao outro, sem que o interlocutor percebesse. Embora houvesse um intenso treinamento, as capacidades inatas dos candidatos contavam muito, e tipos acanhados já eram eliminados logo nos primeiros estágios do processo seletivo. O Vetor deveria ter a capacidade de mudar o tema da conversa sem que o cliente percebesse. Tinha que ser dialético, de um jeito hegeliano. Ou heinsenbergiano. Enfim, tinha que vender o peixe. E bem.

        Ainda sob efeito de sedativos e analgésicos, ofuscado pela luz do sol e com a cabeça prestes a explodir de tanta dor, Macanudo passa pelas portas do centro médico da Googolplex.

        Ele tem que chegar em casa. Mas antes, tem que falar com uma pessoa. Qualquer uma.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

CONVERTENDO ARQUIVOS DO CELTX PARA .ODT

Um cara criou um programa para converter os arquivos .html do Celtx em arquivos .odt, utilizados pelo processador de textos Writer, do Br/OpenOffice.

O processo é meio trabalhoso - requerendo, inclusive, a instalação do Python - mas testei aqui e, com exceção da página-título, funcionou legal.

Mais detalhes no fórum.